Sexta-feira, 20 de Março de 2009
BUENOS AIRES_SOFISTICADA E CULTA





Ora, com tantos pedidos vou assim fazer o tão esperado relatório das aventuras e desventuras da mouse nas pampas. Cheguei a Buenos Aires na terça-feira de manhã depois de uma viagem cheia de turbulência, de quase dezasseis horas contando com a escala em Paris, onde não resisti à tentação de ver no avião o máximo de filmes que consegui. Assim, fui surpreendida pelo filme
The Duchess (2008), uma obra que vale a pena essencialmente pela narrativa histórica, que desconhecia, e por alguma possível interpretação ciberfeminista. Achei bastante estimulante a forma como são apresentadas as relação das personagens, a sua engrenagem nas instituições (políticas, culturais, sociais…) e o enredo amoroso algo escabroso. Vi
Australia (2008) que me pareceu um filme enfadonho e nem as paisagens, nem Nicole Kidman e Hugh Jackman, me convenceram. É verdade que dado que não tinha legendas e com a turbulência a bordo alguns diálogos foram difíceis de seguir mas em geral pareceu-me um enorme pastelão de clichés. Seguiu-se,
Rachel Getting Married (2008), um filme que estava desejosa de ver pois sou uma admiradora de
Jonathan Demme desde
Something Wild de 1986. Gostei bastante pelos actores, pelo relato de uma família disfuncional, pela ambiência caótica e epidérmica, documental e simples. Finalmente, vi
The Visitor (2007), um filme bastante curioso e que, mais uma vez, nos mostra como o cinema pode estar mesmo a caminhar para estas produções singelas de baixo orçamento. Bons actores e uma história que todos conhecemos mas que se torna mais nítida naquela caminhada pelos meandros da imigração nos Estados Unidos. Enfim… como podem calcular com o visionamento de tanta película dormi pouquíssimo.


No aeroporto de Buenos Aires lá esperei mais de meia hora pelo carimbo no passaporte e, sempre com receio de extravio de bagagem, lá vi aparecer a minha mala laranjinha de 12 quilos na passadeira rolante. Fui comprar a viagem de táxi a uma empresa creditada pelo aeroporto, depois de várias propostas de taxistas não creditados, claro! “Aterrei” no Hotel Íbis no centro da cidade por volta das onze horas, morta de cansaço. Tomei banho e por momentos pensei que não tinha energia para não me meter na cama. Recomendo vivamente este local, preço/qualidade garantido, e bem situado numa praça interessante da cidade. Como na porta do meu quarto tinha tantas advertências sobre segurança, rapidamente me senti consciencializada com a ideia que estava num país sul-americano. Desde 2007 que não sabia o que isso era e lembrei-me logo de uma situação evidente dos procedimentos que é preciso tomar nestas ocasiões, ou seja, reduzir ao mínimo a exteriorização de relógios, máquinas, carteiras, ou qualquer outro objecto apelativo. Uma vez aqui em Lisboa fui ao Colombo, depois de uma estada em São Paulo de muitos meses, e ainda sentia a pressão de olhar e controlar a carteira em cada esquina. Estava aqui como se estivesse em São Paulo.




Lá me decidi a ir explorar o local dos encontros
3rd Inclusiva-net Meeting: NET.ART (SECOND EPOCH). The Evolution of Artistic Creation in the Net-system pois sabia que tinha que fazer o percurso a pé, dado que o trânsito é imenso naquela zona, e foi assim que percorri os doze quarteirões do hotel ao espaço do
Centro Cultural de Espanha em Buenos Aires (CCEBA). Lá fui, com o mapa Google, a disfarçar as espreitadelas ao papelucho e a tentar mostrar que conhecia cada esquina de Buenos Aires como a palma da minha mão. Naquela tarde ainda me parecia pouco provável pensar em transportar o computador às costas mas, nos dias seguintes, já nem me lembrava das advertências sobre segurança na porta do meu quarto. Reconhecia as ruas que tinha percorrido há cinco anos e o corpo já se tinha adaptado novamente à América do Sul. Estava a começar a reconhecer os cheiros, o ambiente e as sinuosidades do território. O caminho nessa tarde pareceu imenso e quando cheguei ainda ouvi o final da comunicação de
Curt Cloninger.

