Sábado, 14 de Junho de 2008
JESSE JAMES E ROBERT FORD, AS DUAS FACES DA MESMA MOEDA?
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Não estava nada à espera mas gostei imenso do filme O assassínio de Jesse James pelo cobarde Robert Ford (Andrew Dominik, 2007). Com uma enorme ambiguidade narrativa conta-se a história do bandido mais conhecido do oeste norte-americano. Jesse James e o irmão Frank James eram agricultores antes de se dedicarem ao crime tendo assaltado inúmeros bancos e comboios. Mataram algumas pessoas e segundo reza a lenda James tinha problemas nervosos que o levavam a perder frequentemente a cabeça.

Neste filme a história é contada de forma não-linear com avanços e recuos na progressão do enredo. Robert Ford faz tudo para pertencer ao bando de Jesse James porque tem uma admiração pelo bandido que o acompanha desde a mais tenra idade. No entanto, essa mesma admiração acaba por ser degradada pela forma como vê o “outro”, um espelho de si mesmo, sucumbir a comportamentos abjectos. Durante todo o filme somos levados a considerar que Jesse James era de facto louco e ao mesmo tempo não conseguimos deixar de nutrir uma certa admiração pela personagem. O mesmo acontece em relação a Robert Ford. Existe uma enorme ambivalência, conceito que nos remete para sentidos oposto mas válidos. Uma forma de ambiguidade termo “proposto pelo psicanalista Eugen Bleuler (Vortrag über Ambivalenz, 1910) e [que] foi depois redefinido por Freud. Está ligado na origem às atitudes e comportamentos humanos. Ocorre na atribuição de sentimentos opostos ao mesmo indivíduo. Casos comuns são os da ambivalência da aceitação e da rejeição, do amor e do ódio pela mesma pessoa (…). Na interpretação dos sonhos, verifica-se também que certos quadros possuem uma dupla significação: aqueles que despertam ao mesmo tempo o medo e o desejo de um mesmo objecto, por exemplo" (Carlos Seia, sobre a ambivalência).

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A personalidade complexa dos dois homens, Jesse e Robert, que fizeram parte da lenda e da história do fora-da-lei que é traído pelo amigo e companheiro de infortúnio é ali desmistificada e simultaneamente enaltecida. James, ora é um tipo sem escrúpulos ora um justiceiro que rouba aos ricos para dar aos pobres, tipo Robin dos bosques. Robert, ora é um fã incondicional da lenda (James), ora um cobarde frio e calculista que “vende” o amigo para conseguir fama. James teve direito a fotografia e a túmulo, Robert morre anónimo, é ridicularizado e esquecido. As duas faces da mesma moeda? O filme tem ainda uma direcção de arte e uma fotografia de grande qualidade cénica assim como uma banda sonora também excelente ou não estivesse envolvido Nick Cave. Casey Affleck supera as expectativas, faz esquecer Brad Pitt que também não vai nada mal. Adorei. Qualquer dia, em breve, vou ver outra vez.


4 comentários:
De laca a 14 de Junho de 2008 às 19:23
:roll:

Paper Critters / Academy of Art University
http://www.papercritters.com


De andrade a 15 de Junho de 2008 às 02:52
:mrgreen::smile::cool: Sim, filme muito bom. Andrade


De rafgouv a 15 de Junho de 2008 às 03:39
Minha carissima mouse,

:???:
Não me vou estender sobre essa longa e desconcertante explicação psicanalítica sobre o termo "ambivalência". Desconcertante não por ser exempta de justeza mas algo desnecessária se se pretende que os leitores deste blog alguma vez aprendam a abrir um dicionário.

:smile:
Penso que tens razão em afirmar que Robert Ford é retratado no filme como o fã de Jesse embora só esteja remotamente de acordo com essa tese da ambivalência/duplicidade. Poderiam ser John Lennon e Mark Chapman. O fã (qualquer fã) admira e ao mesmo tempo inveja a celebridade enquanto esta o explora e despreza. Se é ambivalência, é uma ambivalência banal, que cada um de nós há-de sentir cada vez que folheia as páginas de uma revista. Mas os defeitos da Lenda fazem parte da Lenda e as Lendas são feitas para perdurar enquanto os assassinos das mesmas raramente obtêm a mesma notoriedade.

:neutral:
Quanto ao tema da traição, é um tema trágico por excelência mas quantas vezes não trai qualquer fã de uma ou outra celebridade, quando a deixa de apoiar, de adular, de louvar, quando se farta dela ou dele, quando rasga os pósteres da parede, quando começa a troçá-la?... Será esse também aliás o percurso de Ford, o herói sem qualidades, infâme e cobarde mas sobretudo sem sombra de carisma: celebrado, vilipendiado, esquecido.
:wink:
A traição suprema é o assassinato mas os grandes mitos, os que têm a estatura de um Jesse James, de um Wyatt Earp, de um John Wayne, de um Monty Clift ou de um Brad Pitt, renascem frequentemente com essa outonal melancolia que caracteriza o filme e alguns dos mais belos westerns. Também estou de acordo com outra coisa: Casey Affleck é excelente... mas é-lo também (sobretudo) porque sabe (e nós todos também sabemos) que não pertence à estirpe de Brad Pitt.

:lol:
E estou de acordo com essencial: é um filme magnífico, um dos melhores dos últimos anos.


De mouseland a 15 de Junho de 2008 às 17:11
:mrgreen::mrgreen::mrgreen: Olá a todos, nesta toca de doninha parece que há consenso por isso não me vou estender muito apenas dizer que não percebi bem a questão da ambivalência e do fã, cada caminho é um caminho e se estamos de acordo o que interessa é o processo pelo qual se chegou a esse acordo. Uns vão por uma atalho, outros por outro.
xxx mouse


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