Sexta-feira, 11 de Abril de 2008
O DEUS ZIDANE E AS ESTRATÉGIAS DA ARTE CONTEMPORÂNEA
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Vi finalmente o filme do escocês Douglas Gordon e do francês Philippe Parreno, Zidane, um retrato do século XXI (2006). O filme é o reflexo da captação de imagens a partir de dezassete câmaras de um jogo entre o Real Madrid e o Villareal no estádio do Santiago Barnabéu. As câmaras estão todas apontadas para o jogador de futebol francês. A ideia é simples e baseia-se na explicitação da mestria técnica implicada nas projecções actuais de futebol introduzindo um novo foco de atenção. Neste contexto, os autores pediram a um conjunto alargado dos melhores operadores de câmara mundiais e técnicos cinematográficos para procederem ao levantamento das imagens de Zidane em campo naquele jogo específico. Assim, se optou por trocar o foco da atenção do espectador, normalmente associado à percepção da bola, pelo ponto de vista centralizado no jogador. 

Uma experiência desta natureza lembrou-me o trabalho em vídeo do israelita Uri Tzaig, onde o artista insere duas bolas num jogo, explicitando o seu interesse em jogos de competição e as inerentes referências cinemáticas captadas para posterior projecção televisiva. Uri Tzaig já foi aqui introduzido. Zidane, um retrato do século XXI é um filme curioso mas fico um bocado com a sensação que usa uma fórmula algo gasta do ponto de vista artístico, ou seja, a ideia de partir de um processo de descontrução do jogo tradicional e popular para fazer um documentário com algum carácter subversivo sobre as práticas em campo é tudo menos novo. Não que tenha nada contra, bem pelo contrário, em relação às práticas subversivas de desmistificação da cultura popular mas acho que a resposta de Douglas Gordon e Philippe Parreno acaba por ser o endeusamento do jogador. Sobre este movimento refiro, a título de exemplo, os profundos pensamentos de Zidane na legendagem do documentário, qualquer coisa sobre a natureza fragmentada da experiência de jogo, pensamentos sobre a percepção do relvado e sobre a memória posterior à saída de campo. Ironizando um bocado, estive, por segundos, convencida que Zidane era um leitor assíduo de Henri Bergson ou de António Damásio e que dominava algumas teorias sobre percepção da realidade (Bergson) e construção cinematográfica da memória (Damásio). Claro que rapidamente me recordei que aquele documentário é produzido no contexto das artes contemporâneas e logo me pareceu evidente o movimento de sacralização da cultura. Neste caso concreto da cultura para massas. 

No contexto da corporação global lúdica e do mercado da arte contemporânea o deus Zidane leva consigo mais dois deuses: Douglas Gordon e Philippe Parreno. Desta forma o produto Zidane, um retrato do século XXI, sai enriquecido na conjuntura de estrelas e vende uma marca com chancela global. Gostei deste aspecto mas para quem gosta de futebol as declarações dos críticos de cinema portugueses na contra capa da edição portuguesa são no mínimo surpreendentes, Joaquim Leitão afirma: “das melhores imagens de um jogo de futebol que eu já vi”. Não reproduzo mais. 

 O DVD é muito fraco em matéria de extras, uma entrevista mínima com o futebolista, a dizer porque aceitou o projecto, e mais uns minutos de comentários dos realizadores e da equipa sobre o privilégio que foi produzir e realizar aquele documentário. Não achei nenhuma obra-prima.


6 comentários:
De rafgouv a 12 de Abril de 2008 às 12:20
:mrgreen:
Não percebo bem: o filme insere-se nas "práticas subversivas de desmistificação" ou é um "endeusamento", empresa intrinsecamente mistificadora e nada subversiva???

Não será simplesmente que este filme, que é de facto "curioso" e interessante mas totalmente falhado e sem interesse, parte de um postulado ABERRANTE: filmar um desporto de equipa como se fosse um jogo individual?
O resultado é tão mais confrangedor quanto ao focarem Zidane e ao darem-lhe a palavra, os realizadores passam ao lado das "provas" da sua extraordinária inteligência: Zidane é um "passador" de bolas e o seu génio manifesta-se na forma como se adapta ao jogo dos seus parceiros.

Os realizadores não descontroem o jogo, eles ignoram-no (quando a bola aparece, é por acaso) e ao fazê-lo ignoram pura e simplesmente tudo o que Zidane tem de excepcional.
Salva-se a música dos fenomenais escoceses MOGWAI!

Mas pode ser que para contrabalançar um dia destes alguém se lembre de filmar um concerto de rock focando apenas a pandeireta. :roll:


De mouse a 12 de Abril de 2008 às 13:19
:mrgreen::mrgreen::mrgreen: Eu andei com este texto "entalado" precisamente porque não me conseguia decidir se achava que estava a dar uma facada às estratégias da arte contemporânea ainda de forma ligeira. Ora, concordo que a tua exposição é ainda mais clara. É claramente um equívoco o que se passa ali. Em relação à música concordo plenamente. xxx mouse


De andrade a 16 de Abril de 2008 às 20:02
:mrgreen::grin: Gosto de MOGWAI! Andrade :lol:


De migalha a 21 de Abril de 2008 às 17:47
Confesso, caro rafgouv, que também não consigo enquadrar bem este filme. De qualquer forma os artistas devem tê-lo vendido ao protagonista como um endeusamento mas desmistificam completamente o personagem. Um carequinha que se passeia a arrastar as chuteiras na grama, a emitir, de vez em quando, uns guturais ei!, ei!, como se participasse numa nova saga dos "deuses devem estar loucos", a olhar para o infinito com cara de "carneiro mal morto" e a cuspir amiúde para o chão, com tanto holofote devia julgar que estava de "vacaciones" na inBicta, tudo em nome da arte contemporânea, não abona nada em favor do Zidane. Se fosse eu processava os autores do filme ou então obrigava-os a participarem num jogo de futebol inglês.... a fazerem o papel da bola, claro está!


De mouseland a 21 de Abril de 2008 às 21:49
:razz::mrgreen::mrgreen: Título para esse filme: A bola do século XXI? xxx mouse


De rafgouv a 22 de Abril de 2008 às 08:28
:mrgreen: Totalmente de acordo, Migalha. Os autores deste filme não gostam certamente de futebol... mas então mais vale filmarem as bancadas...
Por outro lado, o que me espanta e me deixa estupefacto também é o desperdício de meios que este filme representa: com tantas e tão boas câmaras (tudo Alta Definição), com uma tal vedeta, com um tal casting, com um tal "décor", com uma tal música... como é possível passar ao lado de tanta coisa?? É essa a tal "desmistificação" (mostrar que no futebol há tb coisas sem interesse rigorosamente nenhum????)?


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