Domingo, 9 de Dezembro de 2007
PEÕES EM JOGO_CINISMO E PROPAGANDA
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Não vale a pena perder tempo nem dinheiro com o novo filme de Robert Redford, Lions for Lambs ou Peões em jogo (2007), sobre a guerra ao terrorismo e a intervenção no Iraque. Uma lição de auto consciência que chama a atenção para a cumplicidade colectiva na construção dos esquemas e das estratégias de guerra: “cynical politicians, lazy reporters, apathetic students, self-satisfied baby boomer intellectuals -- in the failure of the Iraq war, so it pairs a cynical politician with a lazy reporter, an apathetic student with Robert Redford (he makes a very unconvincing professor), and has them make them. Meanwhile, a pair of underprivileged but uncommonly gifted soldiers prepare to die heroically in an Afghan ice field as the white characters discuss the pros and cons of various philosophical positions” (Chocano, 9 de Novembro de 2007, Los Angeles Times). 

Peter Bradshaw no Guardian (Novembro, 2007) não é mais piedoso: “Until seeing this, I thought that the most condescending and toe-curling liberal response to 9/11 was the notorious special edition of TV's The West Wing, in which the characters self-importantly addressed a visiting group of schoolchildren on all the attendant issues - and effectively talked down to the audience in the same way. But Lions for Lambs is far worse: dull, inert, schoolteacherly, desperately self-conscious in its exposition of the issues - and with hogwhimperingly bad performances. Golden-haired Robert Redford, 71 years young, looks like some kind of animatronic model made out of wood, and whingey, snuffly Meryl Streep is supremely annoying. Tom Cruise, however, does deliver something like the right combination of sinister ideological commitment and flesh-pressing charm”.


Por estas e por outras razões, que nem vale a pena salientar, não é um filme que se recomende. Um documento cínico e propagandista sobre o cinismo e a propaganda repleto de auto consciência.
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12 comentários:
De Anónimo a 10 de Dezembro de 2007 às 03:08


De rafgouv a 10 de Dezembro de 2007 às 12:00
Pois! Eu recomendo: é um filme honesto, demonstrativo mas bastante complexo, de esquerda mas totalmente desprovido de "esquerdismo" (e daí sem dúvida as críticas de ser demasiado "manso") e sobretudo com espantosos actores SOBRIOS (exemplar Tom Cruise)... Não se espere aqui demonstração nenhuma de virtuosismo, é simplesmente um filme político com inteligência suficiente para não transformar as suas personagens (balofas, preguiçosas, bem-pensantes, cínicas e tudo aquilo de que os críticos patetas acusam os actores ou o realizador sem perceberem que é isso que dá profundidade ao filme) em heróis exemplares. Isso, para mim, é um ENORME trunfo.

Pensar que os primários panfletos do Clooney são considerados mais interessantes que este filme tão didáctico quanto simpático...


De mouseland a 10 de Dezembro de 2007 às 14:30
:mrgreen::mrgreen::mrgreen:

Eu própria estive quase a cair na esparrela emocional do filme ao pensar com os meus botões durante a sessão: "olha aqui está um filme simple(zinho) que explica umas noções abstractas através de alguma dialéctica (tese e antítese)... Depois, ao sair da excelente sala (Praça de Touros) onde visionei este documento do tipo “pastelão” coloquei-me a seguinte questão: o que é que eu aprendi com isto? Hum… que os jovens se refugiam na ficção para fugir às agruras da realidade? Wowww… a sério? Não será uma evidência que é necessário inquirir sobre inúmeros prismas e lentes? Que os media trabalham em equipa com os políticos? A Mariano Oteiro foi mais eficiente a denunciar o caso português, por exemplo. Hoje penso que estas ligações também requerem um discurso mais complexo. Que os professores ensinam quando não tem mais sorte nenhuma na vida? E pior para pagar empréstimos ao consumo…O ensino deve ser assim humilhante nos Estados Unidos e, quem sabe, em Portugal… felizmente conheço casos em vários países inclusive em PT e nos EUA em que as pessoas optam pelo professorado como uma saída mais do que digna para as suas vidas… Que os jornalistas andam enganados a vender políticos? Pobre jornalista que aos 57 anos constata que precisa de escrever sem convicção para pagar o lar da mãe… depois há os desgraçados que vão para a guerra salvar o país… coragem e dedicação sem nuances filosóficas… assim preto no branco e a esses e àqueles que estiveram no campo de batalha é que devemos prestar homenagem....

