Sexta-feira, 22 de Janeiro de 2010
“HUNGER”, VISCERAL E ESCATOLÓGICO

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O início de Hunger de Steve McQueen, 2008, é totalmente inquietante. Da minha parte não deixei de ver o filme, logo nas primeiras cenas por um triz, mas a verdade é que a experiência, que no início é abjecta e sugere alguns vómitos, se revela difícil de esquecer no final. Dos vermes à luta política passando por um diálogo bastante curioso entre prisioneiro e padre. Penso que esta obra nos seus pormenores escatológicos e viscerais só podia sair das mãos de um artista plástico. Recordou-me as instalações e o cinema de Peter Greenway, outro realizador que, à semelhança de Steve McQueen, afirma o seu apreço pela Nouvelle Vague. Há em Hunger uma enorme plasticidade. Uma plasticidade visível em cada pústula da pele do condenado suicida, em cada reentrância da parede pintada com fezes, na pena leve, agora pesada, em contraste com o corpo do prisioneiro que vai desaparecendo devido à greve da fome. O filme passa-se numa prisão na Irlanda do norte, onde vários prisioneiros do IRA reivindicam estatuto político, e conta o triste destino de Robert Gerard Sands (Bobby Sands) que morreu com vinte e sete anos depois de sessenta e seis dias em greve da fome. Os dias na prisão são recheados por uma luta constante com os agentes policiais e a guerra dos prisioneiros vai-se revelando através do aspecto imundo das celas, da morte de alguns polícias no exterior da prisão e, nas cenas mais nojentas, pelo mijo jorrado pelos corredores e pelas mantas, a servir de roupas, cheias de vermes. Os presos são cabeludos e usam os seus dejectos para lutar contra a autoridade que lhes não reconhece o estatuto político. Os polícias estão asseados, atiram detergente aos corredores imundos da prisão e limpam à mangueirada o ambiente, quando não batem nos prisioneiros à matraca. Cada grupo joga o seu papel. Vários dias depois ainda sinto a espinha arrepiada ao ver as imagens do filme.
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10 comentários:
De rafgouv a 22 de Janeiro de 2010 às 16:41
desculpe mas o que é que é "escatologico"? a luta politica ("greve da higiene")? o filme? a "plasticidade" (como lhe chamas) do artista-realizador?
Tratando-se de um filme historico (baseado na figura cristica de Bobby Sands e com uma reconstituição extremamente cuidada), parece-me um pouco estranho que afirmes que os seus "pormenores escatologicos" so podiam sair da mente de um artista plastico...

Concordo no entanto parcialmente com a aproximação a Greenaway (embora este apenas em rarissimos momentos alcance a inspiração e a graça que o filme de McQueen também muito deve a Michael Fassbender): para ambos a politica e a religião revelam-se formas de expressão estética e nesse sentido diria mesmo que The Hunger visa a ultrapassagem ascética dessa escatologia que tanto te impressionou e enojou (?). E um filme sobre um heroi catolico, feito por um realizador visivelmente fascinado pelo catolicismo, um filme carnal e mistico que nada tem de "visceral" (simplesmente porque Bobby acaba por libertar-se desse corpo eventualmente nojento).


De mouseland a 22 de Janeiro de 2010 às 17:58
:mrgreen::mrgreen::mrgreen: blah blah... deixo aqui umas palavrinhas de Martha Gever, sobre a obra de Steve McQueen, no catálogo de uma exposição que vi algures nos anos noventa na Galeria Hayward em Londres chamada "Spellbound, Art and Film": "(...) see what happens when a few actors performing simple actions are filmed in indeterminate locations using all kinds of improbable angles, unorthodox framing, an unruly editing style and lots of close ups; and see what happens when these fragmentary gestures are assembled to produce what I can best describe as illusionist spectacles that are both intimate and larger than life." (Gever, 1996: 99) Na mesma exposição estava uma magnifica instalação de Peter Greenaway.

Penso que as palavras de McQueen, em entrevista no DVD do filme, desmistificam bem essas ideias de "filme histórico" e "reconstituição bastante cuidada". O artista-se furta-se sempre precisamente a fugir do efeito ilusionístico, ou seja, a escatologia reside precisamente na forma como se encena a partir das vísceras (em Greenway) ou da merda (em McQueen). O que se pretende não é retratar a realidade mas antes encená-la. O segundo parágrafo não comento porque me parece um cliché: a política e a religião sempre foram formas de expressão estética... dah? :mrgreen::mrgreen::mrgreen:


De Donkey queen a 23 de Janeiro de 2010 às 02:22
Hii ho hii ho


De mouseland a 24 de Janeiro de 2010 às 18:31
:mrgreen::mrgreen::mrgreen: xxx mouse


De rafgouv a 26 de Janeiro de 2010 às 17:10
"Breaking the Waves" faz referência a Dreyer, ok, mas não é por isso que me parece relevante para "The Hunger" que é um filme muito menos perverso do que a obra do Von Trier... mas esse é ainda outro tema.
A associação que faço entre este e a Joana d'Arc tem mais que ver com a própria estrutura do filme: solidão de uma personagem e suas convicções, confronto com a hierarquia político-eclesiástica, morte redemptoria...

desculpa ter trocado os "b" pelos "v", perdão os "6" pelos "9" nas datas de 96 e 99, obrigado pela correcção.


