Quinta-feira, 12 de Fevereiro de 2009
BREVES NOTAS SOBRE AS ÚLTIMAS ESTREIAS CINEMATOGRÁFICAS
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A temporada cinematográfica ultimamente tem sido impossível de seguir, somam-se as inúmeras estreias e mesmo fazendo sessões duplas ao Sábado e ao Domingo a agenda é complicada. Em vésperas da grande noite dos Óscares a Mouseland não se pode furtar de seguir, a par e passo, o que se passa em matéria cinemática e por isso vai apresentar algumas breves notas, para discussão, sobre os filmes que a mouse tem conseguido visualizar.

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Ora, então comecemos pelo enigmático The Curious Case of Benjamin Button (David Fincher 2008). Fui ver o filme no final de Janeiro à Praça de Touros, num Sábado e, tenho que confessar, que o cenário não foi o melhor. Atrás de mim tinha um grupo de raparigas adolescentes que comiam pipocas, falavam entre si e suspiravam em cada grande plano de corpo inteiro de Brad Pitt. É claro que isto só sensivelmente a meio do filme. Confesso que verti algumas lágrimas e que achei a experiência mágica em alguns momentos, nomeadamente a narrativa da construção do relógio, as cenas de neblina no barco, os ambientes da vida no lar de idosos, o encontro nocturno entre Benjamin e a amante no hotel ou os momentos de “ligação” amorosa entre Benjamin e Daisy que percorrem o filme. À excepção daquela horrível cena de dança nocturna em Nova Iorque, de Daisy para Benjamin, toda a atmosfera criada é propícia ao sentimentalismo e arrepia as entranhas. A acção envolve-nos numa trama bem contada do ponto de vista narrativo, numa paleta em que a neblina e o sfumato, sugerem uma ambiência simultaneamente real e fantástica.

Adaptado a partir da história de F. Scott Fitzgerald o filme explora a ficção de um homem que nasce com oitenta anos no corpo de um bebé e que a partir daí se vê confrontado com a regressão em matéria de idade, até chegar novamente à fase bebé, num ciclo impossível de inverter. Esta nova fase infantil, no filme, talvez fosse prescindível e, segundo ouvi referido pois não a li, nem consta na novela de F. Scott Fitzgerald. Temos assim acesso a umas “cenas extra” de colinho, em que a amante se converte em mãe, e o caso amoroso se transforma numa relação de dependência. Deve fazer parte de algum fetiche masculino esta conversão, do amante em bebé, e não nos pode surpreender que os homens em idade avançada, e não só, alimentem a ficção de que precisam de uma mãezinha para lhes limpar a baba e os acarinhar quando velhos. Ficção recorrente no imaginário masculino? Deve ter um pouco disto, sem dúvida. Resta-nos, a nós, mulheres a morte solitária? Talvez o paradigma também esteja a mudar. Não deixei de notar também a curiosa questão, levantada pelo filme, que refere a relação de uma mulher mais velha com um homem mais novo. Sinal dos tempos, parece-me, pois esta realidade é cada vez mais comum na sociedade actual, caso para perguntarmos se não há mesmo uma moda actualmente que legitima finalmente este tipo de relação, por oposição ao tradicional par “homem velho e sábio com mulher jovem e bela”. Seria, neste sentido, uma piscadela de olho interessante para as mulheres que também se sentem no direito de receber “colinho” em idade avançada.

O filme segue a história da vida de Benjamin, nascido em New Orleans, desde o princípio da Primeira Grande Guerra até ao século XXI, e vale a pena ser visto numa sala de cinema mas para mim também foi uma decepção. Achei-o facilmente desmontável e algo feito para o actor, Brad Pitt, uma personagem que embora deva ser de facto apreciada me irrita ligeiramente, embirro com o queixo dele desmedidamente, hehehe.

