Domingo, 22 de Fevereiro de 2009
“QUEM QUER SER BILIONÁRIO?”_UMA TELENOVELA COM SENSAÇÕES VISCERAIS
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Na sexta-feira passada fui aos novos cinemas da Avenida de Roma ver Quem quer ser Bilionário? (Danny Boyle e Loveleen Tandan, 2008). Confesso que achei o filme interessante mas um bocado xaroposo. A primeira parte é absolutamente visceral e deixou-me algumas náuseas e vontade de vomitar. Este aspecto visceral foi algo que também identifiquei em Trainspotting, realizado por Danny Boyle em 1996, filme que nunca apreciei muito e que achei tão interessante quanto superficial. Ora, é precisamente o mesmo sentimento que tenho em relação a Quem quer ser Bilionário?. No início, o realismo do filme aponta para uma história com alguma intensidade dramática sobre a miséria e um punhado de órfãos num cenário quase apocalíptico. Como assinala Clara Ferreira Alves na Revista Única do Jornal Expresso de 14 de Fevereiro de 2009, há neste filme qualquer coisa de Charles Dickens e, neste contexto, “Quem quer ser Bilionário? é a história de Oliver Twist na era da televisão e da cultura de massas”. 

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Curiosamente em Dezembro passado vi o filme em dois actos sobre a novela Little Dorrit de Charles Dickens e fiquei algo surpreendida pelo moralismo inerente a este tipo de “literatura” do pobrezinho, pois embora não há muito tempo tenha visto o filme sobre o Oliver Twist, com Richard Dreyfus de 1996, a memória esquece facilmente algumas subtilezas do estilo de Dickens. A relação que Clara Ferreira Alves estabelece entre as favelas do Brasil e o que é mostrado em Quem quer ser Bilionário? foi precisamente o que o filme me fez pensar. Nunca estive na Índia mas pelo que ali é mostrado as favelas do Rio de Janeiro ou de São Paulo parecem habitação social. Enfim... recordo-me que na China me fartei de conversar sobre a realidade da Índia com o meu parceiro, que esteve lá há dezoito anos. Na altura, muito debatemos as condições agrestes que o país apresentava em comparação à China, pois ambos tínhamos lido o livro China e Índia, as duas grandes potências emergentes de Frederico Rampini. O Paulo falava-me das lixeiras a céu aberto na Índia, dos animais por todo o lado, dos esgotos, das pessoas a pedir e eu ficava algo desmotivada pelo cenário. Senti isso neste filme mas depois vêm as imagens da cor, o luxo asiático e o verniz.

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Mas voltemos ao filme de Danny Boyle e Loveleen Tandan, a dada altura Quem quer ser Bilionário? transforma-se num intensa novela cor-de-rosa e aquilo que o poderia aproximar, por exemplo, de um filme como A Cidade de Deus de Francisco Meireles (2002) ou de Tropa de Elite de José Padilha (2007), leva-nos a um universo de fantasia, cujo intricado quebra-cabeças sobre as possibilidades de Jamal K. Malik sair do programa com a fortuna prometida, serve de mote para juntar os amantes separados. A encenação que envolve a fuga da amada Latika potenciada pelo irmão Salim é no mínimo ridícula mas o filme acaba por valer a pena pela energia contagiante, pela história cruzada entre a vida da personagem principal e o concurso, e pelo genérico final, uma bomba de vitalidade à Bollywood. Até a tipografia usada acompanha o ritmo pop.
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