Terça-feira, 8 de Julho de 2008
COMO VIVER NUM MUNDO ONDE NÃO SE PODE TOCAR?
oescafandroeaborboleta.jpg

oescafandroeaborboleta_1.jpg

oescafandroeaborboleta_4.jpg

Vi, por acaso, este sábado na televisão o filme francês/americano O Escafandro e a Borboleta ou Le Scaphandre et le Papillon (Julian Schnabel, 2007). Já tinha ouvido falar no filme e nem sei bem porque o perdi quando esteve no cinema mas a verdade é que a história de Jean-Dominique Bauby, antigo editor da revista Elle, que aos 42 anos tem um derrame cerebral que o deixa em coma durante 20 dias dá que pensar. O filme começa com o despertar de Jean-Dominique Bauby, a percepção de si próprio a partir de um corpo paralisado que apenas pode comunicar com os outros através de uma ou duas piscadelas de olho, sim, não, sim, não... Com uma paralisia rara, que o transporta para um mundo alternativo imaginário e que o leva a construir ficções para sair da realidade atroz em que a tragédia o mergulhou, vê-se reduzido à espera dos seus intérpretes e familiares, numa cadeira de rodas. O ponto de vista subjectivo é acentuado pelas imagens na primeira pessoa, é como se vivêssemos aquele drama através dos olhos do protagonista e apenas algumas vezes o seu reflexo aparece espelhado.

oescafandroeaborboleta_2.jpg

oescafandroeaborboleta_3.jpg

Julian Schnabel já nos tinha habituado a filmes interessantes principalmente, quanto a mim, com a obra Antes que Anoiteça (Before Night Falls, 2000) mas este filme lembra o belíssimo trabalho de Alejandro Amenábar, Mar Adentro, de 2004. Curiosamente um filme que também não vi no cinema e que acabei por ver, fora de horas, na televisão, numa ilha brasileira paradisíaca. Mar Adentro é baseado em eventos reais, conta a triste luta de Ramón Sampedro, que ficou tetraplégico depois de um acidente de mergulho, pelo direito de acabar com a própria vida. Esta luta durou trinta anos. Neste filme, o protagonista evade-se igualmente através dos sonhos e embora não tendo o mesmo problema de comunicação de Jean-Dominique Bauby, está igualmente prisioneiro, numa cama ou numa cadeira de rodas, dos favores e da bondade dos outros. Ambos escrevem um livro para deixar um rasto neste planeta mas no fundo os dois parecem conscientes que viver não é ser tocado pelos outros mas antes poder tocar. O livre arbítrio está na nossa acção sobre o mundo e, tanto Ramón Sampedro como Jean-Dominique Bauby, acentuam essa impossibilidade de viver num mundo no qual não podem tocar. O toque é o sentido da realidade em directo, sentido de presença, não o poder fazer é estar morto. Como não conseguem ficar loucos pela situação em que se encontram ambos os protagonistas destes filmes aceitam o refúgio em realidades paralelas porque apenas os loucos transformam a ficção em modalidades de realidade. Não endoidecer é uma tragédia maior porque o sentimento de partilha, implícito na ideia de real, já não é possível.

maradentro.jpg

maradentro_1.jpg

maradentro_2.jpg


19 comentários:
De Mestre Cuca a 9 de Julho de 2008 às 08:27
Como dizia Kumar Rastrabimovicz, o mundo dos leitores (e dos espectadores) divide-se entre os que buscam a oportunidade de ver o mundo através de olhos (e opiniões) alheios e os que buscam a possibilidade delirante de confirmar os seus pontos de vista. Ambas as possibilidades correspondem a perpectivas ópticas opostas: alargar os horizontes ou pelo contrário encerrar a vastidão dos outros no conforto das nossas convicções ou certezas.

