Sexta-feira, 26 de Dezembro de 2008
MIGUEL SOARES VÍDEOS E ANIMAÇÕES 3D_CULTURGEST_2008


Fui hoje finalmente ver a exposição de
Miguel Soares na
Culturgest. Andava desde a inauguração com vontade de ir ver os trabalhos do autor agora expostos com uma curiosidade que poucas vezes tenho em relação a estas retrospectivas de arte contemporânea tão “engajadas”, como dizem os brasileiros a partir do termo francês. Conheço bastante bem o percurso do autor que tenho seguido com atenção desde que fomos contemporâneos nas Belas Artes e estava genuinamente com curiosidade em relação a estes vídeos e animações 3D, que seguem um período de 1999 a 2005, existindo, no entanto, uma obra sobre videojogos catalogada com a data de 1996 e que julgo ter visto, em tempos, em exposição na galeria Monumental. O vídeo,
SpaceJunk, versão beta 1.0, ou pelo menos impressões a partir deste, também já tinha visto na Sala do Veado do Museu Nacional de História Natural, algures nesta década, numa mostra organizada pela Galeria Luís Serpa Projectos.
A exposição agora apresentada na
Culturgest é interessante mas tem, para mim, coisas muito mais consistentes do que outras. Algum desequilíbrio nas opções escolhidas, que só a excelente banda sonora que acompanha todas as obras, sem excepção, vem colmatar. Nostálgica q.b. mas muito boa em matéria de sonoplastia e na escolha dos temas propostos nas diversas composições sonoras é bastante imersiva e transporta-nos facilmente para as visões distópicas e subversivas do autor. Assim, somos catapultados para um
remix de perspectivas sobre o mundo que oscilam entre uma concepção deste como um espaço algo naturalista e onde se subentende que a Terra é de certa forma conspurcada pela tecnologia e, uma outra, também com raízes evidentes na ficção científica, onde o design, por via da técnica e da estética, transforma a vida humana e o espaço urbano num lugar mais aceitável.


Penso que os dois vídeos “voyeur”,
Expecting to Fly e Untitled (two), a partir de uma varanda da casa do autor e cujos bizarros acontecimentos, um desastre, no primeiro, e desavenças entre condutores, no segundo, importunaram
Miguel Soares enquanto este trabalhava nas suas animações por computador, poderiam fazer mais sentido no YouTube. Estes vídeos, parecem ali deslocados e sugerem uma outra direcção que não aquela depois desenvolvida nas obras que veremos posteriormente. Fazendo um percurso algo linear pela exposição, segue-se o vídeo
Y2K, de 1999, sobre o bug do ano 2000 e realizado usando
software não profissional. Depois,
Times Zones, de 2003, para os
Negativland. Este trabalho é curioso pelo imaginário da Guerra Fria e pelo clima conseguido na composição gráfica.
GT, de 2001, é dos meus projectos favoritos pela ironia evidente. O trabalho é inspirado no jogo de computador
Interstate 76 e conta a história de três carros que seguem no encalço de uma rapariga. No final apresenta-se uma diva estereotipada a 3D.
Place in Time, de 2005, leva-nos até um vale recriado ao longo dos tempos centrando a narrativa na personagem de uma barata que percorre todas as transformações deste. Com uma boa ideia e algumas imagens belíssimas o vídeo não é totalmente conseguido por alguns desequilíbrios ficcionais e visuais. Se há imagens realmente magníficas do tipo fantástico outras, mais abstractas, parecem mais grosseiras e a junção entre ambas nem sempre parece acompanhar o conceito. Penso que é, no entanto, um trabalho bem conseguido e que vale mesmo a pena ver.


Com
Place in Time mas também com
Archbunk3r Associates, de 2000, e com
SpaceJunk, de 2001, deparamos com uma narrativa e estética ecológicas. Em
Archbunk3r Associates constrói-se um catálogo de um estúdio fictício de design e arquitectura que opera em Marte. Esta é, quanto a mim, a obra menos consistente e torna-se quase uma graça sem sentido ao fim de alguns segundos. Inventivo sem dúvida mas um trocadilho que fazia sentido em qualquer plataforma como o
Second Life e que se baseia demasiado numa concepção do estranho e do alienígena como semelhante, ou seja, a vida em Marte é transcrita de forma mimética à vida terrestre. Então, é caso para perguntar, para quê a simulação?
Muita coisa haveria para dizer desta retrospectiva de
Miguel Soares na
Culturgest, são seis anos de produção em vídeo arte, que falam sobre mundos virtuais (os
active worlds vieram-me recorrentemente à cabeça),
software (
Poser,
Bryce,
Corel Dream 3D, são apenas alguns), criação digital e jogos de computador misturados com uma excelente banda sonora, revivalista e nostálgica. Uma encenação sobre a cultura contemporânea e as suas ambiguidades, coisa que
Miguel Soares sempre soube fazer, pelo menos desde as primeiras exposição na Galeria Monumental e que podem ser vistas em fotografia e vídeo
aqui e
aqui. Passem por lá se tiverem tempo pois acaba dia 4 de Janeiro e a viagem compensa.