Segunda-feira, 25 de Fevereiro de 2008
“NO COUNTRY FOR OLD MEN”, O WESTERN DOS COEN_por Rafgouv
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Confesso que não sou grande fã dos irmãos Coen. Todos os seus filmes revelam enormes qualidades de escrita, todos eles testemunham da tremenda ambição de referenciar e igualar a herança dos géneros clássicos, através de uma distanciação irónica tipicamente pós-moderna, todos eles contêm tesouros de acidez e de crueldade sarcástica, todos eles partem de pressupostos aliciantes (um território, um elenco, um género...). No entanto, se tenho sempre vontade de me precipitar para descobrir cada nova incursão dos autores de Blood Simple, é forçoso reconhecer que fico quase sempre bastante desiludido. Apenas duas das suas obras me deixam totalmente estarrecido, Miller’s Crossing e The Man Who Wasn’t There, e fico sempre desolado por não ser capaz de aderir completamente a The Hudsucker Proxy, The Big Lebowski, Fargo, e Blood Simple (filmes a que gostaria de infligir algumas tesouradas). Quanto à outra metade da obra dos dois exegetas, cai-me literalmente dos olhos, um pouco como os livros de Paul Auster me caiem das mãos, e tenho até dificuldade para permanecer acordado durante a sua visão. 

Na verdade, se a ironia metafísica que é o principal traço da aspiração dos Coen impõe uma arquitectura narrativa praticamente borgesiana nas duas obras-primas já citadas, os outros padecem sempre a um ou outro momento do exibicionismo gratuito de uma inteligência empenhada em assumir o carácter lúdico da exegese [1]. Essa vertente conduz tanto à desumanização caricatural das personagens (os Coen fracassam sempre que se medem a Tex Avery ou Preston Sturges), quanto à exaltação assumidamente masturbatória da figura do escritor, do argumentista, do contador de histórias (de que é testemunha o cerebral e indigesto Barton Fink, um dos filmes mais chatos e sobrestimados das últimas décadas) que faz com que os seus projectos se aparentem a meros exercícios, mas exercícios lúdicos que não cessam de reclamar a conivência do espectador cultivado, a quem piscam descaradamente o olho com uma bandeja de trocadilhos bem urdidos, de citações habilmente cruzadas e disfarçadas, de argutos jogos de espelhos.

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Terão compreendido: foi com um misto de curiosidade e de cepticismo que entrei na sala onde visionei No Country For Old Men. Desta vez, os elementos que aguçavam a minha curiosidade eram a forma como os Coen se teriam saído da tarefa de adaptar o romance seco e existencialista de Cormac McCarthy e as presenças de Tommy Lee Jones, num papel que lhe assenta como uma luva, e do potente Javier Bardem, escolha mais iconoclasta para dar corpo ao apocalíptico Anton Chigurh. Rapidamente percebi que estamos face a um dos melhores filmes do duo e apenas a parte de desilusão que comporta forçosamente assistir à transposição no ecrã de um romance poderoso me impede de o equiparar aos seus dois cumes. Os autores optaram por uma adaptação extremamente fiel da narrativa de McCarthy, tendo no entanto eliminado ou deslocado os monólogos do Xerife Bell que no livro alternam com as passagens narrativas. Do discurso do Xerife restam apenas as frases que abrem o filme e algumas passagens integradas nos diálogos que mantém com outras personagens.  

Ao eliminarem o discurso de Bell, é uma boa parte do lirismo da obra de McCarthy que os Coen eliminam, guardando sobretudo aquilo que o livro já tinha de profundamente cinematográfico: a sucessão de gestos, as elipses e os diálogos reproduzidos praticamente sem modificações [2]. A adaptação reforça assim a secura, a aridez, da narrativa, bem como a solidão existencial das personagens num país de céu e areia, um país de western onde os jeeps substituíram os cavalos, onde os bandidos são poderosos traficantes de droga e os índios jovens bárbaros “com ossos no nariz”, mas onde os cowboys modernos, como os seus antepassados clássicos, estão condenados à morte... ou à reforma.