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No mesmo dia, e depois das quase três horas de visionamento do filme The Curious Case of Benjamin Button decidi, em conjunto com o meu parceiro, ver Changeling (Clint Eastwood 2008), um "objecto artístico" cujas palavras são insuficientes para explicar o que ali se passa. Admito que achei Changeling muito bom e que me pareceu um filme tão incómodo que, ao contrário da ligação evidente ao meu sistema lacrimal presente em The Curious Case of Benjamin Button, neste caso, as minhas glândulas lacrimais ficaram intactas, mas a minha traqueia sofreu uma embolia evidente, só equiparada à intoxicação alimentar que sofri recentemente e que me deixou o tubo respiratório também dorido. Changeling deve ser ainda mais desconfortável para as mulheres pois pensar que uma situação daquelas se passou há tão pouco tempo nos Estados Unidos da América é arrepiante. A história real é de uma brutalidade tal que a consciência humana só pode receber um electrochoque de auto análise e perguntar aos mais empenhados em desmascarar o papel das mulheres nas sociedades do médio oriente o que acham sobre o que aconteceu entre nós, ainda tão recentemente, no Ocidente... O filme mostra bem como o pior crime que os homens fazem recorrentemente contra as mulheres é a constante tentativa de lhes usurparem o discurso, ou seja, o acto constante de lhes limitarem a capacidade de enunciarem as suas próprias ansiedades, preocupações e receios. Isto acontece ainda hoje nas sociedades ocidentais a um nível preocupante e não vale a pena moralizarmos o discurso sobre este assunto com casos mais extremados como o de outras sociedades. Foi em tudo isto que o filme me fez pensar.

Clint Eastwood passou a fazer parte, no meu imaginário, dos realizadores mais originais na defesa do ideário feminino. Que seja um realizador que foi antes um actor de filmes de cowboys é no mínimo irónico… Daí que Angelina Jolie seja tão “robusta” a tecer-lhe elogios e que a sua actuação acompanhe tão bem aquilo que se pretende combater, i. e., a depreciação das inquietações e opções das mulheres, a forma paternalista com que se ridicularizam as opiniões e formas de pensar no feminino. Não digo mais porque tanto haveria a salientar mas este é, para mim, o ponto principal. Obrigado uma vez mais Clint Eastwood! Um homem que não deve jamais precisar de "colinho" ou que lhe "limpem a baba" quando velho.

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Numa outra sessão ao Domingo, mas também na Praça de Touros, vi o novo filme de Woody Allen (2008), Vicky, Cristina, Barcelona, um documento cinematográfico médio cheio de clichés evidentes, e com uma visão bastante dualista entre europeus e americanos. A recorrente desmontagem de alguns lugares comuns, nomeadamente a apresentação de mulheres e homens “sem qualidades nenhumas”, para além da sua presunção, são evidentes análises de algum intricado problema de interpretação da noção de génio à la Europa, burgueses endinheirados e insatisfeitos que se julgam artistas incompreendidos. Penso que à semelhança do que Woody Allen fez em relação à sociedade inglesa Londrina em Match Point (2005), filme que muito apreciei, faz agora sobre Espanha neste Vicky, Cristina, Barcelona, embora com mais estereótipos e com menos subtileza. Julgo que foi mesmo o governo Espanhol que encomendou o filme o que justifica bem a obra de charme algo irónica e simultaneamente turística. Safa-se a banda sonora e a actriz Rebecca Hall, o resto é um chorrilho de banalidades bem filmadas que nos levam apesar de tudo a pensar sobre o problema da insatisfação. Um bom roteiro da vida de alguma burguesia em Espanha? Acho que é pura ficção.

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Domingo passado fui ver Revolutionary Road (Sam Mendes 2008), um filme duríssimo sobre as relações humanas num subúrbio do Connecticut, uma história que se passa nos anos cinquenta do século passado mas que se poderia passar agora, muito bem interpretado por Leonardo DiCaprio e Kate Winslet, e que será certamente contemplado com alguns Óscares. Confesso que a minha admiração por Leonardo DiCaprio se tem vindo a acentuar e considero que é um dos actores que mais tem evoluído, Blood Diamond (2006), The Departed (2006) ou Catch me if You Can (2002) são exemplos evidentes de uma presença incontornável no panorama cinematográfico. Um actor bastante depreciado por alguns que é, na minha humilde opinião, um dos mais fascinantes personagens nos ecrãs de cinema da actualidade. Ao contrário da maioria, penso, não admiro tanto Brad Pitt como gosto de Leonardo DiCaprio. Neste filme, também sobre a insatisfação, um casal vive a monotonia do dia-a-dia com dificuldade pois no âmbito da relação existe a convicção de que ambos formam um “casal maravilha”, especial e dotado para grandes feitos. Com trinta anos e uma vida cheia de responsabilidades e pesos, duas crianças pequenas, uma casa por pagar e dois empregos entediantes, ele numa agência, ela como dona de casa da família, ambos se sentem frustrados e incapacitados para continuar. O drama vivido a dois e uma depressão que se avizinha problemática leva o enredo do filme a tomar contornos imprevisíveis e fora de controlo. Julgo que é um artefacto a não perder.

