Quinta-feira, 17 de Abril de 2008
AS ICONOLOGIAS DE MICHEL MAFFESOLI_por rafgouv
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O novo livro do sociólogo Michel Maffesoli – Iconologies – Nos idol@tries postmodernes (ed. Albin Michel, 2008) – é simultaneamente homenagem, actualização e comentário crítico das célebres Mitologias de Roland Barthes, compiladas em 1957. Tal como Barthes, Maffesoli parte da realidade tantas vezes desprezada dos ícones quotidianos para tentar desvendar aquilo que eles revelam e ao mesmo tempo escondem da nossa identidade contemporânea. No entanto, enquanto para Barthes o trabalho semiológico se assumia como “crítica ideológica” (cf. introdução à edição de 1970, Les Mythologies, ed. Points 1970), cuja ambição era desmistificar e demonstrar a carga alienante dos mitos capitalistas, para Maffesoli estes inserem-se numa perspectiva mais vasta e antropológica na medida em que iluminam, em todas as épocas, “o caminho individual ou colectivo que é a existência humana” (ed. cit. pg. 14). 

Para Maffesoli as transformações próprias à passagem do paradigma da modernidade à pós-modernidade chegam para justificar a necessidade de uma nova abordagem da mitologia: porque a pós-modernidade faz ressurgir antigos arquétipos (Dyonisos, o Graal...) que julgávamos definitivamente derrotados pelo progresso, porque “as jovens gerações já não são iconoclastas” (ed. cit. pg. 11) na medida em que vivem rodeadas de entidades imaginárias e simbólicas e porque “a partir do momento em que uma coisa é verdadeira para alguém, para um grupo, ou mesmo para uma sociedade, essa coisa existe e merece atenção” (idem). Ao passo que as doutrinas e ideologias da modernidade se caracterizavam por inscreverem a acção humana num esquema produtivista integralmente virado para o futuro (as promessas religiosas e políticas do paraíso post-mortem ou da sociedade em progresso com as respectivas, e por vezes mútuas, purgas), a pós-modernidade vem lembrar-nos que também o presente merece ser vivido. A tarefa do “iconólogo” é então a de navegar numa “via mediana, a da sabedoria” (ed. cit. pg. 12), sem pôr em causa a realidade simbólica nem cair na idolatria. Ou seja, ultrapassando os limites daquilo a que o autor de Le Temps des Tribus chama de “raison raisonnante”, razão racional mas sobretudo “razoável”, cujas análises quase sempre se paralisam e se neutralizam na antecâmara do emocional, do onírico, do imaginário, do gregário, do humano... 

Em 38 textos curtos, Maffesoli aborda ícones tão diversos quanto Harry Potter, Michel Houellebecq, as raves, o Brasil, Che Guevara, Google, as próteses high tech, Myspace, Second Life, Zidane a barba de 3 dias ou os trotskismos, para gradualmente compor o retrato de uma sociedade onde a tecnologia “transfigura” e reactualiza os arquétipos milenares, evacuando humildemente algumas monstruosas ideias feitas do “fast food teórico” (ed. cit. pg. 48) e/ou ideológico: como justificar por exemplo que se continue a dizer que vivemos no apogeu do individualismo quando o colectivo não cessa de se afirmar não só em manifestações políticas e religiosas mas também em concertos e estádios, festas e festivais, acontecimentos que cada vez mais consagram a vontade de partilhar, de estar juntos aqui e agora, independentemente de intenções ideológicas ou doutrinárias? Sem dúvida que os que criticam o tal pretenso individualismo se recusam a medir a realidade destes eventos porque neles só vêm frivolidade, superficialidade e “representação”. Além do fascínio evidente mas não cego, despertado pelos objectos da análise, a sensacional modéstia de Maffesoli dá azo a inesperadas e audaciosas aproximações (a moda baggy com os seus capuchos e a indumentária monástica, Second Life e o Mahabarata, Myspace e o Golem...), por vezes improváveis mas nunca gratuitas. 

Mais deixemo-nos de paráfrases. Isto é uma ordem: leiam e venham cá dizer o que acharam! 

P.S. E já agora leiam também outros livros de Maffesoli! Rafgouv


8 comentários:
De andrade a 20 de Abril de 2008 às 23:03
:mrgreen::smile: Interessante o texto pois alerta para alguns lugares comuns que são considerados, por vezes, como não o sendo. Andrade


De mouseland a 21 de Abril de 2008 às 20:31
:mrgreen::mrgreen::mrgreen: Um texto que dá que pensar é verdade! xxx mouse


De laca a 24 de Abril de 2008 às 21:05
sem comentário! :mrgreen: vou ter que ler...:mrgreen:

tudo k??? *****


De mouseland a 25 de Abril de 2008 às 19:26
:mrgreen::mrgreen::mrgreen: Olá Laca, tens que ler sim. Tudo k. xxx mouse


De laca a 25 de Abril de 2008 às 22:17
:roll: muita "coisa" para ler... que bom!

primeiro quero ler a tua TESE, sim??? ...e, agora ando a ler/ver Ana Hatherly, estou a ficar especialista!!! se encontrares alguma referência diz-me, ok?

*****


De mouseland a 30 de Abril de 2008 às 17:21
:mrgreen::mrgreen::mrgreen: Ok Laca, prometido. xxx mouse


De Victor Afonso a 7 de Maio de 2008 às 23:33
Muito interessante. Há edição portuguesa deste livro?


De mouseland a 9 de Maio de 2008 às 17:42
:mrgreen::mrgreen::mrgreen: Penso que não. Saiu há mesmo pouco tempo em França. xxx mouse


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