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Um western é a história dum homem que desafia a natureza e a domestica, graças ao progresso técnico e à lei, mas que é obrigado pela própria essência da sua tarefa a sacrificar, a partilhar o domínio e a exclusividade do seu território. Na conquista do Oeste, cada pedaço de terreno domado é um pedaço de terreno perdido e no fim de cada missão, de cada etapa, de cada aventura, o herói do western, de olhos fixos no horizonte, afasta-se na direcção do crepúsculo, fugitivo ou descobridor forçosamente condenado a ir ver mais longe, ou inversamente entra em casa e rende-se, por um tempo ou definitivamente, ao conforto burguês da vida familiar... ou ainda, leva um tiro. O herói de western, o cowboy, é aquele que joga o seu espaço, arriscando a vida, como Llewelyn que troca a caça ao antílope por uma perigosa caça ao magote, ou o instinto, como o Xerife que se retira aceitando a fatalidade eventualmente maligna do progresso. Se o fracasso de Llewelyn é essencialmente um fracasso da inteligência e da técnica, a derrota de Bell é uma derrota moral. Ambos os heróis afrontam a determinação letal de Anton Chigurh, o único que não joga para ganhar mas apenas pelo prazer de jogar. 

A mitologia do velho oeste é indissociável da nostalgia de um passado cronologicamente próximo mas já irremediavelmente perdido, fatalmente ultrapassado. Os primeiros westerns datam praticamente do início do cinema e os grandes autores clássicos de western foram contemporâneos de algumas das lendas que retrataram. Wyatt Earp, por exemplo, acabou a sua vida em Hollywood, até morrer em 1929, e conheceu John Wayne e John Ford. Para não falar de Buffalo Bill, misto de aventureiro e de entertainer. Tudo isto para insistir sobre o facto de que o western retrata desde os seus primórdios factos de uma grande proximidade temporal, factos quase contemporâneos, reivindicando muitas vezes um aspecto fortemente documental.


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Em No Country For Old Men existe também esse misto de proximidade cronológica e de irreparável distância em relação a um passado próximo. Como no romance, somos obrigados a fazer contas com as datas evocadas para podermos situar a intriga em 1980, mesmo se aparentemente esta se passa num Texas praticamente contemporâneo. E digo praticamente porque um dos enormes feitos do filme, aquilo que o filia no género western e que afirma simultaneamente a sua impressionante modernidade, é precisamente a forma como nos faz intimamente suspeitar, temer, tudo o que terá mudado entre 1980 e 2007, data da sua estreia: A tonalidade da fotografia? A fragilidade dos motéis pré-fabricados [3]? A porosidade da fronteira mexicana? A inocência terra a terra de uma população indefesa face à crescente sofisticação do mal? Neste aspecto, a ideia genial do filme é sem dúvida o já célebre penteado [4] de Bardem/ Anton Chigurh, que encarna figurativamente o carácter sofisticado do assassino no território texano, ao mesmo tempo que vinca o seu anacronismo, o seu aspecto “fora de moda”, para os espectadores. Ora, se o seu penteado está ultrapassado, podemos imaginar, com o Xerife Bell, que também a crueldade de Chigurh terá sido superada.





[1] Os filmes dos Coen são sempre estudos sobre os géneros e o “storytelling” do cinema clássico.

[2] Podemos perguntar-nos aliás se essa não terá sido uma fidelidade excessiva na medida em que me pareceu que alguns desses diálogos soam ligeiramente forçados no filme, impressão que não tive ao lê-los.

[3] O filme contém um tratado extremamente preciso sobre a arquitectura e a engenharia texana, com as paredes de contraplacado, condutas poeirentas e revestimentos surrados que os motéis partilham com caravanas e habitações.

[4] Os Coen merecem uma tese semiológica sobre o fetichismo que os « couvre chef » (penteados, chapéus...) assumem na sua obra.


6 comentários:
De mouseland a 25 de Fevereiro de 2008 às 01:14
:mrgreen::mrgreen::mrgreen: Gostei muito do texto e enquanto espero a noite dos óscares aqui ficam algumas considerações.