O que é que eu aprendi com aquele filme? Que as simplificações funcionam eficazmente para gerar emoções mas que em termos de narrativa da acção é ridículo na sua falta de profundidade. Não vejo diferença entre o discurso dos jovens que agem alistando-se no exército em nome da bandeira em relação ao discurso fundamentalista que impõe ao suicida que morra por Alá. Ali aparece tudo flat… Prefiro o registo de “As Bandeiras dos Nossos Pais” (Clint Eastwood, 2006) que mostra que na guerra não há heróis e que os momentos épicos que lemos nos manuais escolares são ficções tão boas como qualquer boa literatura. Agora soldados totalmente feridos que se levantam para receber as balas, do tipo contentores das borradas da humanidade, por que afinal sempre foi assim, como muitas vezes a jornalista diz, para explicar padrões no comportamento humano… poupem-me! Obras didácticas desta natureza … com lições(zinhas) de pacotilha... xxx mouse


De rafgouv a 10 de Dezembro de 2007 às 14:44
:mrgreen::mrgreen::mrgreen::mrgreen:
Pois! É realmente pena que não tenhas aprendido (com este filme ou com outro qualquer) a "diferença entre o discurso dos jovens que agem alistando-se no exército em nome da bandeira em relação ao discurso fundamentalista que impõe ao suicida que morra por Alá"...
Confesso que sou ainda mais fraco e preguiçoso do que o Redford para ensinar isto mas podes pedir assistência também ao Eastwood que é um especialista desta questão.
Concordo com 1 coisa: "Flags of Our Fathers" é um filme belissimo, quanto a mim superior a Iwo Jima, embora me resguarde de lhe retirar a moral ridicula que lhe extrais ("não há heróis"???? claro que há mas são "soldados desconhecidos"). E eu que pensava que eras uma "rapariga da complexidade"...


De mouseland a 10 de Dezembro de 2007 às 16:17
:mrgreen::mrgreen::mrgreen::mrgreen::mrgreen:

“Flags of Our Fathers” é um filme chato com uma ideia interessante: a construção da figura do herói. Se bem me lembro o anónimo coloca a bandeira, a personagem fica na fotografia para a posterioridade… Neste filme de Robert Redford a mensagem é outra e bem mais singela, qualquer um pode sofrer uma metamorfose e transformar-se em herói mediante acções eficientes. Mandar os estudantes que gastam um budget astronómico a debitar teorias vãs para o campo de guerra para aprenderem as agruras da vida por via da dureza da batalha… digno de um mestre de ciência política, basta olhar para os números (segundo o Prof. do filme as estatísticas fornecidas pelos alunos não eram rigorosas portanto levaram B+…). God, que ensaio eficiente! Prefiro aquela estratégia da Universidade "global" que manda os estudantes das melhores universidades do planeta para um barco darem a volta ao mundo durante um ano!).

“Flags of Our Fathers”, quanto a mim, sendo um filme interessante em termos cinematográficos não tem a força das “Cartas de Iwo…”. O herói é um constructo feito de inúmeros homens de carne e osso, um super homem abstracto que nada tem a ver com a realidade. Essa é uma boa ideia! Engraçado seria dizer que as invenções são fruto da mesma construção em relação ao génio humano… No entanto, como filme torna-se chato e não é totalmente conseguido. xxx mouse


De rafgouv a 10 de Dezembro de 2007 às 16:56
:mrgreen::mrgreen::mrgreen:
Insisto: Não vi heróis no filme de Redford... e pelo contrário achei a personagem do professor particularmente maltratada com toda a sua hipocrisia (não te passou pela cabeça que fosse essa a motivação dessas notas elevadas??) e boa consciência.

Quanto a "Flags of our Fathers" não me vou estender muito, embora o filme a isso se preste. O tema do filme não é tanto a "construção da figura do herói" mas o heroismo na era da "mediatização". Apesar das personagens que figuram na fotografia não serem os "verdadeiros heróis" ninguém discute que outros soldados até tombaram por aquela bandeira... É de alguma forma um filme sobre o próprio cinema (ou em todo o caso sobre o cinema "documental") e sobre os mitos da era audiovisual (uma espécie de prolongamento hiperlúcido do "The Man Who Shot Liberty Valance" de John Ford, que já focava a importância da imprensa na transmissão dos mitos do velho oeste).


