Terça-feira, 24 de Março de 2009
ATELIER DE ARTES DIGITAIS_FCSH_UNL 08/09_LEVE E DESCONTRAÍDO!

Terminou em Fevereiro mais um seminário de mestrado Atelier de Artes Digitais na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Sendo a terceira vez que lecciono este atelier penso que este ano os dezanove estudantes avaliados me conseguiram surpreender pelos resultados globais da turma. Se o
ano passado os alunos eram mais, vinte e sete em 2007/08 para 19 avaliados em 2008/09, e contribuíram muito para a dinâmica geral da turma, este ano o interesse demonstrado e a assiduidade promoveu um resultado global que até a mim me surpreendeu. Para demonstrar o meu apreço pelo interesse e dedicação dos alunos decidi fazer um
upgrade ao programa sob a forma de visitas exteriores. Assim, recebemos na aula o
Fernando Nabais, gestor de projecto do Ylabs, professor na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias e ex-aluno da edição de 2007/08 deste atelier. O Fernando fez uma apresentação muito interessante sobre a sua visita ao último Ars Electronica e apresentou alguns projectos em desenvolvimento pela Ydreams. No dia 10 de Fevereiro, último dia do seminário, recebemos a visita de
Carsten Goertz (
cal72), artista e designer
new media que estudou na
Academy of Media Arts de Colónia e que preparou para os alunos uma apresentação chamada "Shapeshifting spaceshipping, a pamphlet on questions of reality and its representation in design, science, art and the constitution of identity". Este ano os alunos criaram e produziram cinco trabalhos distintos que apresento de seguida.

Shake Us Wall, um jogo digital corporizado por uma instalação e uma plataforma on-line baseado no clássico PacMan que sugere aos visitantes que colaborem para derrotar um monstro através de interacções num espaço partilhado. O escuro e uma ameaça exterior, um monstro digital, só passível de aniquilação por via da cooperação entre pessoas distintas dentro da “caixa negra” do jogo/galeria, obriga os participantes a agirem em grupo pois de outra forma são aniquilados. A sobrevivência no palco numérico torna-se complicada se os participantes não cooperarem entre si. Assim, se propõe encorajar a aproximação entre pessoas numa luta e num espaço de interacção que potencia a cooperação on-line e off-line. Este grupo, constituído por Isaque Pereira (comunicação), Cristina Novo (novas tecnologias da comunicação), José Espada (teatro e educação), Joana Rodrigues (cinema) e João Machado (cultura contemporânea e novas tecnologias), apresentou o projecto socorrendo-se de um complexo livro de regras da simulação proposta. O colectivo desenvolveu variadas animações
flash para explicitar os algoritmos possíveis de interacção assim como elaborou uma sustentação teórica bastante interessante sobre o conceito ali explorado. Produziu ainda um planeamento técnico detalhado do material necessário à prossecução do projecto e apresentou em maquetas 3D o aspecto global da instalação.

Stor-O-Matic é uma plataforma interactiva que gera narrativas emergentes e generativas, um organismo que deve ser alimentado pelos participantes deste dispositivo no sentido de enviarem para a base de dados do sistema vídeos captados por telemóvel. A partir de quatro categorias: espaço, tempo, personagem e acção os participantes alimentam a plataforma construída através das suas próprias produções sendo que é ainda possível desenhar trajectórias a partir de vídeos produzidos por outros. Este projecto, criado e produzido por Luís Antunes (língua e cultura portuguesa), Patrícia Proença (design de comunicação), Pedro Dias (comunicação), Pedro Suspiro (comunicação multimédia) e Iana Ferreira (cinema e imagem), baseou-se na ideia de construir um espaço digital de criação de narrativas
vídeo-generativas onde o participante
performatiza movimentos gestuais que ajudam a construir narrações fluidas e abertas. Estas constelações visuais e estes enredos digitais são produzida(o)s em tempo-real e visualizáveis através da interface gráfica. O colectivo finalizou o projecto on-line deixando apenas por concluir as funcionalidades ao nível da base de dados. Foi elaborado um dossier de projecto completo, onde se realça o conceito gráfico do logotipo, que anuncia extensões possíveis como um festival
Stor-O-Matic, um evento que explora o espaço narrativo.