Ainda não vi o filme mas estou com curiosidade. Principalmente devido ao livro que confesso ainda não li mas do qual oiço dizer maravilhas. Eu sou fã do "The Hudsucker Proxy", gostei de "Fargo" e de "Blood Simple" mas fiquei estarrecida com o filme "O Brother, Where Art Thou?". Comprei em DVD e senti-me tão desiludida que não queria acreditar naquele produto cinemático dos irmãos Coen... embora saiba que há quem adore a charopada... achei o filme patético. Também não sou grande fã do "The Big Lebowski" mas achei alguma piada. "Barton Fink" vi em VHS, no tempo dos videoclubes, mas não me encantou tanto como ouvia dizer... os Coen são de facto algo imprevisíveis. xxx mouse


De rafgouv a 25 de Fevereiro de 2008 às 10:54
:mrgreen::mrgreen:
Hello mouse,
As nossas antenas em Hollywood acertaram e os Coen acabaram mesmo por ganhar os 2 óscares principais (realização e melhor filme) além do atribuído a Javier Bardem que de forma alguma lhe poderia ter escapado! Vale a pena assinalar que 2007 foi um ano excepcional (qualitativamente) para o cinema e para o cinema americano em particular e que muitos outros poderiam ter vencido a cerimónia sem que tivessemos ficado chocados.

Achei deveras interessante a forma contraditória com que utilizamos os 2 a palavra "estarrecido": eu para referir a enorma admiração suscitada por The Man Who Wasn't There e Miller's Crossing e tu para exprimires o pavor que te causou o péssimo (I agree) O'Brother.


De mouseland a 25 de Fevereiro de 2008 às 12:03
:mrgreen::mrgreen::mrgreen: Este ano não aguentei até ao fim. Por volta das 4 da manhã apaguei a luz mas fiquei contente com os três prémios do "The Bourne Ultimatum " (melhor som, efeitos de som e montagem). Depois, gostei da consagração do ratito (muitos franceses premiados, hehehe), da atribuição do prémio consagração a Robert Boyle e da direcção artística ao filme do Tim Burton. A banda sonora de "Expiação" também mereceu o prémio que ganhou.

Há muitos filmes a descobrir agora, hehehe. xxx mouse


De migalha a 4 de Março de 2008 às 17:16
Pois é Raf, eu cá sou grande apreciador de Cormac Macarthy, o meu escritor contemporâneo de eleição, pelo que quero muito ir ver este filme. Não que simpatize particularmente com os Cohen mas porque estou curioso para ver como é que se consegue adaptar esse romance minimalista ao cinema (tem piada que não vi aqui nesta crónica uma palavrinha de agradecimento para quem te deu a descobrir o book!, isto há cada ingrato...). Já agora, se gostaram do enredo não percam o livro The Road... :grin:


De rafgouv a 6 de Março de 2008 às 15:55
:oops:
Migalha,
Pensei que implicitamente terias percebido que este texto te era dedicado... nele inseri mesmo algumas piscadelas de olho na tua direccao.
Alem disso, tinha exprimido junto da nossa anfitriã a gratidão pela descoberta. Pelos vistos ela não te transmitiu essa mensagem!!??
Depois falaremos tb sobre The Road, essa vibrante homenagem evangelica a I'm Legend de Richard Matheson (aqui evocado recentemente por mouse) e a outras ficcões de zombies... Claro que um conservador cristão MAS TOTALMENTE LIBERTARIO como eu só pode adorar... Uma vez mais, e para que fique bem claro: THANKS!!!


De mouseland a 22 de Março de 2008 às 17:42
:mrgreen::mrgreen::mrgreen: Gostei muito do filme. Ainda não li o livro mas também gosto bastante do escritor de quem só li "All the Pretty Horses" (1992), que me fez lembrar o William Faulkner que num certo momento da minha vida foi talvez o meu escritor favorito. Digo em certo momento sem contudo querer dizer que gosto hoje menos dele mas apenas que muito me influenciou em determinado momento.

Este filme dos Coen é fabuloso, fiquei arrepiadinha com o Bardem e senti uma nostalgia imensa com os diálogos do xerife. Os diálogos vão fazer-me ler o livro em breve pois foram de facto o que mais me marcou no filme. Aquela história do pai que morre mais novo do que o filho ou o constante desajuste da personagem aos tempos em que vive. Adorei. Imprescindível mesmo. xxx mouse


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