No intervalo entre a sessão da tarde e a sessão da manhã fui deglutir uma costeleta de “cerdo” com puré de maça que me soube divinalmente e às 16 horas já estava de volta para ouvir a comunicação de
Steve Dietz. Este seminário foi interessante e curiosamente foi apontado o
gaming como uma tendência da evolução das práticas artísticas. Fiquei com alguma confiança para a minha apresentação pois parecia quase uma introdução às manobras que eu apontaria como a minha área de investigação actual. Depois de umas compras nas redondezas cai na cama com o noticiário: um surto de taxistas violadores e a insegurança e a violência tomavam conta da agenda do dia. Ouvi ainda nas notícias que se aproximava um dia seguinte em que chovia em Buenos Aires aquilo que poderia chover durante um mês inteiro…
Quarta-feira choveu literalmente o dia todo. Cuidadosamente decidi vergar-me à preguiça, não fosse adoecer, e passar o dia a descansar e a treinar a comunicação no hotel. Dado o cansaço acumulado, o excesso de ar condicionado dos últimos dias e a chuva, nem as redondezas do Íbis me pareceram convidativas a um passeio e decidi colocar os e-mails em dia e dormir descansadamente num
stop over decisivo para o dia seguinte.
Quinta-feira fui almoçar com os organizadores,
Juan Martin Prada, director do programa,
José Luis de Vicente, jornalista e comissário de vários festivais e eventos sobre cultura digital e Marcos Garcia do
Medialab_Prado. Antes dos cinquenta minutos de fama não tinha grande apetite e pelas quatro horas lá estava eu a debitar a minha conversa para uma audiência de mais ou menos cinquenta pessoas que, segundo percebi no dia seguinte, vinham de vários cantos da América Latina (Peru, Chile, Brasil, etc.), dois ou três americanos e espanhóis. O resto da audiência parecia da Argentina, de Buenos Aires mas não só. No final,
Steve Dietz comentou que a minha comunicação tinha muita informação e pediu para referenciar novamente o nome de Egas Moniz. Uma argentina de Cordóba, assim como um amigo dela, disseram-me que tinham gostado muito da apresentação e que os tinha deixado sem palavras pois era muito diferente das outras. Para além disso acabei por ter pouco
feedback.
Juan Martin Prada agradeceu-me novamente, ouve palmas, mas não sei exactamente o que quiseram dizer por questões talvez culturais. Não tive nenhum “bravo” como em Vancouver, sniff, sniff. O público também era muito mais novo, na sua generalidade, do que o do Canadá.
Seguiu-se o seminário de
Daniel Garcia Andújar sobre plataformas para comunidades digitais. Penso que estava um bocado abananada com o efeito pós missão cumprida para apreender algumas coisas mas confesso que achei um pouco confuso. No dia seguinte fui assistir ao grupo de discussão que foi interessante e onde se apresentaram alguns projectos com piada provenientes do Peru, do Chile, da Argentina e onde Marcos Garcia apresentou o Medialab Prado. Gostei principalmente do robot que junta lixo (
basura), da máquina de gerar sonhos,
Dreamlines e do projecto
Outsource Me! Tudo presente na apresentação do argentino
Leonardo Solaas.



Curiosamente em 2003 uma das coisas que mais me surpreendeu na visita que fiz a Buenos Aires foi a forma como o lixo tem uma presença tão intensa na cidade. Para quem vinha de São Paulo e chegava à sofisticada Buenos Aires ver tanta gente a remexer no lixo era um fenómeno que não escapava facilmente à atenção mesmo de um turista. Desta vez constatei que esse olhar era mais real do que na altura pensei. Como se pode constatar no site
Basurama e na introdução de
Leonardo Solaas aos robots recolectores. O lixo torna-se uma presença constante, pequenos aglomerados e lixeiras pela cidade, remexidos, pesquisados. É uma coisa estranha.


