Domingo, 28 de Fevereiro de 2010
ATELIER DE ARTES DIGITAIS_FCSH_UNL_09/10_SOB O SIGNO DA CONSISTÊNCIA
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Este mês ficou concluída a quarta edição do Atelier de Artes Digitais da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa que estive a leccionar no primeiro semestre. Foram avaliados dezoito alunos e ainda tivemos o prazer de receber uma aluna “infiltrada”, do ano anterior, a quem não foi atribuída nota final. Os ateliers de 2008 e 2007 estão aqui e aqui descritos. Este ano recebemos a visita de António Saraiva, aka Dr Bakali, que expôs algumas das suas ideias sobre artes digitais, viu e comentou os trabalhos em desenvolvimento dos alunos. A impressão global em relação aos projectos apresentados nesta visita foi, segundo afirmou, muito positiva. No total foram concebidas e produzidas quatro obras distintas que passo de seguida a apresentar.

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O projecto [Re] make it propõe “a transformação de conteúdos digitais inócuos ou excedentários como forma de produzir trabalhos artísticos”. Neste sentido, “a facilidade de manuseamento das ferramentas no contexto digital, devido à redefinição dos conceitos de “tempo” e “espaço”, promove a criação, difusão e circulação de conteúdos diversos, nomeadamente através de redes de contactos de e-mails, alimentando uma partilha, muitas vezes, pouco ponderada e acrítica em relação ao valor real desses mesmos conteúdos. Ou então, de modo propositado, com intenções desconhecidas. Desta forma, todos os dias, a cada hora e a cada minuto, caixas de correio electrónico por todo o mundo são inundadas com spam e Fwr. As nossas caixas. Tal, nem sequer é comparável à publicidade massiva de empresas que surge em nossas casas; pensemos antes no caos que seria termos centenas de papéis e afins colocados na nossa caixa de correio! Este ponto de reflexão é essencial para o nosso trabalho: se cuidamos – reciclando, reutilizando, recuperando – do nosso lixo físico, porque não o fazemos virtualmente, possibilitando ainda que os utilizadores desenvolvam acções criativas? Desta forma, é igualmente importante adequar os conselhos reguladores já existentes no mundo real à praxis do comum dos utilizadores, reforçando questões como a responsabilidade social entre as comunidades virtuais. A designação e identidade encontradas para o projecto encerra em si mesma a necessidade de refazer e criar esses conteúdos, para o bem comum: [re]make it.” (texto do dossier de projecto dos alunos). A intenção é construir uma ferramenta de software que seja capaz de facultar aos participantes um espaço de experimentação artística e assim contribuir para uma reflexão sobre o problema do “lixo” virtual que, à semelhança do real, requer que tenhamos práticas mais sustentáveis. Um projecto que incorpora bastante bem uma reflexão sobre a reutilização do material digital e que vem certamente no seguimento de uma linha de trabalhos na área da reutilização de imagens, textos, sons e vídeos, provenientes das redes globais como bases de trabalho experimental. Potatoland, Google Black, Mapping Transitions, e todo um conjunto de software criado na área do mapeamento digital, foram boas inspirações. Com o slogan: “(re)make it useful > (re)make it art > (re)make it better” o projecto sugere: “Palavras que darão o mote diário de inspiração para a criação, que terá como maior arte, a questão ecológica e ambiental que envolve.” (ibid.). Uma criação conjunta de António Luís Cardoso (História de Arte / Design Gráfico), Maria João Amaro (Arte e Multimédia), David Monteiro (Ciências da Comunicação), Rui Coelho (Engenharia Electrotécnica e Computadores) e Maria Caridade (Cinema e TV).

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A instalação interactiva 6 Memos pode ser aqui consultada nas suas diversas vertentes (conceito, simulação e vídeos) e é uma enigmática estrutura em seis momentos que parte da obra de Ítalo Calvino, Seis Proposta para o Próximo Milénio. Já na quarta edição deste atelier (seminário de mestrado) posso dizer que é até hoje a peça que faz melhor eco do próprio seminário pois a obra de Calvino organiza os vários exercícios a efectuar durante o semestre. Através deste espaço interactivo chama-se a atenção para a forma como os conceitos do autor podem servir de inspiração criativa na era digital. Estou absolutamente convicta que é uma obra que ilustra muito bem os desafios da cultura neste milénio e que incorpora as intricadas relações existentes entre media analógicos e digitais. O projecto 6 Memos é enigmátivo e esperem até experimentar a instalação pois o protótipo em flash já é algo aditivo. Os vídeos, o som, a interacção e a construção do conceito global, o qual é bastante inclusivo, ao ponto de se perceber que podemos estar simultaneamente perante uma obra para museu ou galeria ou para publicidade em espaços públicos. Tudo isto culmina numa instalação que está estruturada da seguinte forma: “numa sala hexagonal escurecida, o participante encontra um feixe luminoso vertical que corresponde a um sensor de movimento. Ao interferir com esse dispositivo, toma o primeiro contacto com todas as componentes de que dispõe para constituir a sua experiência. Activa então, em simultâneo, um ambiente sonoro total e descobre que em torno de todo o perímetro da sala estão distribuídos por cada parede um conjunto de três ecrãs plasma. Em cada parede decorre uma projecção de vídeo ladeada por dois ecrãs que apresentam componentes textuais estáticas.” (texto presente no site do projecto aqui). Uma criação e produção da equipa constituída por Catarina Conceição (História de Arte), Laura Cortes (Design de Comunicação), Tiago Reis (Engenharia Mecânica), Hugo Castanho (Ciências da Comunicação) e Sandra Veiga (Som e Imagem).