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Seguiu-se no mesmo dia, para não perder de vista a tentativa de acompanhar os Óscares e, depois de um cenário de três meses de depressão cinematográfica (Outubro, Novembro e Dezembro foram bastante pobres em matéria de estreias, seguidos agora por esta “embolia” de escolhas) fui ver Milk de Gus Van Sant (2008). Achei o filme muito interessante e surpreendentemente interpretado por Sean Penn. Eu que me juntava às vozes que diziam que o actor andava a repetir a fórmula encontrada em Mystic River (2003) calo-me perante a evidência que se conseguiu reinventar em Milk. Há momentos, nomeadamente nos que aparece de cabelo comprido e rabo-de-cavalo, em que está absolutamente irreconhecível. A história dispensa apresentações pois é tão interessante que nos agarra e nos transporta para um ambiente de activismo político. É como se o apelo à acção transpirasse de todos os “poros” da película e contagiasse o espectador de forma vibrante, como se o convidasse a agir. Num registo muito longe das experiências mais contemplativas de Gerry (2002) ou Elephant (2003), filmes que muito aprecio, o realizador mostra bem como é capaz de filmar com magia os encontros e desencontros amorosos através de uma estrutura linear baseada numa história verídica. Gostei muito.

Este fim-de-semana conto fazer mais um tour pelas possíveis escolhas e voltarei com as minhas opiniões. Espero ver A valsa com Bashir (Ari Folman, 2008) e Quem quer ser um Milionário (Danny Boyle, 2008).


16 comentários:
De rafgouv a 16 de Fevereiro de 2009 às 14:02
:neutral:
Obrigado por este artigo!

Existem realizadores americanos - um Clint Eastwood, por exemplo, nos seus momentos, cada vez mais raros, de grande inspiração - capazes de transformar qualquer história corriqueira em epopeia humana. Outros preferem fazer passar, por debaixo do verniz hollywoodiano, clandestinos tesouros brutos de subtileza e perversão a que so os mais entusiasmados garimpeiros têm acesso. David Fincher pertence claramente a esta 2a categoria, a categoria daqueles a quem Martin Scorsese chamou "contrabandistas".

Curiosamente, o autor de "Se7en" cujos 1°s filmes auguravam um futuro clipesco e porventura algo exibicionista (se bem que, na minha opinião, nunca gratuito) esta a transformar-se (cf. Zodiac e Benjamin) em mestre do "understatement", da subtileza e de uma certa "clandestinidade".

Benjamin é um filme sobre a impassibilidade de um homem (e de um actor) e sobre a relatividade do tempo (por excelência o tema preferido de Fincher) que não passa de aparência fisica. Achei deliciosas as reflexões aqui feitas sobre a diferença de idades entre os protagonistas (no filme é dito firmemente que Benjamin é mais velho do que Daisy - embora va gradualmente PARECENDO mais novo) e sobre a temática da mulher balzaquiana que o filme subverte em vez de, como sugere mouse com alguma ingenuidade, confirmar: por exemplo Mrs. Abott (uma impressionante Tilda Swinton) - ela sim fulgurante balzaquiana - é mais velha do que Benjamin embora quando ambos se encontram PAREÇA mais nova. E a relatividade dessa juventude (ou dessa maturidade) é reforçada quando numa portentosa digressão (outra marca do cinema de Fincher) aprendemos que Mrs. Abott atravessou o canal da Mancha a nado apesar de uma idade bastante avançada.