De resto, de assinalar uma ida ao cineclube, INCAA, Instituto Nacional de Cine Y Artes Audiovisuales, ver o filme
Rodney de
Diego Rafecas sobre um miúdo de nove anos e as suas relações com uma família disfuncional. Um filme um bocado desequilibrado e com um argumento por vezes patético. Uma maravilhosa degustação de
Ceviche num restaurante Peruano chamado Chan Chan recomendado no
Time Out Buenos Aires. Um naco de carne na pedra em
Puerto Madero acompanhado por uma salada temperada à la carte e tudo regado com um delicioso copo de vinho argentino. Finalmente, uma visita à livraria
el ateneo, já lá tinha estado mas não resisti ir espreitar novamente a recuperação de um teatro onde tantos artistas representaram no passado. Saber mais
aqui. Pela primeira vez me disseram para não tirar notas de livros numa livraria… fui coagida por uma segurança a não tirar apontamentos. Tenho o vício de ir buscar inspiração às livrarias locais e depois encomendar os livros pela net, se calhar é desonesto, pelo menos ali nem sequer é permitido.
Para casa trouxe uma “degustação” de cinema argentino em DVD:
Nueve Reinas (2000) de
Fábian Bielinsky, um divertido filme sobre dois burlões passado no oponente Hotel Hilton de
Puerto Madero, dois actores excelentes, Ricardo Darín e Gastón Pauls, e um enredo que vale mesmo a pena conhecer.
Histórias Mínimas (2002) de
Carlos Sorin, uma obra que encanta pela simplicidade, pelos enquadramentos subtis e por uma boa direcção de arte. Com música de Carlos Paredes. O argumento remete-nos para três histórias cruzadas, um idoso que decide procurar o seu cão desaparecido há três anos, uma mulher em viagem em direcção a um concurso de televisão e um vendedor ambulante que leva um bolo de anos ao filho de uma mulher que mal conhece. O enigmático e surrealista
El Lado Oscuro del Corazón (1992) de
Eliseo Subiela que, confesso, tanto achei interessante como um bocado pretensioso e que narra a relação entre uma prostituta de Montevideo e um poeta de Buenos Aires. Finalmente,
Tapas (2005) de
José Corbacho e
Juan Cruz que ainda não vi.


O regresso foi calmo e depois de pagas as taxas para deixar o país lá vi mais um ou dois filmes no voo de regresso, o último 007 que achei um bocado fraco e outro que sinceramente já não me recordo qual foi. Voltei a tentar ver o Wall-E e não é que adormeci precisamente no mesmo sítio do filme… aquele filme para mim tem um efeito soporífero e até penso que vou comprar o DVD como terapia da insónia. Buenos Aires deixou-me saudades é uma cidade incrível, as pessoas são de uma simpatia muito especial, discretas, transpiram sofisticação e cultura. É como encontrar um pouco de Paris na América do Sul.
Resta-me aqui reiterar os mais sinceros agradecimentos a Sonia Díez Thale (
Medialab_Prado), por ter tratado da minha viagem, hotel e de todos os procedimentos necessários à ida para Buenos Aires, a
Juan Martin Prada (director do programa 3er Inclusiva-net) pela forma calorosa como me apresentou, a Marcos Garcia (
Medialab_Prado) pelo apoio logístico, à Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias pela integração no projecto Infomedia e à Inês Santa por ter tomado conta da tradução do texto.
De margarida a 20 de Março de 2009 às 15:18
olá mouse:grin:a tua comunicação foi filmada e está disponível online? gostava muito de ver! adorei o trabalho do Leonardo Solaars, a máquina dos sonhos é fantástica:razz: aiiii também quero ir a buenos aires!!!:mrgreen: xx
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