Sábado, 5 de Abril de 2008
“DUAS IRMÃS, UM REI”_UMA CORTE FEIA, PORCA E MÁ
theotherboleyngirl.jpg

Acabei por ir ver o filme The Other Boleyn Girl (Duas irmãs, um Rei) de Justin Chadwick, 2008. Fiquei com curiosidade depois de ler a sinopse porque se tratava da história de Ana Bolena e do rei Eduardo VIII. Acompanhei há pouco tempo a saga televisiva The Tudors e logo me apercebi do glamour exagerado em relação à narrativa histórica em questão. Podem apreciar aqui as considerações que na altura teci e os comentários gerados sobre as incongruências da série. Ora, ao perceber que este filme tratava precisamente da mesma época e que relatava os acontecimentos históricos de uma perspectiva bastante diferente achei interessante ir espreitar a experiência cinemática. 

Realmente a forma crua e dura como a história é contada neste filme nada tem a ver com a saga delicodoce apresentada na série The Tudors. O romance dramático de Philippa Gregory é adaptado para o cinema por Peter Morgan e ali se contam as intrigas palacianas na corte de Henrique VIII. Um filme onde todos os homens são terríveis e as mulheres meros joguetes nas mãos patriarcais. As senhoras jogam na corte o jogo do poder masculino subvertendo-o até onde podem sendo a margem de manobra reduzida onde qualquer deslize pode gerar uma decapitação. O stress associado ao papel da maternidade, nomeadamente quando se trata de gerar um varão, é ali muito curiosamente explicitado e as relações familiares tornam-se na corte artificiais e impuras. Quase todos os homens no filme, mesmo no âmbito de uma situação privilegiada (condes, duques e afins), contribuem para a degradação das mulheres. Todos, sem excepção: o pai, o tio, o marido. Finalmente o rei e o congresso dão a estocada final no sentido da condenação das inocentes à morte, ou por incesto ou bruxaria, tudo serve o propósito, ou seja, afastar o impecilho. Apenas a mãe, Lady Elizabeth Boleyn (Kristin Scott Thomas), de Maria (Scarlett Johansson) e Ana (Natalie Portman) parece perceber o que ali se está a passar e a forma desumana como as filhas se prostituem para agradar a um rei caprichoso e sem escrúpulos.

theotherboleyngirl2.jpg

No filme torna-se evidente que o rei de Inglaterra, Henry Tudor (representado por Eric Bana no filme), era, na época, um homem inseguro mas que, no entanto, ficou historicamente associado a um acto de coragem potenciado pelas diatribes de uma mulher, Ana Bolena. O corte com a igreja de Roma e a criação da igreja anglicana foi sem dúvida o epílogo desta narrativa de decapitações e anulações de casamento, ao sabor das vontades e caprichos do rei. Ana Bolena uma feminista avant la lettre que sabia o que era transformar um rei fraco num rei que fazia o que ela queria. A mãe da Rainha Isabel I de inglaterra aprendeu tudo em França durante um exílio forçado pelo próprio Henry Tudor e pelos seus familiares (tio e pai). Ana Bolena sabia que em comparação aos franceses os ingleses na altura eram uns barbáros e chegou radiosa a Inglaterra, cheia de novas ideias. Assim, conseguiu conquistar o rei que a tinha renegado por esta, em comparação com a irmã, ser demasiado hostil e pouco subserviente. Um filme com uma iluminação e um guarda-roupa curiosos, onde não há glamour nenhum mas antes uma brutalidade feia, porca e má. Gostei de ver!

theotherboleyngirl1.jpg
tags:


12 comentários:
De andrade a 6 de Abril de 2008 às 15:47
:???: Este filme não me cheira mas se calhar acabo por "alugar um dia destes em DVD" :mrgreen::cool::grin:. Gosto bastante da actriz que faz de Ana mas deve ser daqueles filmes que vale pela história :roll: Andrade


De mouseland a 6 de Abril de 2008 às 17:26
:mrgreen::mrgreen::mrgreen: DVD é uma alternativa boa para este filme. xxx mouse


De rafgouv a 7 de Abril de 2008 às 09:30
:mrgreen::mrgreen:
"Ana Bolena uma feminista avant la lettre que sabia o que era transformar um rei fraco num rei que fazia o que ela queria"

... quando se conhece o fim da Sra D. Ann Boleyn, esta citação não pode deixar de nos provocar alguns soluços.
:roll:


De mouseland a 7 de Abril de 2008 às 11:44
:mrgreen::mrgreen::mrgreen: É precisamente isso que está interessante nesta versão da história. A Ana Bolena tem qualquer coisa de Joana D'Arc. O rei era tarado e achou-se enfeitiçado quando o problema é que ela era muito mais esperta do que ele, hehehe. xxx mouse


De rafgouv a 7 de Abril de 2008 às 12:10
:roll:
... vou ver... mas para que serve tanta esperteza se nem safar se conseguiu???
O sacrifício de Joana d'Arc faz sentido... mas o de Ann Boleyn??!