Ainda mais discutivel é a maneira de reduzir a parte final do filme à regressividade do heroi... Se existe de facto algo de incestuso na relação entre Benjamin e Daisy, isso está lá desde o início da relação (são amigos de infância). No entanto, o filme é bem mais venenoso (e de longe mais interessante): nas ultimas cenas assistimos à história de amor perfeitamente escandalosa entre uma mulher adúltera (Daisy é casada) e uma criança... Subversão tão ousada quanto o cliché do predador pedófilo masculino é invertido e integrado numa ficção que alguns cegos ja quiseram comparar a Forrest Gump (é o mesmo argumentista...)... Estou no entanto parcialmente de acordo com mouse na medida em que esta última secção não está plenamente conseguida: é possivel envelhecer um actor mas continua a ser impossivel rejuvenescê-lo digitalmente e a conclusão do filme padece da falta de Brad Pitt, perdendo bastante em coerência.

Outro dos portentos do filme - e da incompreensão que desperta entre tanta gente - é a forma como Fincher sobrevoa todos os estandartes do cinema de tese, do melodrama ou do documento, fazendo até uma certa gala em desprezar as potencialidades grandiloquentes do argumento e preferindo o tal "understatement": nem o racismo, nem o amor trágico, nem os grandes acontecimentos do século (a Guerra, Katrina...) ocupam o primeiro plano. Tal estratégia é perfeitamente contrária aos 'topos' do cinema hollywoodiano, embora o dispositivo narrativo tenha um inegável grau de parentesco com Madison County, o inesquecível melodrama de Eastwood.

Não é no entanto com Eastwood que o filme de Fincher tem mais ligações e ainda menos com Zemeckis mas provavelmente com o gigante Michael Powell. Podemos ver em Benjamin a mais vibrante homenagem ao autor de Peeping Tom: de Colonel Blimp (outra biografia de heroi impassivel e paradoxalmente desprovido de heroismo) a A Matter Of Life and Death (as digressões burlescas, a escolha de diferentes texturas) passando pelo evidente The Red Shoes (Daisy e a belissima sequência do ballet) ou pela personagem do Capitão, o cinema de Powell é amplamente evocado temática e formalmente (um rigor constante e uma maniaca atenção aos detalhes tanto em estúdio como em exteriores, tanto em situação de rodagem real quanto virtual).

Quanto a The Changeling: aqui sim, um filme sem surpresas, sem pérolas para desenterrar, sem trabalho de garimpeiro a realizar, para mim uma desilusão!

Uma palavrinha sobre Vicky Cristina Barcelona: um filme quanto a mim bastante delicioso. Gosto do lado "travelogue" (porque não assumir os clichés locais? porque é que Allen havia de fingir que não é turista em Barcelona quando todos sabemos que é?). E gosto sobretudo da forma como um realizador tão mulherengo expõe de forma tão franca e erotica o seu fascínio por essa massa sexual chamada Javier Bardem.

What do u think? :grin:


De rafgouv a 16 de Fevereiro de 2009 às 14:23
:mrgreen::mrgreen:

- Eastwood, "Um homem que não deve jamais precisar de “colinho” ou que lhe “limpem a baba” quando velho."
Queres dizer: UM HOMEM A SÉRIO, que não chora nem é de mariquices, um homem bem viril, um autêntico garanhão, né? E isso não sera um cliché ainda maior???????


De mouseland a 16 de Fevereiro de 2009 às 15:14
O que eu penso é que, se bem me lembro, há algumas imprecisões no que dizes, se bem me recordo a Daisy já estava viúva quando dá colo ao Brad Pitt, posso estar enganada mas se assim não for a tese da "mulher adúltera" não cola bem, ela aliás é sempre apresentada como um exemplo de virtude, nem na hora da dor permite o companheirismo do amante por uma questão de valorização do “amor-paixão”, este ponto faz notar bem como o romantismo toma conta da tese do filme. Depois, realmente nunca fui muito tocada pela história de "As Pontes de Madison County", mais um exemplo de amor-paixão à la Hollywood, sempre achei este filme um grande pastelão mas admito que é pessoal.