De mouseland a 26 de Janeiro de 2010 às 17:32
:mrgreen::mrgreen::mrgreen: A parte mais cómica foi mesmo a da edição do DVD, realmente devemos ter visto cópias distintas da entrevista com o realizador/artista :razz::smile::grin::mrgreen:. xxx mouse


De rafgouv a 26 de Janeiro de 2010 às 16:41
Cara mouse,

As palavras de Martha Gever em 1999 (!!!) que citas são particularmente inadaptadas ao filme que nos interessa. Neste caso, não se trata, insisto, de acções nem de locais nem de personagens “indeterminados”… e ainda menos de “unorthodox framing”, “improbable angles”, sem falar do “ilusionismo” referido e que me parece totalmente nos antípodas de "The Hunger"…

Não contesto de todo a visceralidade de algum Greenaway (ZOO, por exemplo) e não contesto também a escatologia de "The Hunger" embora não a identifique com o realizador nem com o seu projecto estético mas muito simplesmente com a temática, a tal “guerra da higiene" (se podemos dizer que um filme é escatológico porque nele vemos muitos excrementos, então basta contar com a presença do Colin Farrell para se transformar instantaneamente em masterpiece!!). Resumindo, o que tentei contestar foi a relevância da acumulação dessas duas "qualidades" (escatologia e visceralidade) no trabalho de McQueen.

Quanto às tais reservas relativas ao cuidado da reconstituição histórica: não sei quais são os teus padrões mas um filme cujos actores/actores/locais se mostraram intimidados ao descobrir o décor da prisão de Maze, um filme onde os mesmos actores cascaram e sofreram algumas das agressões encenadas na mesma prisão, um filme cujo protagonista emagrece visivelmente algumas largas centenas de gramas... é para mim o protótipo da reconstituição histórica cuidada e neste caso conseguida. Alias, S. McQueen diz isso mesmo na entrevista que vi (não é de certezinha absoluta a mesma que viste no teu DVD). Que a tal reconstituição não seja uma reconstituição "académica" é outra coisa...

Por fim: a política e a religião sempre foram formas de expressão estética?? Podias dizer o mesmo de uma folha de papel ou de seja o que fôr, né???

Não teria sido mais interessante rever e evocar "A Paixão de Joana d'Arc" de Dreyer, a propósito deste filme? Ou será um daqueles clichés tão indigestos (citado regularmente como uma das datas importantes da história do cinema) que mais vale ir desenterrar os catálogos das exposições de mil novecentos e troca o passo mesmo que sirvam essencialmente para desconversar?


De mouseland a 26 de Janeiro de 2010 às 16:56
:mrgreen::mrgreen::mrgreen: Nota sobre a atenção ao texto por parte do leitor: o texto citado aparece referenciado como sendo de 1996 e a página é que é 99. Penso que esta questão informa todas as outras. Também queres que cite o "Breaking the Waves" que cita a Joana d'Arc do Dreyer, cujo filme analisei através de uma série de pinturas de 1995/96. Em termos de numerologia esta troca de impressões está impressionante. Confesso que nãp percebi nem a deixa do Colin Farrel nem a da folha de papel. :mrgreen::mrgreen::mrgreen: xxx mouse


De rafgouv a 26 de Janeiro de 2010 às 17:41
Acho que já ouvi falar nessa entrevista em que ele aparece cheio de pó de arroz e com uma peruca a dizer que o filme foi inspirado pela pintura barroca, pelo Barry Lyndon e pelo cinzeiro (escatológico) do Damien Hirst e que os produtores o obrigaram na montagem final a acrescentar as referências à Thatcher, a mencionar que a acção se passa na Irlanda do Norte em 1981 para que os espectadores conseguissem imaginar que estavam a pescar alguma coisa.

A que eu vi foi rodada durante o Carnaval de Veneza e tem um entrevistador tão bom mas tão bom, tão concentrado, elegante e brilhante que se calhar dei mais atenção aos seus comentarios idóneos do que ao próprio discurso do realizador.


De mouseland a 27 de Janeiro de 2010 às 00:37
:mrgreen::mrgreen::mrgreen: Hello, ah! Está tudo esclarecido. Vimos entrevistas diferentes pois na que eu tive oportunidade de ver o entrevistador é tão tontinho que até fazia impressão e o S.M. estava vestido à "betinho". Tudo esclarecido! Barry Lyndon não me tinha ocorrido mas prometo pensar no assunto, let's say, for the "next couple of years or something". :razz::lol::smile::mrgreen: xxx mouse


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