De mouseland a 7 de Abril de 2008 às 12:49
:mrgreen::mrgreen::mrgreen: Naquela versão da história eu achei a personagem da Ana Bolena ambigua qb. Ela faz um discurso no filme ao rei quando chega do exílio em França sobre a necessidade de igualdade entre homens e mulheres... Ora, claro que pode ser uma completa ficção do filme mas não deixa de ser curioso. Eu estou sempre a reparar nestes pormenores, hehehe. xxxx mouse


De rafgouv a 7 de Abril de 2008 às 13:30
O menos que se pode dizer é que o "feminismo" de Ann Boleyn não sobreviveu na geração seguinte. A Raínha Virgem, Elizabeth I, figura histórica de uma força inegável é sobretudo conhecida pela virilidade que herdou do seu pai.
Sossega-me: o feminismo não é a arte de ludibriar os homens e de imitar a sua dominação prepotente... ou é??


De mouseland a 9 de Abril de 2008 às 00:01
:mrgreen::twisted::mrgreen: Há muito que o feminismo deixou de ser a "arte de ludibriar os homens e de imitar a sua dominação prepotente". Referes-te ao estilo da Margaret Thatcher certamente :grin:. A Ana Bolena era bem feminina e no filme apenas tem a frase que os homens se equiparam às mulheres em direitos e deveres, penso que não estaria a falar de igualdade biológica, hihihihi, o que seria idiota mas isso só perguntando ao fantasma que se calhar enquanto humano nunca disse o que afirmam que disse... xxx mouse


De rafgouv a 9 de Abril de 2008 às 09:00
:smile: Penso que podemos efectivamente considerar que Thatcher pertence a uma linhagem cujas predecessoras foram Isabel I e a raínha Victoria.
Que fique no entanto bem claro: quando falei de "virilidade" estava a falar de política e não de uma "falta de feminidade" dos seus caracteres físicos ou das suas maneiras.


De mouseland a 9 de Abril de 2008 às 12:18
:mrgreen::mrgreen::mrgreen: Esta semana vi um doc na RTP2 sobre a vida da Maria Antonieta e também achei deveras curioso a forma como a história é contada tendo em consideração a obra da Sofia Coppola. Pano para mangas, xxx mouse


Comentar post

.mais sobre mim
.pesquisar
 
.Março 2014
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
17
18
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

31


.posts recentes

. EM SÃO PAULO, ENTRE OS RU...

. "THE LAST OF US", AMOR, L...

. QUE SORTE PODER VOLTAR A ...

. MEXICO DF UMA CIDADE ONDE...

. A MINHA SAGA COM O CANDY ...

. QUATRO FILMES A NÃO PERDE...

. PABLO ESCOBAR, O PATRÃO D...

. A MINHA FRUSTRAÇÃO COM O ...

. "THE WALKING DEAD" (GAME)...

. NUMA JANGADA DE POVOS IBÉ...

.arquivos

. Março 2014

. Dezembro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Maio 2012

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

.tags

. apostas

. arte e design

. artes e design

. cibercultura

. ciberfeminismo

. cibermemórias

. cinema

. colaborações

. divulgação

. enigmas

. entrevista

. exposições

. festas

. game art

. game art exposições

. gamers

. iconografias

. indústria de jogos

. interfaces

. jogos e violência

. livros sobre jogos

. mouse conf.

. mouse no obvious

. mouseland

. myspace

. pop_playlist_game

. portfólios

. script

. segredos

. séries tv

. teatro

. textos

. viagens

. viagens cinema

. todas as tags

.links
.participar

. participe neste blog

.MOUSELAND _ PATRÍCIA GOUVEIA
ARTES E JOGOS _ DIGITAIS E ANALÓGICOS
blogs SAPO
.subscrever feeds