De Bruno Fonseca a 20 de Julho de 2009 às 16:10
Incluído no convite que a Mouse extendeu aos seus alunos, estive presente na visualização deste filme, que achei particularmente bem construído.
No fundo, Paul Virilio consegue deixar-nos a pensar sobre a velocidade a que vivemos nos dias de hoje, e em alguns dos malefícios que esta nova era tecnológica trouxe para o homem.
No entanto não podemos ignorar que Paul Virilio é um teórico do Caos, como ele próprio admite ao longo do filme, e que por isso mesmo a visão que é transmitida em "Penser la vitesse" é negra e bastante pessimista.
Se nos conseguirmos abstrair desta tendencia mais negativista, rapidamente percebemos que há muito sobre o qual reflectir, e nem tudo é mau.
No fundo é um filme que também recomendo, e que nos faz pensar de outra forma sempre que voltamos a clickar num botão de "Submit Comment" :)
De fosquinhas a 20 de Julho de 2009 às 17:10
O filme termina com uma sequência que evoca o regresso da metafisica, essa "ciência" tão maltratada pelo racionalismo e pela "propaganda do progresso" que marcaram o século XX.
Para Virilio, esse regresso constitui uma boa nova suficiente para apagar o negrume das hipoteses apocalipticas que os arautos da modernidade renegam. Assim, não penso que se trate de uma visão particularmente pessimista mas antes lucida e CURIOSA: que nos reserva o futuro? O apocalipse não é o fim mas a REVELACÃO!
:mrgreen::mrgreen::mrgreen: Olá Bruno, Bem-vindo à mouselândia, espero "ver-te", "ler-te" por cá mais vezes. Olá Foscas, és reincidente mas também bem-vindo, claro.
Penso que a piada do filme é mesmo suscitar tantas dúvidas em relação a um tipo de narrativa enaltecedor quanto a outro algo catastrofista. Acabam por pensar-se os dois pólos como uma dialéctica. Os "luddites" tecnológicos sempre existiram e Virilio surge certamente nessa linhagem, daí que eu tenha gostado bastante de ouvir Joël de Rosnay, de quem tenho um livro que muito apreciei nos anos noventa, "L'homme symbiotique" (Seuil, 1995), na outra extremidade. Joël de Rosnay, phd pelo MIT, e Virilio autodidacta e enfant terrible.
No final do filme, Jean Nouvel refere-se precisamente à piada de Virilio, aquele que cria cenários apocalípticos como exercício de conhecimento. A questão de saber se tem razão ou não é menos interessante do que pensar o "acidente" como oposto à invenção tecnológica (o naufrágio versus a criação do Titanic), pensar nas possibilidades da catástrofe é em si um exercício de especulação e conhecimento. Ora, é o próprio Virilio que, no final do filme, comenta a frase que ouviu sobre o poeta que à beira da morte lhe perguntam o que sente e o qual responde "uma enorme curiosidade". Terei que voltar a ver o filme para citar melhor esta ideia.
Penso que as imagens que comentam a imersão nos jogos digitais ("World of Warcraft") são um bocado superficiais, junta-se "multitasking" com imersão ficcional como conceitos equivalentes, mas enfim... penso que são precisamente os jogos que podem ajudar a combater o "multitasking", ou a dispersão contemporânea, através de estruturas que obriguem a um retorno à linearidade mas no geral o filme dá boas pistas de debate. O fragmento da experiência numérica também se organiza numa coerência linear. xxx mouse
De fosquinhas a 21 de Julho de 2009 às 08:19
O "acidente como oposto à criação tecnologica"? Havera algo mais oposto ao pensamento de Virilio do que esta formula? Para Virilio, o acidente faz parte integrante da "criação tecnologica"... a possibilidade do naufragio do Titanic esta plenamente contida no seu projecto, gosh, evitemos os contrasensos.
A curiosidade de Virilio é uma curiosidade cristã. Um tema que pede alguma cultura. E enquanto celebramos a extraordinaria efeméride da "alunagem", podemos especular que a claustrofobia antropologica a que os espaços e ciberespaços terrestres condenam o desastrologo podera um dia ser resolvida graças ao regresso às estrelas, essa prometida conquista espacial, esperança plena e promessa implicita do apocalipse.
Enquanto isso, neste blog e noutros orgãos de propaganda progressista havera quem se gargarise com conceitos inocuos como design inteligente e veiculos hibridos... um pouco como aquelas pessoas que ao deitarem uma garrafa no vidrão pensam resolver o problema do lixo. Muito bom para a consciência mas servira para curar os problemas dum planeta onde biliões de pessoas não têm acesso à agua por diversas razões, a maioria das quais devidas à "criação tecnologica"?
