Quarta-feira, 12 de Julho de 2006
ESPECIALISTAS DE USABILIDADE E DESIGNERS UMA QUERELA
brunosilva.jpg

A querela entre especialistas de usabilidade (Jacob Nielsen, Donald Norman, Jesse James Garrett, etc.) e designers (David Siegel é o expoente desta polémica) é antiga e remonta a meados dos anos noventa. Nunca consegui perceber o consumidor modelo dos especialistas da usabilidade pois a ideia de criar lugares específicos para um utilizador que podemos prever e equacionar parece-me semelhante à máxima ”dar ao consumidor aquilo que ele quer”. Ora, na actualidade este tipo de assunções são cada vez mais difíceis de sustentar pois a experiência do utilizador das interfaces é múltipla e mutante. É configurativa. Gonzalo Frasca faz essa crítica aos proponentes da Human Computer Interface na sua tese de mestrado Videogames of the Oppressed. O efeito produzido pela interface é concebido e programado mas adquire plasticidades complexas e emergentes. Neste contexto, penso que os senhores da usabilidade resolveram finalmente o buraco negro das suas teorias sobre modelos de utilização pré definidos nas interfaces adoptando como mote a experiência do utilizador. Assim, procederam a um deslocamento na tónica da relação entre o homem e o computador (HCI) mediada pela interface para uma abordagem da experiência do utilizador como lugar de eleição dessa mediação. E, como aliás os designers sempre alertaram, falar de experiências não é falar de funcionalidades, para Donald Norman, os objectos de design têm três níveis (visceral, comportamental e reflexivo). Sendo que dos três níveis de apreciação fazem parte as características físicas do produto, as suas funcionalidades e o seu valor simbólico. Não entendo é como é que Donald Norman demorou tanto tempo a dar razão aos designers! Em termos de discurso nos dias que correm há poucas diferenças entre uns e outros mas uma coisa estou certa os especialistas da usabilidade estão em vias de extinção e os designers de experiências estão com grande fôlego. Os especialistas da usabilidade agora concebem a experiência do utilizador e não mais o utilizador padrão de outros tempos.

Com todas as reservas que tenho em relação a estes assuntos há entre nós um blog sobre esta temática que muito terá a dizer sobre a matéria. O blog é gerido por Bruno Júlio e está disponível on-line numa versão amigável em mozilla firefox mas pouco amigável no Explorer. Vale a pena ler as dicas do autor!


10 comentários:
De Bruno Júlio a 13 de Julho de 2006 às 19:13
Olá Patricia!

Agradeço a atenção prestada ao blog. E concordo com a tua visão da "coisa" (Usabilidade), esta àrea cometeu um erro quanto a mim gravíssimo nos seus primórdios - mas que ainda hoje muita gente defende - que foi fazer "tábua rasa" de todos os utilizadores, ou seja, partindo do princípio que estes eram todos iguais fosse qual fosse a aplicação.

Bem, eu acho que as emoções hoje em dia valem muito mais do que o meramente funcional. As regras hoje para o desenvolvimento de aplicações Web são, entre outras: o crescimento orgânico baseado nos estilos de vida dos utilizadores; páginas editáveis/personalizáveis pelos utilizadores segundo o seu gosto e perfil; entre outras. Ora, só aqui há um enorme espaço para o aleatório produzido pelos utilizadores.

Se virmos por exemplo algumas páginas pessoais do MySpace, verificamos que, muitos não estão com a funcionalidde em mente, no entanto o sucesso desta comunidade é sobejamente conhecido.

Daí os Designers de Experiências terem tanto fôlego nos tempos que correm e, quanto a mim, apoiam-se hoje em dia muito mais em àreas como a Sociologia e Antropologia (Ver por ex. o trabalho de Danah Boyd, Antropóloga, dirigido aos designers) e criatividade. Quanto à parte funcional de uma aplicação, ela é hoje fruto muito mais do bom senso baseado na análise de algumas variáveis como públicos-alvo, dimensão da aplicação, tipo de aplicação, etc.

Quanto ao facto de o blog não gostar muito do Internet Explorer, agradeço o reparo porque nem sequer tenho o IE instalado, tenho o Safari e o Firefox. Vou ver o que se passa. Por fim gostaria só que alterasses o meu apelido para Júlio e não Silva! :)

Cumprimentos e bom trabalho.


De beaver project a 14 de Julho de 2006 às 10:40
Voltando às emoções nos videojogos acaba de ser editado um livro de David Freeman que poderá ajudar na procura das pretendidas respostas:
"Creating Emotion in Games: The Art and Craft of Emotioneering" está disponível em:

http://www.amazon.co.uk/gp/product/1592730078/202-7711232-4399869?v=glance&n=266239

Fica a dica
Beaver Project


De mouseland a 14 de Julho de 2006 às 17:42
Olá Bruno,

Desculpa o erro do apelido que foi mesmo lapso com o beaver! Ainda bem que não estou errada na leitura que faço da usabilidade. Sinceramente é um assunto que abordo com alguma intuição mas é sempre bom saber que alguém que se dedica a estas temáticas acha a crítica pertinente. Ultimamente deparei-me numa aula com o problema de explicar aos alunos porque a usabilidade (como termo) era um conceito erróneo uma vez que muitos dos seus proponentes migraram para a ideia da concepção da experiência estética. O que torna a separação entre designers e especialistas da usabilidade algo artificial nos dias que correm.