Finalmente, eu não falei de homens que choram nem comparo a expressão “colo e baba” com a questão das lágrimas, isto é sim muito impreciso e sem rigor, aliás ainda há pouco tempo tivemos oportunidade de debater o encontro Federer/Nadal na Austrália e eu mostrei-me deliciada com a delicadeza do choro de Federer por oposição ao "tronco bruto" que é Rafael Nadal. Penso que é um tipo de argumento “tropeção” esta viragem final do teu texto. Quando velhos todos, homens e mulheres, deitamos baba e queremos conforto humano há é aqueles que se penduram nos outros e aqueles que se recusam a aceitar o estado de degradação física como algo de inevitável. Penso que as mulheres por terem mais longevidade que os homens é certo mas também porque geneticamente estão formatadas para tomar conta dos outros, i. e., dos filhos, dos homens, se resignam mais a essa situação. Penso que não estamos a falar das mesmas coisas.

De resto, é o que tu achas, sobre os filmes, e por isso respeito mas não é o que eu penso definitivamente. Acho que não é as citações à historiografia do cinema que vão safar as inconsistências do filme “Benjamin Button” e quanto a “Vicky Cristina Barcelona” achei o Bardem feio como tudo mas também a representar aquele idiota nada de surpreender.

xxx mouse


De rafgouv a 16 de Fevereiro de 2009 às 16:31
Não me parece que haja "amor-paixão" em Benjamin Button. Pelo contrário há respeito e tolerância mútuos : Benjamin tem a aventura com Mrs Abott sem segredos para Daisy e Daisy casa-se sem enganar Benjamin... Penso que dentro dos cânones de Hollywood estamos muito longe do tal modelo de virtude (nem a verdade contou à filha). A impassibilidade de que falava (e que me parece ser um dos temas do filme), exclui a paixão.

Quando analiso um filme, o que está em jogo não é a forma como ele se adapta às minhas opinões sobre tal ou tal psicologia. Não deixo de gostar de um filme por este ser contrário às minhas opiniões sobre tal ou tal traço psicologico. O que me interessa (e, espero, aos leitores da mouselândia) não é o que eu penso mas o que David Fincher quis dizer.

Não falaste de lágrimas mas parece-me que criticavas implicitamente um homem frágil, que pede mimos e o assume... os clichés são ossos duros de roer.


De mouseland a 17 de Fevereiro de 2009 às 18:37
:mrgreen::mrgreen::mrgreen: Há também quem considere que os autores não são, por vezes, os seus melhores intérpretes, tese que eu de alguma forma não partilho mas que pode servir para te fazer questionar a ti algumas afirmações.

:oops: Em relação à ingenuidade não sei se serei mais ingánua do que tu, pelo menos no que diz respeito a considerações sobre amor-paixão, o amor de Benjamin e Daisy é amor-paixão porque ambos sabem que não vai durar e fogem dele precisamente por isso. A Mrs Abott que eu saiba nunca soube que Benjamin tinha nascido velho... que eu saiba hein!

Pois os clichés são esses movimentos que nos levam a ver nas palavras dos outros coisas que eles não dizem, atirando-lhes com a nossa própria ideologia. xxx mouse


De rafgouv a 18 de Fevereiro de 2009 às 01:42
sorry, i don't understand anything.
não vejo a importância que tem o facto de Mrs Abott ou outra pessoa conhecer a "idade real" na medida em que o filme quer dizer que a idade real NÃO EXISTE.
não percebo tb a relação entre o amor-paixão (algo que para mim é indissociavel, por exemplo, da paixão-ciúme) e o facto de saberem "que não vai durar". Pensava, mas explica, se me engano, que o amor-paixão que evocavas era justamente a crença, por exemplo, num amor eterno...

por fim: se digo algo que não corresponde com o que queres dizer, o melhor é explicares - para um burro como myself - o que queres dizer. de preferência sem renegar o que antes tinhas dito mesmo se disseste ou me fizeste entender algo que não pretendias dizer ou fazer entender. :mrgreen::mrgreen::mrgreen:


De rafgouv a 18 de Fevereiro de 2009 às 02:07
o meu post anterior não estava suficientemente claro nalguns pontos:

- daisy e ben não fogem de amor nenhum, pelo contrario escolhem viver livremente os seus amores absolumente nada exclusivos (fogem precisamente da exclusividade, da obrigatoriedade, dos constrangimentos, de um amor total e/ou eterno). percebes o que quero dizer???