De Bruno Fonseca a 21 de Julho de 2009 às 11:08
Eu já ando por cá há algum tempo... tenho é estado caladinho que nem um rato (perdoa-me a piada) :smile:
Quanto à inclusão das imagens de World of Warcraft honestamente não as considerei mais que uma mera distracção, até porque o tema não foi devidamente explorado, não obstante da sua relevância.
Talvez numa próxima oportunidade...
:mrgreen::mrgreen::mrgreen: Caro Foscas, desculpa lá a utilização do termo "oposto" ou por "oposição" uma vez que depois está titanic=catástrofe a utilização do "versus" para mim implica muitas vezes as duas faces da mesma moeda mas se calhar eu é que invento significados ocultos em relação às palavras. Sempre tive esse problema. De resto, confesso que não percebi patavina do teu segundo parágrafo. O final do terceiro parágrafo volta a fazer sentido e até concordo com ele inteiramente, talvez por isso mesmo ache interessante o discurso de Virilio.
Bruno, ah já cá andavas pela mouseland. Boa! Também acho que é como se aquelas imagens estivessem ali para mostrar que o realizador conhece o fenómeno, quase um ornamento. xxx mouse
De fosquinhas a 21 de Julho de 2009 às 12:30
Estamos esclarecidos em relação a essa oposição "oposição". Importa esclarecê-lo pois o que caracteriza o discurso de Virilio é precisamente não opor criação e destruição (desastre)... As 2 faces de uma mesma moeda não se opõem, complementam-se!!
Quanto a 2° paragrafo, 2 ideias:
a)o discurso de Virilio so parece negro e pessimista a quem recusa a metafisica. Virilio é um cristão (catolico) timido que sempre recusou o proselitismo, dai a incompreensão que essa vertente do seu pensamento encontra em mentes mais modernaças.
b)Essa "metafisica" encontra ecos na possibilidade de uma existência "post mortem" mas também no sonho da conquista espacial: se a velocidade moderna reforça o sentimento claustrofobico (em espaços reais e virtuais), o regresso às estrelas constituira, para quem acredita, um "post-apocalipse", um renascimento, uma ressurreição...
Recomendam-se entusiasticamente:
- In The Shadow Of The Moon, documentario BBC (http://www.intheshadowofthemoon.com/)
- entrevista de Paul Virilio (http://www.lemonde.fr/mde/ete2001/virilio.html)
De fosquinhas a 21 de Julho de 2009 às 12:35
PS: Meu nome é Livio Fosquinhas, não percebo porque me chama Foscas. Se pretende fazer trocadilho com minhas ideias pretensamente "Toscas", fique sossegada não temo vexame.
:mrgreen::mrgreen::mrgreen: Caro Livio, recordo-lhe, pois parece distraído, que já li alguns livros de Paul Virilio e que sei algumas coisas sobre o pensamento expresso nesses textos, recomendo-lhe mesmo o livro "Ce qui Arrive", catálogo da exposição comissariada pelo autor na Foundation Cartier onde a questão do acidente surge bem explicitada e que tive o prazer de ver algures no início desta década e, posteriormente, também tive o deleite de ler o livro recheado do mais charmoso grafismo.
Penso que a crítica que o físico, de quem não me recordo o nome, faz no filme às metáforas que, por vezes, Virilio usa, neste caso sobre a aceleração do tempo, também é bem pertinente e, aliás, por parte dos físicos o autor tem recebido inúmeras críticas o que também não me parece de descartar.
O que achei interessante no filme foi precisamente a maneira como mostra a urgência de um pensamento interdisciplinar, a única forma de não nos tornarmos até ridículos, pois o que para uns pode ser dogma para outros pode ser matéria de debate. Essa é talvez a maior virtude deste filme. Quanto a Virilio, acho-lhe bastante piada mas acho que também cai no risco das generalizações desmedidas, já apreciei mais as suas figuras de estilo, devo confessar, hoje prefiro de longe um certo concretismo e fujo de discursos inflamados sobre os efeitos da tecnologia que têm, sempre, de facto, dois lados complementares, isto é, sim, millhões de pessoas não têm acesso à água devido à revolução tecnológica mas a revolução tecnológica também é talvez a única hipótese dessas pessoas sairem do limiar da pobreza. Ora, a narrativa sobre as novas tecnologias mergulha-nos sempre nesta dialéctica e por isso mesmo prefiro tentar compreender os fenómenos que existem em vez dos potenciais efeitos devastadores inerentes ou não à sua criação. Sinceramente acho o pensamento de Virilio algo envelhecido mas, claro, essa é a minha opinião. xxx mouse
De fosquinhas a 21 de Julho de 2009 às 17:15
desculpe mas de facto por ser tão distraido não guardo registo de suas leituras, até as minhas por vezes tenho dificuldade em recordar.
uma coisa é você não concordar com Paul Virilio, outra é deturpar aquilo que o Sr. diz: a que "discursos inflamados" se refere?
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