De migalha a 24 de Dezembro de 2007 às 15:07
Bem, juntam-se três "cabeças de cartaz", um canastrão Tom Cruise, uma cansada e em fim de carreira M. Streep e um simpático mas vazio Redford e cozinha-se um filme (?) moralista com um tema da moda. É tudo de uma vacuidade tremenda. Os dois broncos que se alistam e vão para a guerra pois querem dar o exemplo (isto de andar a matar gente lá por terras do Afeganistão é cá um exemplo...) e que morrem de pé, de mãos dadas, orgulhosos filhos do tio Sam, perante os bárbaros, o simpático e plástico professor a tentar "educar" o puto rebelde (presume-se que no fim, qual iluminado, o imberbe vê finalmente a luz ao fim do túnel que o messias lhe indica - não há pachorra) e a ridícula entrevista em que a jornalista se apercebe do logro que é o "seu" senador e depois vai carpir as mágoas com o chefe de redacção entretanto aburguesado (só faltou fazerem sexo ao vivo no cubículo da redacção para apimentar a coisa). Tudo uma verdadeira perda de tempo e ... dinheiro. :mad:


De rafgouv a 26 de Dezembro de 2007 às 10:50
Caro Migalha,

Achas mesmo que o "simpático" Redford pensa que os magalas não são "broncos"? Achas que ele tb não topou que a personagem de Streep é uma valente hipócrita falsamente carpideira??? Achas que não é sobretudo o senador que é "canastrão", ainda mais do que o Cruise? Achas seriamente que a opinião e o olhar do realizador Redford sobre as suas personagens se confunde com o olhar e a opinião do balofo professor sobre os seus alunos???????
Eu não sou particularmente fã de Robert Redford mas estou certo que ouviu falar de Bertold Brecht (de quem tb não sou grande fã) cuja dialéctica aqui aplica. Este é um filme sóbrio, talvez pouco imaginativo e mesmo pouco "aplicado" mas é tudo menos um filme naïf e moralista no que toca às suas personagens, nenhuma delas se pretendendo exemplar nem totalmente indigna.


De mouseland a 27 de Dezembro de 2007 às 00:46
:mrgreen::mrgreen::mrgreen: Hello Migalha, há muito tempo! Fartei-me de rir com estes comments, hehehe :lol: vou aguardar e ler desta vez os vossos comentários. xxx mouse


De migalha a 30 de Dezembro de 2007 às 13:32
Caríssimo Rafgouv

Em primeiro lugar permita que discorde do seu ponto de vista em relação a essa máxima de filme sóbrio (se calhar era melhor que o realizador o tivesse tentado dirigir enquanto ébrio...) pois as personagens, numa outra variante às duas possibilidades por si levantadas, exemplares versus indignas, oh miserável maniqueísmo!, não se podem enquadrar em nenhuma categoria pois não têm qualquer substância. É tudo um buraco negro, não daqueles em que uma região do espaço-tempo é concentrada e delimitada, R=2GM/c2, o famoso e tétrico “horizonte de acontecimentos”, mas sim dos outros em que o oco é só oco e desprovido de qualquer concentração de recheio (referências seguras à época natalícia que atravessamos...), ou energia. Em segundo, e último, esse seu amigo, o bertolo brecho, nisto há que falar bom e genuíno português, entrava em que cena no filme? Era aquele bem nutrido estudante que punha as questões incómodas, e patéticas, no auditório da universidade onde o simpático professor reinava? Ou estará porventura a referir-se aqui à pretensa estimulação da tal consciência política que o honorável realizador, à semelhança do antigo e cerradíssimo dramaturgo, deseja despertar nos seus incautos espectadores? É que se assim for a única coisa que genuinamente despertou em mim foi revolta por ter tomado a consciência, cívica mas não política, de que os cinco euros que paguei pela sessão foram, em certa medida, e por vias travessas, que isto é como o tortuoso caminho do Senhor, parar aos bolsos do seu admirado e honesto “roberto”! E isso sim, dói! Dr. House, please. :evil:


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