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Ressonâncias Urbanas, Narrativas Interactivas propõe um espaço performativo que consiste numa viagem sonora por um bairro sobejamente conhecido lisboeta, a saber, a Bica. No blogue do projecto podemos ler: “Conhece Lisboa como a palma da mão? Sim? E se não estiver a ver nada? Vai saber onde está? Imagine que entra numa sala às escuras e lhe dizem que o que está a ouvir são os sons da Bica… vai saber em que sítio da rua está, em que loja? Não? Só lá vai à noite e a única coisa que ouve é o glugluglu dos copos e afins? Aqui o que se ouve são os sons de quem habita a Bica todos os dias e todos querem falar consigo... Responda-lhes, caminhe ao sabor dos sons e desfrute da brincadeira que construímos para si. Não só se vai divertir como vai ver que fica com vontade de “voltar” à Bica e entrar em sítios que antes não sabia que estavam lá.” (ler mais aqui). Esta instalação/jogo tem um argumento complexo onde deparamos com personagens com as quais interagimos através de gestos. As interacções processam-se com a palma da mão e o “sim” e o “não” que temos que aprender a manipular revelam um livro de regras divertido e que apela a uma viagem sensorial onde o som dirige o percurso a efectuar. Neste contexto, “O projecto “Ressonâncias Urbanas” aposta na criação de narrativas sonoras interactivas, apresentadas sobre a forma de instalação, na qual o utilizador é um participante activo através dos seus movimentos. Assim, apresentamos um jogo, baseado em sons originários numa zona da cidade de Lisboa, mais precisamente em alguns espaços da Bica, criando um retrato sonoro, capaz de interagir com o utilizador.” (saber mais aqui) Este projecto tem criação e produção de Matilde Parreira (Ciências da Comunicação), Nuno Monteiro (Som e Imagem), Fernando Silva (Com. Social, Publicidade e Propaganda), Cristina Benedita (Dança) e Rita Barracha (Arte e Multimédia). Espera-se, com ansiedade, para ver a proposta a funcionar um dia deste algures em Lisboa.

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Finalmente, o projecto 1170-165 Largo da Graça, Lx, já aqui apresentado, sugere uma deriva que apela às experiências situacionistas da psicogeografica e às deambulações urbanas presentes, por exemplo, em festivais recentes como o Conflux de Nova Iorque. A ideia é recolher informações e contribuições na tentativa de criar um espaço de diálogo simultaneamente on-line e off-line que represente um pouco a atmosfera do bairro e dos seus habitantes. Este espaço, “pretende reunir memórias, experiências, vivências, opiniões e modos de apropriação do Largo da Graça, em Lisboa, de forma a criar uma comunidade virtual que reúna habitantes, visitantes ocasionais e regulares, etc.”. A equipa do projecto teve a preocupação de estender o conceito a diferentes plataformas, a saber, 3D no Google Earth, redes sociais como o Facebook, o Flickr, o Youtube e o Twitter. Com alguns vídeos já publicados on-line é possível ouvir e sentir as sensações e “texturas” do bairro. Uma criação e produção de Marta Rêgo (Audiovisual e Multimédia), Cláudia Teixeira (Fotografia), Pedro Fortunato (Cinema e TV) e António Freire (Design). 

O atelier deste ano foi para mim muito gratificante pois senti da parte dos alunos um entusiasmo e energia que me deixou com a sensação que a experiência valeu a pena para todos. Há trabalhos que merecem ser expostos, nomeadamente as duas instalações interactivas, e outros que merecem continuidade, i. e., o exemplo da plataforma software art e a exploração à volta do bairro da Graça. Foi com satisfação que me fui apercebendo que há essa vontade por parte dos alunos. Assim, fico a aguardar com expectativa que possamos superar o ambiente concreto do seminário numa ou outra inauguração ou obra. Boa sorte para todos! Foi um prazer. Deixo as minhas sinceras felicitações aos alunos pelos quatro projectos criados e produzidos no âmbito deste atelier que são, quanto a mim, excelentes exemplos de dedicação, criatividade e energia e que resultaram em criações muito consistentes e ricas de diversos pontos de vista. Conseguiu-se como nunca mostrar como a interdisciplinaridade resulta em obras cada vez mais complexas e interessantes.




2 comentários:
De andrade a 5 de Março de 2010 às 17:14
Projectos interessantes. Vai haver alguma exposição? a.


De mouseland a 6 de Março de 2010 às 13:42
:mrgreen::mrgreen::mrgreen: Obrigado Andrade. Se surgir alguma apresentação aviso aqui. xxx mouse


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