A maioria dos textos deste blog pertencem claramente à segunda categoria. Por vezes tal parece-me aceitável, outras vezes choca-me. Neste caso, podemos dizer que o que aqui é dito é uma profunda deturpação do livro de Jean Dominique Bauby e do filme de Julian Schnabel. Tal parece-me grave porque se sugere que estamos perante uma defesa quase militante eutanásia. Era esse o caso do filme citado de Amenabar (ou até de Million Dollar Baby de Clint Eastwood) mas nada na narrativa de Bauby sugere que o mesmo sentiu uma qualquer "impossibilidade de viver". Uma vez, pouco tempo depois de despertar do coma, o autor exprime o desejo de morrer mas esse desejo é gradualmente desmentido pela presença dos seus (mulher, amantes, filhos, ortofonista, assistente...). Numa altura, Bauby diz que apesar do seu estado continua a ser papá, noutra cena bastante saborosa assistimos a uma cena de ciúmes de que é objecto e seguimos até o despertar de uma relação amorosa entre o escritor e a assistente a quem dita o livro... Com o seu humor proverbial, o escritor não deixa de se espantar com facto do seu estado permitir o despertar de tais sentimentos (amor filial, ciúme, amor platónico) e jamais reivindica a eutanasia.

Menos grave mas também espantosa no contexto deste filme é essa referência ao tacto. Espantosa porque The Butterfly and the Diving Bell é totalmente centrado na questão da comunicação verbal e não táctil (aliás, se quisermos ser mesmo precisos devemos dizer que Bauby é particularmente avesso à proximidade táctil, frequentemente sentida/ mostrada como ameaçadora)... mas ao lado do ponto acima mencionado isto é quase um detalhe de somenos importância.


De mouseland a 9 de Julho de 2008 às 23:53
:mrgreen::mrgreen::mrgreen: Alucinante este comentário. Não consigo descortinar se é uma crítica se uma auto análise..? Quem será esta mestre, antes este mestre, para achar que este blog é assim ou assado..? Alguma entidade legisladora ou de etiquetagem de blogs?

O que não deixa de ser curioso, pois no meu mais humilde entender, o comentador não percebeu, não quis perceber - ou apenas quis explanar o conforto das suas convicções ou certezas? - nada do que está escrito no post. Por mim tudo bem pois apenas quer dizer que o meu texto não chegou a “tocar” essa cabeça. O mais perfeito autismo é personificado por aqueles que não conseguem projectar, interpretar ou perceber as ideias dos outros. Claro que o equívoco é fácil de compreender: o autor do comment separa a comunicação verbal da comunicação táctil e faz da percepção uma manta de retalhos. Upa upa, elementar meu caro Watson, e depois gostaria de perceber como é que este Mestre conseguiu entender que o senhor representado no filme ou mesmo aquela personagem é avesso à proximidade táctil e que não está de acordo com a eutanásia… essa certeza para mim sim é delirante… Enfim… xxx mouse


De Mestre Cuca a 10 de Julho de 2008 às 08:57
:mrgreen:
Queridissima,

Aprenda também a ser precisa (e honesta):
* Ninguém disse que Bauby estava em desacordo com a eutanásia. Apenas disse - e repito - que não a reivindicou - publicamente e para si mesmo - nem no livro que escreveu nem no filme de Schnabel.

* A percepção pode não ser uma manta de retalhos mas a comunicação verbal e a comunicação táctil são coisas diferentes (excepto se considerar que as palavras querem todas dizer a mesma coisa). A sua inteligência é indigna desse tipo de reflexões...

* Quanto à "aversão" à proximidade: reveja o filme! Bauby não cessa de pedir aos seus interlocutores para se afastarem, a cena em que o lavam mostra bem o desconforto da situação. Você aliás tem razão quando opõe o tocar e o ser tocado... mas está radicalmente equivocada quando conclui que Bauby não pode tocar ou não tem acção sobre o mundo: este livro/ filme fala precisamente do mistério que envolve o facto de um homem tão debilitado continuar a seduzir, a ser amado e a amar... Esse mistério, que tem uma vertente praticamente mística, é explicitado pela enorme coincidência que envolve o protagonista e uma vítima do terrorismo (não vou desvendar).