De mouseland a 19 de Fevereiro de 2009 às 00:54
:mrgreen::mrgreen::mrgreen: Deixa lá a "pescaria" (understand, soi dissant) :grin: que com frases destas rematas a discussão: "de preferência sem renegar o que antes tinhas dito mesmo se disseste ou me fizeste entender algo que não pretendias dizer ou fazer entender" :wink:.

Para mim o filme BB não quer dizer que a idade real não existe e essa é a tua interpretação, ou a do Fincher, sei lá. A idade está ali em cada poro de película (no lar de velhos, na nadadora de idade, etc.), desculpa lá as metáforas recorrentes sobre o corpo :wink:, é coisa de mulheres isto do corpo, dizia-se, ou dizem os homens? Ora, ora que eu em relação ao amor-paixão também não concordo nada. Amor eterno mas também não plenamente consomado, daí que se separe o amor matrimonial do amor-paixão, que leva à morte, por exemplo, poderia continuar o rol de hipóteses mas estou bem disposta e fico por aqui. Não percebo não, o que queres dizer :cool:. hehehe, xxx mouse


De rafgouv a 19 de Fevereiro de 2009 às 12:25
mousezinha,
o "amor-paixão" define-se na maior parte dos dicionarios e enciclopédias como um desvio quase patológico (uma espécie de perversão) ligada com elementos como o ciúme, a possessividade e a obssessão. Aquilo que une Daisy e Ben é, na minha opinião, mais proximo de um amor-amizade plenamente consumado (vivem juntos durante um longo periodo, por exemplo, e a separação nunca é dramatizada).

A "idade", a "passagem do tempo" esta como dizes "em cada poro da pelicula" e em cada corpo dos actores que a povoam (é alias o tema principal do filme)... aquilo que digo é que a idade, a passagem do tempo é vista como uma simples aparência nada objectiva: de alguma forma a passagem do tempo e a perda da memoria são inelutaveis e isso independentemente da forma fisica ("envelhecimento" ou "rejuvenescimento", avanço ou retrocesso dos ponteiros do relogio).


De mouseland a 22 de Fevereiro de 2009 às 22:34
:mrgreen::mrgreen::mrgreen: Quando começas com o diminuitivo de mouse(zinha) o caldo está entornado, hehehehe. Ora, eu não me refiro a dicionários, rudes simplificações dizem alguns, mas à forma como o amor-paixão é apresentado no livro de Denis de Rougemont, "L'Amour et l'Occident", nos "fragmentos do Discurso Amoroso" de Roland Barthes, no livro "A Paixão de Swann" de Proust ou "Do amor" de Stendhal... tantos outros que poderia citar... o "Werther" de Goethe ou o exemplo supremo do "Romeu e Julieta" de Shakespeare. Um sentimento que surge em oposição ao amor-doce e delicado das relações matrimoniais. Uma certa "bagagem" que hoje talvez cada vez faça menos sentido distinguir mas que formatou as nossas cabeças.

Benjamin e Daisy sabem, mesmo quando vivem juntos, que têm que se separar e isso condiciona sem dúvida a relação. Ao contrário de um casal que sabe que pode passar 50 anos em harmonia eles sabem que vão ter que se separar. Se quiseres o mesmo problema que separa duas pessoas que se amam mas vivem em continentes diferentes... penso que nisto não há qualquer tipo de confusão. A questão do ciúme é lateral e até é, em alguns casos de amor-paixão, uma vulgaridade. "Romeu e Julieta" não precisam de sentir ciúmes porque o amor deles é tão forte que jamais rivaliza com outras aparições. Essa questão do ciúme surge mais vincadamente em amores não correspondidos ou que definham de uma das partes (Werther, Swann, por exemplo, ou mesmo a "Lolita" do Nabokov). Amor não correspondido, paixão avassaladora mas não retribuída. Em Romeu e Julieta não há espaço para isto.

Entendidos? xxx mouse


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