Sexta-feira, 27 de Março de 2009
GRAN TORINO_UMA NUVEM SIMULTANEAMENTE NÍTIDA E ESBATIDA



No Domingo passado fui ver
Gran Torino de
Clint Eastwood (2008) ao cinema Monumental. Um filme que se presta bastante bem ao exercício do contraditório e sobre o qual vou explicitar apenas parte do enredo que o meu cérebro construiu à volta do mesmo. Vou deixar que outros construam a outra metade se for caso disso. Se pudesse seleccionar duas cenas que me impressionaram em
Gran Torino não hesitava em assinalar a introdução do miúdo asiático à barbearia e aos diálogos que deveria estabelecer com futuros empregadores, assim como a cena de degustação chinesa em casa dos vizinhos. Dois momentos inesquecíveis. A história é interessante e dada a unanimidade da critica nacional é quase pecaminoso dizer que é também bastante óbvia, um velho solitário que se aproxima de dois putos asiáticos carentes que antes vilipendiou… uma outra forma de mostrar o problema da integração dos imigrantes nos Estados Unidos, também explorada em
The Visitor (2007), mas aqui ampliada por um confronto mais intenso entre um ex-combatente na Guerra da Coreia e uma família de raízes asiáticas. O que em
The Visitor é amenizado pelo facto do confronto entre culturas se dar com um professor universitário, que até estuda o assunto em questão, neste filme, de
Clint Eastwood, a problemática é bem mais complexa porque afinal
Walt Kowalski é um acérrimo defensor dos valores, dos bens criados e produzidos na América (trabalhou a vida toda na Ford), e da moral do seu país, sendo muito pouco permeável a miscigenações.
Ora, depois de muito contestar a contaminação dos estranhos no seu bairro, sujeitos que nem as próprias casas sabem preservar, eis senão quando
Walt Kowalski se torna o mais próximo possível daqueles que antes pensou poder ignorar… outra mensagem começa a delimitar-se no filme… os miúdos e as diversas tribos urbanas, carentes de apoio familiar, fazem notar a sua deriva total através de um afastamento a qualquer contacto afectivo. A neta de
Walt Kowalski, de
piercing e a mascar pastilha elástica no funeral da avó, é incapaz de denunciar alguma sensibilidade pelo enterro desta e a sua única preocupação é o carro que poderá herdar. Os filhos e uma das noras do senhor são autênticos abutres insensíveis que não conseguem sequer entender os laços que este nutre pela casa onde vive e pelo carro que preserva há anos. A verdade é que, sendo pai,
Walt Kowalski, é responsável pelas acções dos filhos e dos netos, os quais sempre de alguma forma afastou da sua esfera afectiva. Na casa ao lado, pelo contrário,
Walt Kowalski encontra outra realidade, uma família que ainda preserva a lealdade e o respeito pelas tradições e pela palavra dos mais velhos. Curioso é notar que no filme de
Laurent Cantet,
Entre Les Murs, ou
A Turma (2008), o aluno asiático também parece ser o único miúdo que realmente se esforça por uma boa educação e que considera estranho o comportamento dos colegas.



A perspectiva multicultural apresentada no filme é interessante na medida em que expressa o ponto de vista de um americano de idade que acabou de ficar viúvo, o mesmo acontece aliás em
The Visitor, um indivíduo que cresceu e viveu num bairro suburbano com todo um conjunto de valores que vê agora pilhados, misturados e boicotados, quando o seu poiso de sempre é invadido por imigrantes. Nesta situação,
Walt Kowalski vai progressivamente amolecendo nos seus princípios e deixando que “os outros” lhe vão contaminando o coração envelhecido, duro e de ex-combatente na guerra. O que arrepia ali, afinal, não é a sorte malfadada do idoso mas a deriva dos putos que precisam de homens como ele para os orientarem na vida, a deriva de todas aquelas personagens, numa sociedade cheia de contradições que parece gerar uma total incapacidade para se sair do esquema montado por outros (família, bandidos, políticos, banqueiros, empregadores ou vizinhos…). Neste sentido, penso que o filme de
Sidney Lumet,
Before the devil knows you're dead (2007)
, sobre o planeamento de um assalto à joalharia dos país elaborado por dois filhos para pagar dívidas associadas com um "certo" estilo de vida, é bastante mais subversivo e complexo. Este filme parece ir de encontro a uma lei chinesa que obriga os pais de filhos condenados à morte a pagarem a bala que os matou pois são responsáveis pelas acções destes. Neste contexto, também em
Before the devil knows you're dead, os pais acabam por pagar a má conduta dos filhos mas, o que assusta em ambos os filmes, é perceber que os contornos da jaula são tão nítidos e simultaneamente tão esbatidos e enevoados.
:mrgreen::mrgreen::mrgreen: Olá dr Bakali, pois eu queria gerar, a partir das minhas palavras, um possível início de conversação/mosaico. Gosto cada vez mais desse estilo de diálogo onde afinal vamos em conjunto percebendo melhor as nossas próprias opiniões, através do olhar dos outros sobre as coisas, olhares tanto reafirmadores do nosso ponto de vista quanto em erosão com estes.
Falei no texto de parte das possíveis ligações e também o quanto este filme me gera algumas ideias contraditórias. Eu também me senti bastante comovida no genérico final, aliás aquela música no epílogo ("Gran Torino") arrepia mesmo as entranhas. Mas confesso que não tenho grande dificuldade em verter lágrimas nos filmes... hehehe. Minutos antes tínhamos assistido à cena do isqueiro e ao massacre do velho... uma situação, quanto a mim, algo bizarra apesar de tudo... parece tirada de um western e dado o contexto... a verdade é que o filme tem uma carga emotiva que explora o sentimento de desconforto que sentimos perante a forma como tratamos os velhos e os novos... o desprezo que os ciganos nos têm pela forma como tratamos as crianças e os velhos… os asiáticos devem sentir o mesmo… mas o problema está mesmo na forma como hoje se alimentam diabinhos tirânicos nas sociedades ocidentais ou no facto de o planeta rebentar pelas costuras com tantos humanos a explorar recursos? Ao que tenho lido, aqui e ali, em tempos de crise a natalidade tende a aumentar mas não estamos nós todos saturados do excesso de gente que acaba com a qualidade de vida de todos? Da falta de emprego, da fome, das novas epidemias e alergias, da miséria da maioria da população mundial… há qualquer coisa em “Gran Torino” a chamar-nos para os problemas das nossas sociedades ocidentais, para as suas contradições, mas ao mesmo tempo a desfocar-nos a visão para a imagem geral, para a floresta. Sei lá. E nesse sentido o filme não deixa de veicular uma certa forma um pouco míope de ver a realidade em que vivemos. Mas talvez esteja a ser demasiado dura com o mestre… para mim “Gran Torino” não explora as ambiguidades de “Mystic River” ou mesmo de “Million Dollar Baby”. xxx mouse
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