Quarta-feira, 16 de Abril de 2008
FIM DE CICLO EM HOLLYWOOD_por rafgouv
hollywood.jpg

Até os mais ferozes detractores do cinema de Hollywood serão obrigados a reconhecer que 2007 foi um ano excepcional em termos de maturidade criativa. Se os dados comerciais continuam a confirmar a dominação dos franchisings em série (Pirates of The Caribbean 3, Harry Potter and the Order of the Phoenix, Spiderman 3 e Shrek 3 foram os líderes do box-office, seguidos de Transformers), o número de filmes extremamente ambiciosos e mesmo difíceis de acesso que os estúdios souberam valorizar e transformar por vezes em autênticos sucessos é sem dúvida revelador de uma vontade de preparar o terreno num contexto que se anuncia cada vez mais difícil para os modos tradicionais da exploração cinematográfica.  

Sem pretender prenunciar o desaparecimento das salas de cinema, é forçoso reconhecer que a indústria cinematográfica se depara actualmente com desafios equivalentes aos que afrontou quando, nos anos 50, a televisão lhe veio roubar a soberania sobre o entretenimento de massas. Ironicamente, os canais televisivos tradicionais revelam talvez hoje uma vulnerabilidade ainda maior à concorrência dos jogos vídeo, do pay-per-view ou da distribuição de conteúdos pela internet (através de bouquets de canais ou de sites de partilha como You Tube). Em paralelo, a multiplicação das formas de distribuição é acompanhada por uma melhoria sensível das tecnologias de difusão e de leitura, graças à Alta Definição (HD), que permitem alcançar sem sair de casa um grau de imersão cada vez mais satisfatório.

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Convém no entanto não negligenciar a espantosa capacidade de resiliência de Hollywood. Em 1970, ninguém teria apostado na 3ª Idade de Ouro da Meca do cinema e ainda menos no renascimento do star-system e do studio-system. No entanto, hoje ninguém negará que títulos como Titanic ou Pretty Woman não só reafirmaram a pungência dos modos de produção e de promoção da época clássica como ocupam no imaginário colectivo lugares tão importantes quanto outrora Gone With The Wind ou as comédias de George Cukor. Por outro lado, devemos reconhecer que não foi também a episódica ameaça dos filmes e estúdios independentes que veio perturbar ou pôr em causa a potência do cinema comercial. Na realidade, da United Artists de Chaplin e Fairbanks à Miramax dos irmãos Weinstein e à Dreamworks, nenhum estúdio independente “generalista” conseguiu sobreviver à predação dos seus concorrentes ou às derivas dos seus dirigentes e os grandes industriais do cinema continuam a chamar-se Warner, Fox, Disney [1], Columbia, Universal ou Paramount, marcas quase centenárias. Se é certo que os estúdios não são geridos como antigamente por produtores visionários mas por tecnocratas da finança e que todos eles fazem parte de conglomerados mediáticos e industriais bem mais vastos (Time-Warner, Fox News Corporation, Disney Buena Vista, Sony Columbia, General Electric/NBC Universal e Viacom Paramount), não podemos deixar de admirar a forma como souberam construir uma mitologia e sobretudo como conseguiram fazê-la renascer e perdurar depois da televisão, depois dos movimentos contestatários da contracultura, depois do vídeo...  

A análise dos resultados comerciais dos campeões da bilheteira em 2007 permite-nos verificar que os lucros continuam a progredir graças ao aumento do preço das entradas mas o número de espectadores tende a estagnar. Em número de bilhetes vendidos no mercado norte-americano; os três últimos anos foram claramente, apesar da inflação de blockbusters que os caracterizou, os piores dos últimos dez anos. Aliás nenhum dos sequels lançados em 2007 conseguiu bater o record da série a que pertence, o que não deixa de ser revelador de uma certa fadiga do público. Daí que alguns comecem a questionar o modelo do cinema industrial tal como foi refundado por George Lucas e Steven Spielberg, modelo baseado na recuperação dos géneros fantásticos e na conquista de um público escapista e familiar, que domina a produção dos estúdios desde a 2ª metade dos anos 70, e daí que a caça a novos modelos de defesa ou de expansão esteja lançada.

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Uma das pistas escolhidas pelos estúdios para evitar a crise que se anuncia recicla uma técnica utilizada já nos anos 50, o relevo ou 3ª dimensão, numa táctica de prolongamento da lógica imersiva que um certo cinema já partilha com o jogo vídeo. Os próximos anos verão sem dúvida multiplicar-se os filmes tridimensionais, graças a uma melhoria sensível do conforto de utilização dos famosos óculos bicolores. No entanto, trata-se aqui mais de um meio defensivo para o cinema de género do que de uma verdadeira ruptura pois além de thrillers e filmes de efeitos especiais, apenas os documentários parecem vocacionados para tal tratamento. A menos que assistamos ao advento do cinema holográfico, cujas experiências parecem ainda bastante balbuciantes. 