Mas já percebi o problema do teu blog no explorer depois de ler o teu último post. Também o blog da fada*do*lar é desenvolvido em Mac e sofre das mesmas questões. Fica perfeito em firefox mas desconfigurado em Explorer. Eu sou PC dependente por isso não tenho esse problema.

cumprimentos e já agora já acabaste o mestrado?

xx mouse


De mouseland a 14 de Julho de 2006 às 17:44
Olá Beaver,

Pois já pensei se deveria comprar esse livro que parece interessante! Conheces o autor de publicações anteriores?

xx rato


De beaver project a 17 de Julho de 2006 às 11:32
Boas Patrícia,
De facto este autor nem de publicações anteriores me é familiar, mas não havendo muitas referências, a abordagem ao assunto será a meu ver e por si só, facto a considerar, mesmo que apenas se trabalhe na formulização das grandes questões e não se consigam obter as procuradas respostas (não sei se é o caso)... só lendo :smile:
Hasta


De Bruno Júlio a 19 de Julho de 2006 às 15:51
Olá Patricia e Pedro

Acho que a Usabilidade (tal como milhares de outros conceitos) sofre do facto de lhe ter sido atribuída um "rótulo" numa tentativa de tentar levar as suas ideias ao maior número de pessoas... é quase como uma espédie de Marketing intuitivo que os profissionais da àrea fizeram para divulgar as suas competências.

Assemelho ainda ao que os jornalistas de música fazem ao atribuir "rótulos" a certas bandas, pois escrevem para uma larga audiência, mais tarde essas bandas evoluem para outros caminhos

Claro que as coisas evoluem, estuda-se, testa-se e no fim chegam-se a conclusões - e hoje em dia cada vez mais rápido - e neste momento a Usabilidade está mais próxima da "concepção da experiência estética", e diria ainda cognitiva! Pelo menos é esta a minha visão! :) e parece que estamos de acordo!

Não ainda não terminei o mestrado, mas espero fazê-lo nos próximos meses. Há que seguir em frente!

Beijinhos e Abraço


De mouseland a 21 de Julho de 2006 às 03:27
Gostei dessa dica "espécie de Marketing intuitivo" e partilho a tua ideia da experiência cognitiva. Bom trabalho de escrita! Obrigado pelas ideias frescas :grin: Qual é o tema da tese?

xx mouse


De Bruno Júlio a 21 de Julho de 2006 às 12:29
Olá

O tema da tese afasta-se um pouco da Usabilidade. Estou a escrever sobre o fenómeno da Web 2.0, a Blogoesfera e a Democracia! :)...

Ou seja, como é que as novas aplicações sociais podem aumentar os níveis de Democracia nas sociedades (não só online), dando voz a indíviduos que vivem nas margens da sociedade, dando-lhes poder de decisão, etc!

Ainda sobre o nosso assunto - não pensem que vos quero maçar com isto :) - encontrei um post "Usability through fun" no blog "Creating Passionate Users" - lá está: Paixão - e deixo-vos aqui o link:

http://headrush.typepad.com/creating_passionate_users/

E tu Patricia, estás a trabalhar na tese? qual é o tema?

Bruno


De mouseland a 21 de Julho de 2006 às 20:28
Olá Bruno,

Estive a ler o link. Acho curioso como muitas destas noções estão desde sempre implícitas no conceito de design. O aspecto "fun", leveza e rapidez, uma multiplicidade de sentidos que nos transmitem exactidão e, quem sabe, consistência, diria Italo Calvino, mas também humor. Entre o boletim informativo seco e as narrativas cruzadas e inferenciais dos outdoors e anúncios publicitários há uma enorme distância. Num caso há uma mais valia estética, no outro, há o texto em bruto, trasparência versus opacidade? Penso que sim. Mas estes senhores defendiam a transparência e agora parecem atreitos a alguma opacidade e isso deixa-me contente:smile:! Mas chamar usabilidade e "fun" a uma coisa tão antiga e visceral como o valor estético é que tem mesmo a ver com as capelinhas de trabalho e aqui andamos todos a dizer o mesmo usando expressões diferentes :lol:!

A minha tese é sobre jogos digitais e tem o título: “Joga outra vez, objectos interactivos que contam histórias inteligentes” sob orientação da Profª. Maria Teresa Cruz. Fala-se de estética, media, vida artificial e outros assuntos, hehehe.

O teu tema é interessante. Será que estiveste na conferência do Olu Oguibe no CCB em Maio? Ele falou precisamente sobre esse assunto. O facto das pessoas na blogoesfera terem voz, um aspecto prometido mas jamais atingido pela primeira fase nética, da qual Olu era muito crítico em relação aos países do terceiro mundo. A Universidade Nova está a produzir temas de teses desempoeirados não há dúvida!

xxx rato


De Bruno Júlio a 26 de Julho de 2006 às 00:48
Olá Patricia

De facto não estive na conferência que me falas no CCB! Mas obrigado pela dica.

O tema da tua tese também é muito interessante...

Concordo quanto aos temas das teses na UNL! cabe à nossa geração mudar as coisas! eheheh

Que tal o trabalho aí em São Paulo?

Bruno. Bom trabalho


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