* Não conclua a cara interlocutora que digo que a situação de Bauby era fácil ou que ele encarou o seu acidente como uma redenção ou uma forma de se realizar. O filme fala também obviamente da dificuldade de viver em tal situação. Mas uma coisa é a dificuldade de viver e outra coisa - radicalmente diferente - é a "impossibilidade"!


De rafgouv a 10 de Julho de 2008 às 11:27
Discussão interessante! Talvez até me convençam a ver o filme pois confesso que não sou fã do Schnabel realizador, embora tenha gostado um nico do Basquiat por causa do tema e das guest stars.

Mouse, o Bardem presente no Mar Adentro e no (adjectivo censurado) Before The Night Falls é sem dúvida uma ponte entre Schanabel e Amenabar.


De mouseland a 13 de Julho de 2008 às 08:23
:shock::shock::shock::mrgreen::mrgreen::mrgreen: Cara ou caro mestre, não me faça responder a considerações tão pirosas quanto estas: "este livro/filme fala precisamente do mistério que envolve o facto de um homem tão debilitado continuar a seduzir, a ser amado e a amar… Esse mistério, que tem uma vertente praticamente mística, é explicitado pela enorme coincidência que envolve o protagonista e uma vítima do terrorismo (não vou desvendar)." Homens debilitados que continuam a seduzir, a amar e ser amados? Ai, mais um bocadinho e estamos a caminho de Fátima de joelhos. Então com essa misturada do terrorismo a coisa ainda piora, mas, por favor, não desvende, imploro-lhe! Entretanto também nunca falei do livro que menciona pois nunca o li e não tenho por hábito falar de coisas que não conheço, ao contrário de tão boa gente…

Caro Rafgouv,
Hum… deves ser o único a achar a discussão interessante, hehehe. O "Basquiat" para mim é mais fraco do que os dois filmes que falei do Julian Schnabel.
xxx mouse


De rafgouv a 13 de Julho de 2008 às 10:29
Quais são os 2 filmes do Schnabel de que falaste? A Borboleta e a Escape from Cuba (night falls)?
Não é para me meter na discussão de Mestre Cuca mas o Qdo a Noite Cai achei mesmo de uma piroseira indescritivel e insuportável com umas cenaças de cabaret feliniano (perdão aos fãs eventuais mas tb não sou de todo fã de Felini) do pior.
Talvez o filme seja mais piroso do que a opinião de Mestre, não? Aqui Bauby é emblema de quem não acredita muito nas virtudes da despenalização da eutanásia:

"The immersion into the life of a man that is a part of a horrific event, where just about all seems lost and where he becomes literally trapped with in his own body can be heart-achingly depressing, however, it was actually, due to poetic direction, a mesmerizing, stylistic and somewhat uplifting story. The air was a little sweeter, after the viewing since life becomes more appreciated. This movie helps you appreciate the finer things in life and realize all that we take for granted.

Giving the film a surreal feel as though in a dream we witness a collage of memories, imaginations and actual dreams. From this, along with actual visits from loved ones we get an understanding of the man's life before the accident. It is filmed from the stroke victim's point of view. You see exactly what he sees, such as when his eye gets weak and things get blurry. We are also exposed to the man's thoughts as we hear him talking to the people about his feelings and what he wants to say despite being mute, and not being heard by the people. His thoughts give realness to the character and show us that he is still human. He even finds humor in his situation and says, to the nurse that doesn't hear him, "you need to get a sense of humor".

Overall a message about life. At the peak of this mans life an extremely severe paralysis befalls him. At first understandably pitying himself he is able to find some humor in his situation, (and parts of the movie actually make you laugh) and then inspiration. Inspiration stemming from realization that his imagination and memory are in tact. He can feel good using his mind and can even be creative and productive."


De mouseland a 13 de Julho de 2008 às 14:17
:mrgreen::mrgreen::mrgreen: Pois começas a denunciar algumas analogias com o pensamento da(o) mestre. Podes citar a fonte? É que dizer que partes do filme fazem rir e citar a frase, dita com um enorme cinismo, “you need to get a sense of humor”, como boas aragens e sinal da condição do senhor é para mim um bocado indescritível mas enfim… quando tiveres oportunidade de ver o filme penso que também o vais possivelmente achar piroso.