Mais ofensivas são as estratégias de extensão do cinema (e da televisão) para redes de distribuição paralelas como a telefonia móvel ou a internet. Este modelo assenta no cruzamento do “marketing viral” (teasing e declinação da mensagem segundo os suportes de difusão) com a produção de conteúdos paralelos específicos (jogos, curtas-metragens...), servindo-se da miniaturização constante dos meios (a ecrãs cada vez mais pequenos correspondem conteúdos cada vez mais curtos) para gradualmente se disseminar. Se os principais pioneiros desta estratégia foram The Blair Witch Project e The Matrix II e III, hoje é graças a J.J. Abrams que ela ameaça tornar-se numa das formas predominantes de exploração cinematográfica. Abrams inaugura uma espécie totalmente inédita de empreendedores criativos, capaz de fazer passar Walt Disney, George Lucas e Jerry Bruckheimer por insignes molengões: criador de séries televisivas (Lost, Alias...), compositor, realizador (Mission Impossible III, episódios de The Office, Lost, Alias...), produtor (Cloverfield...), argumentista... e isto indiscriminadamente em projectos televisivos e cinematográficos com extensões paralelas. No entanto, o génio de Abrams não serviria de nada se ele não escolhesse ficções (sobretudo Lost) capazes de se disseminar em nós como se disseminam na caleidoscópica vertigem dos ecrãs que nos rodeiam.

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Devemos também reconhecer que a indústria, habitualmente vilipendiada em razão dos limites que o comércio impõe à tomada de riscos, se vê obrigada pela conjuntura a promover novas experiências e a impulsionar a expressão de novos talentos. Assim, cada um dos grandes estúdios criou recentemente a sua própria ganadaria de filmes “artísticos” (Paramount Vantage, Sony Screen Gems, Universal Focus Features, Disney Miramax e Hollywood Pictures, Fox Searchlight, Warner New Line Cinema...), entidades que mantêm frequentemente uma gerência independente, para cativar um público exigente que importa cada vez mais preservar para assegurar a transmissão de valores cinéfilos. O número de filmes “adultos”, tematicamente ambiciosos e formalmente arrojados, estreados em 2007 com meios de produção e de promoção consequentes é a este título revelador: Zodiac, The Assassination of Jesse James, We Own The Night, There Will Be Blood, No Country For Old Men, Across The Universe, Into The Wild, The Kingdom, Sweeney Todd... são, para nomear apenas alguns dos mais “difíceis” e sem querer equipará-los qualitativamente, exemplos de uma vitalidade que os campeões do box office por vezes também partilham (Spiderman 3...). Podemos dizer seguramente que jamais assistimos em Hollywood a uma tão fértil coexistência de velhos e jovens talentos. Não só todos os grandes da geração dos movie brats se mantêm em actividade (Scorsese, Spielberg, Coppola, Allen, De Palma...), como também os seus principais herdeiros (Burton, Tarantino, Scott, Van Sant, Soderbergh, Coen...) e mesmo alguns antepassados (Eastwood, Lumet...) se continuam a agitar... ao mesmo tempo que se desenha uma nova paisagem onde a importância de David Fincher, James Gray, Andrew Dominik, Paul Thomas Anderson ou, apostemos, Peter Berg, aparece com a mesma evidência. Rafgouv




[1] Se a Disney só recentemente faz parte dos grandes estúdios, as suas origens mais remotas são amplamente conhecidas.


3 comentários:
De mouseland a 16 de Abril de 2008 às 23:51
:mrgreen::mrgreen::mrgreen: Gostei muito deste texto. Contextualiza devidamente o último ano de produção cinematográfica e faz ligações interessantes com a televisão e os meios interactivos. Narrativas transmediais ou Cross-media. Muito bem escrito. Agradou-me imenso também a abordagem que fazes em relação ao elemento comercial versus independente da cinematografia clássica mas também da actual pois essa relação interessa-me para os jogos digitais e é tão evidente no cinema. Parabéns! xxx mouse


De nelson a 28 de Abril de 2008 às 22:20
Também gostei muito do texto. São muitas as questões que se levantam neste momento de incertezas, contudo julgo que tens razão quando falas da resiliência de Hollywood, eu diria do cinema.

abr


De rafgouv a 30 de Abril de 2008 às 09:10
:oops: Obrigado mouse, obrigado nelson!


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