Post-Somnium é uma viagem ao mundo dos sonhos inspirada no
Le Science des Rêves (2006) de Michel Gondry que se destina a todos aqueles que gostem de dar alas à sua imaginação e participar numa experiência artística que se baseia na confecção dos sonhos através de imagens, som e vídeos. Os fundamentos teóricos do projecto vão buscar inspiração às teorias do hipertexto para assim explorarem conceitos como não-linearidade, ligação entre tópicos, autoria partilhada, fragmentação e papel activo do leitor. Outras referências que sustentam o estado-da-arte do dossier de trabalho remetem-nos para o colectivo Entropy8zuper (Auriea Harvey e Michael Samyn), nomeadamente os projectos de mapeamento e cartografia dos comportamentos sexuais nos Estados Unidos da América desta dupla e
Wordsswf de 2005.
Post-Somnium vai buscar também inspiração ao projecto
Minneapolis and St Paul are East African Cities de 2003, uma parceria com a artista etíope Julie Merhetu, assim como à coreografia mundial
Move Out Loud de Filipe Viegas e Brahim Sourny de 2008. Sustenta-se ainda nas enigmáticas imagens de Chris Jordan:
Skull With Cigarette (2007) e
We the People e, finalmente, no projecto
Hope.Act.Change (2008) de suporte à campanha de Barack Obama. Este grupo, constituído por Ricardo Rodrigues (multimédia), Sofia Rodrigues (comunicação) e Sofia Tonicher (cinema e televisão), com menos elementos que os grupos anteriores, apresentou o protótipo do projecto e um dossier completo sobre o mesmo.


Constructa, inspirado em René Descartes citado por Maurice Merleau-Ponty em
O Olho e o Espírito, é uma reflexão sobre mapeamento, meta-media, software, pensamento confuso e cultura de remix. O projecto consiste numa aplicação on-line que parte dos conceitos de jogo e brincadeira para a construção de uma base de dados de perfis de participantes. Os “constructores” são mapeados e identificados através da resposta a um questionário que os categoriza e agrupa em “tribos” distintas, a saber,
the bison, the 50’s western, the lights out, the biopsy e the screaming glitter. A linguagem gráfica do projecto
Constructa é bastante rica e recorda a estética dadaista. Existe, nos
building blocks lego das imagens criadas a partir de uma remistura, como que um misto entre o período de desconstrução da tipografia, ou época grunge no design dos anos oitenta e noventa do século passado, e a essência dos conceitos de organização e composição clássicos. O dossier de projecto está paginado com um enorme profissionalismo mostrando como a apresentação dos conteúdos pode muito bem ser equivalente aos próprios conceitos ou, como diria o mestre McLuhan,
the medium is the message. A forma e o conteúdo jamais estão separadas e este projecto é um bom exemplo como pensar sobre o mundo tanto pode partir do conceito como da imagem, é uma reflexão mista. Assim,
Constructa vem chamar-nos a atenção para a impossibilidade da existência de imagens vazias de conceito mostrando igualmente como também os conceitos não surgem fora da jaula da cultura visual. O problema é quando aqueles que geram conceitos são, por vezes, pobres em construir imagens a partir destes e vice-versa. O colectivo que construi e produziu
Constructa é constituído por Ana Fonseca (comunicação), Moisés Coelho (design comunicação), Luís Frias (design comunicação) e Guilherme Ferreira (antropologia).


Para terminar a descrição dos trabalhos elaborados no âmbito do atelier deste ano lectivo, apresento o projecto
Human Condition, baseado na obra de André Malraux publicada em 1933 com o título original
La Condition Humaine. Este trabalho explora estados da condição humana como a solidão, a apatia, o desespero e os aglomerados sociais. Foram recolhidos vídeos de 5 a 30 segundos a partir de um telemóvel e usadas fotografias que foram posteriormente misturado(a)s editado(a)s e trabalhado(a)s de maneira a convocar sentimentos no espectador. Depois, juntaram-se músicas como “Society” de Eddie Vedder, “Beautiful People” de Marilyn Manson ou “Voodoo People” dos Prodigy, entre outras, e construiu-se um argumento não linear que possibilitasse uma experiência labiríntica no visionamento destes excertos e imagens dispersas mas agrupadas por pares de conceitos. A montagem juntou os estados da condição humana em grupos de dois e assim surgiram temáticas que misturam a solidão e a apatia, o desespero e a solidão, etc., o hipertexto surge, neste contexto, como uma mesa de mistura
à la carte do leitor, mediante as ligações que este opta por seguir. Um trabalho próximo do vídeo interactivo. O grupo, constituído por Débora Lopes (ciências da comunicação) e Victor Ferreira (multimédia), inspirou-se na obra de Douglas Gordon, Juan Muñoz, Sharon Lockhart e Gilberto Prado.
Para mim este ano a experiência do atelier foi bastante gratificante e aprendi imenso com os alunos que, como sempre, têm as mais diversas formações ao nível da licenciatura, o que enriquece substancialmente o ambiente do seminário. A todos agradeço a confiança e cooperação e um até breve... O ambiente geral do seminário foi, quanto a mim, leve e descontraído.
De andrade a 26 de Março de 2009 às 14:14
:smile: Interessantes os projectos! :razz:
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