O mais curioso do teu comment foi ter descoberto que também não és um fã do Felini… não sabia mas se calhar foi por tua influência que nunca consegui apreciar totalmente o realizador, e tentei, e tentei. Xxx mouse


De rafgouv a 14 de Julho de 2008 às 11:26
Não percebo o que queres dizer no 1° parágrafo.

Este filme foi faladissimo tal como o livro do Bauby... e aquilo que digo foi o que fui apanhando e que de facto corresponde a coisas ditas por Mestre Cuca: em relação aos filmes do Amenabar e do Eastwood, o Schnabel/ Bauby utiliza muito humor e recusa o panfleto pela eutanásia... O Bauby escapou a um rapto no Libano por causa de uma troca de avião, depois teve o acidente cerebral... e acabou por morrer de pneumonia.


De rafgouv a 14 de Julho de 2008 às 11:30
Quem diz "you need to get a sense of humor" é Bauby a outra pessoa... E no livro ele não cessa de dar provas desse sentido de humor que não é de todo incompatível com o cinismo.


De mouseland a 14 de Julho de 2008 às 12:03
:mrgreen::mrgreen::mrgreen: Ups, isto está um bocado desconexo mas não deixa de se ir revelando... já não me lembrava desse episódio do Bauby no Líbano mas na altura foi muito falado. Sei que quem diz a frase é Bauby à enfermeira, hehehe, vi o filme há aproximadamente uma semana. O sentido de humor tem muitas compatibilidades com o cinismo, concordo. Mas parece-me que implicitamente está ali bem referida a eutanásia, não sei se da mesma forma que no filme do Amenábar ou do Eastwood, quem sou eu para o dizer… mas que a relação existe, talvez de forma mais velada, menos evidente. Não senti de todo a “queda” da tendência da primeira fase do filme em que ele diz claramente que quer morrer e a inserção, com mais ou menos humor, subsequente. Acho que também Ramón Sampedro no filme do Amenábar tem o mesmo género de humor cáustico, cínico, e a leitura dos outros que “tombam de amor por ele”, igualmente presente em ambos os filmes, penso que também tem que ser interpretada de forma menos cor-de-rosa. O facto das pessoas encontrarem sentido para a vida delas na desgraça dos outros é bem sintomático de uma certa morbidez, parece-me. xxx mouse


Comentar post

.mais sobre mim
.pesquisar
 
.Março 2014
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
17
18
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

31


.posts recentes

. EM SÃO PAULO, ENTRE OS RU...

. "THE LAST OF US", AMOR, L...

. QUE SORTE PODER VOLTAR A ...

. MEXICO DF UMA CIDADE ONDE...

. A MINHA SAGA COM O CANDY ...

. QUATRO FILMES A NÃO PERDE...

. PABLO ESCOBAR, O PATRÃO D...

. A MINHA FRUSTRAÇÃO COM O ...

. "THE WALKING DEAD" (GAME)...

. NUMA JANGADA DE POVOS IBÉ...

.arquivos

. Março 2014

. Dezembro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Maio 2012

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

.tags

. apostas

. arte e design

. artes e design

. cibercultura

. ciberfeminismo

. cibermemórias

. cinema

. colaborações

. divulgação

. enigmas

. entrevista

. exposições

. festas

. game art

. game art exposições

. gamers

. iconografias

. indústria de jogos

. interfaces

. jogos e violência

. livros sobre jogos

. mouse conf.

. mouse no obvious

. mouseland

. myspace

. pop_playlist_game

. portfólios

. script

. segredos

. séries tv

. teatro

. textos

. viagens

. viagens cinema

. todas as tags

.links
.participar

. participe neste blog

.MOUSELAND _ PATRÍCIA GOUVEIA
ARTES E JOGOS _ DIGITAIS E ANALÓGICOS
blogs SAPO
.subscrever feeds