Terça-feira, 14 de Setembro de 2010
A POESIA MÍSTICA DE DUBLIN _ ENTRE UMA GUINNESS E UM GUISADO
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Chegámos a Dublin a meio do dia e depois de feito o check in no hotel escolhido no booking, perto da Heuston Station, decidimos logo deambular a pé pelas ruas da cidade. Como já vem sendo hábito nas nossas viagens reservamos, quando chegamos e quando partimos, três noites na capital do país que escolhemos calcorrear nesse ano. Fazemos isto nos três primeiros e últimos dias para assim ficarmos em duas zonas distintas da cidade escolhida. Reservadas só levamos estas seis noites, o resto é aventura. 

No primeiro dia fomos direitos a Temple Bar e visitámos o centro de fotografia (National Photographic Archive da National Library of Ireland) que tinha patente uma exposição de imagens históricas de costumes e tradições irlandesas. Percorremos a pé as ruas do centro e satisfeitos deparamos com um restaurante Wagamama, o que nos assegurou imediatamente que à falta de melhor iríamos, sem dúvida, sentir o efeito positive eating + positive living neste refúgio londrino. Nessa noite, e porque a jornada tinha sido pesada, acabámos num pub a beber Guinness e, no meu caso, a comer um delicioso lamb stew. O P. comeu um bife com molho de Guinness com bastante bom aspecto. À nossa volta eram só hamburgers, fish 'n' chips, e afins. No final, acabámos por não resistir a um prato de french fries, com casca e maionese, para acompanhar mais uma deliciosa Guinness. Ainda não conhecíamos a ementa local, muito monótona e sensaborona, e naquele dia o repasto foi delicioso.

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No dia seguinte fomos conhecer o Phoenix Park, muito perto do nosso hotel, interessante mas nada de especial, e passámos pelo Zoo mas não entrámos. Como estava um dia radioso optámos por ir passear pelo centro e à noite lá fomos visitar o Wagamama, hum… delicioso. A chuva apareceu na manhã subsequente e por isso mesmo fizemos um programa museológico e lúdico. Depois de uma ida ao bastante surpreendente Irish Museum of Modern Art, um antigo hospital convertido em "centro artístico" (farei um post dedicado ao mesmo em breve) fomos direitos à fábrica da cerveja Guinness. Na Guinness Storehouse, um edifício em forma de pint, tivemos o prazer de nos deleitar, por etapas, com um “workshop” completo sobre o fabrico, a preparação, a forma correcta de servir, as várias campanhas publicitárias e ainda algumas provas desta surpreendente marca irlandesa criada, em 1759, por Arthur Guinness. Fiquei a saber que o livro de records, o Guinness Book, está associado desde sempre à cerveja e que apareceu para despoletar nos barmans temas de conversação com os clientes, os quais se resumiam, muitas vezes, às corridas de pássaros. Com uma vista deslumbrante, no último andar, servem-nos com mestria uma pint e podemos ouvir música e apreciar Dublin de lés-a-lés. Vale a pena a visita nem que seja para conhecer os seis passos necessários para servir uma cerveja Guinness em condições e pode-se mesmo ensaiar a experiência.

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Ora, o carro alugado esperava por nós no dia seguinte e só voltámos a Dublin dez dias depois, muito mais instruídos na cultura irlandesa, claro. Quando voltámos ficámos numa outra zona da cidade mas ainda fomos de Luas, o transporte local do género metro de superfície, à zona “Museum” para ver a exposição permanente das obras da designer/arquitecta autodidacta irlandesa Eileen Gray, patente no National Museum of Ireland. Desta vez ficámos na elegante área do Herbert Park, perto das embaixadas, não muito longe da zona renovada da cidade, um espelho do boom dos anos noventa e princípio desta década. Os edifícios novos estão muito bem integrados na cidade e respira-se, aqui, um ambiente mais leve e descontraído que nem a crise actual parece tocar. Apartamentos de vidro de varandas generosas, cafés e supermercados elegantes, água, bicicletas, muitos sítios para se fazerem piqueniques espontâneos e para se apanhar sol. Nestes últimos dias o tempo esteve sempre tão bom que os irlandeses pareciam incrédulos. Nós de casacões de inverno e eles “descascados” de t-shirts de alças e calções. Dezassete, dezoito graus, no máximo.

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A cidade de Dublin e os dubs reflectem bem, mais do que qualquer outro sítio onde estivemos no campo, os problemas de consumo desenfreado que colocam a Irlanda ao nosso lado nos países em estado crítico, nos PIIGS. Por todo o lado carros de luxo, construção, antes desenfreada, que agora é votada ao abandono, lojas de toda a espécie e muitas de luxo, consumo e mais consumo... e um tecido empresarial que apostou mais nos serviços e muito pouco em bens transaccionáveis como, por exemplo, na agricultura. Com tantas vacas, ovelhas, patos, prados verdes... Depois da Grande Fome da Batata, com os senhorios a exigir aos agricultores rendas que não podiam pagar, depois de um surto de fungos nas plantações de tubérculos, é surpreende este estado actual. E as french fries em todo e qualquer prato, com a lasanha, com a pasta, ao jantar e ao pequeno-almoço. Com uma língua franca seria talvez de esperar, neste momento, prosperidade e abastança... Com investimentos tão díspares dos nossos, as estradas e a sinalização são do tempo dos nossos avós, é curioso como se assemelham connosco em algumas coisas, essencialmente nos serviços, onde não é raro borrifarem-se completamente para o cliente e começarem a falar uns com os outros. Por duas vezes, em dois hotéis distintos, o alarme de incêndio tocou e o pedido de desculpa pelo susto causado aos clientes nunca chegou... De resto, são mais simpáticos do que nós portugueses quando ligam “à terra” para continuar o atendimento em curso.

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Os irlandeses são, regra geral, pequenos. Efeitos do isolamento na ilha ou da fome? São hoje, tal como nós, um reflexo evidente de uma pobreza congénita profunda, um país remediado. Depois há os escritores, tantos e tão bons. Por todo o lado encontramos inscrições e frases-soltas, máximas, na pedra, nos vidros, nos pubs e restaurantes, entre o guisado e a cerveja. A luz, as paisagens, a música, e a mística de todo o país, pressentem-se em Dublin, ao lusco-fusco, quando se observam os cisnes a nadar nas águas poluídas ou se ouvem as pequenas gaivotas. Visitámos o Book of Kells, no Trinity College Library Dublin, uma desilusão! Não tanto pelo livro ou pela biblioteca mas pela exposição, pelas hordas de turistas e pela roubalheira de 9 euros para ver aquela palhaçada. A culpa foi minha que insisti quando já se vislumbrava uma coisa destas mas até valeu a pena descodificar algumas coisas sobre tipografia e simbologia usadas no livro. Dublin, nesta fase, era muito mais rica depois de mil e setecentos quilómetros percorridos de carro pela Irlanda. No Trinity College vimos ainda a exposição Bio-Rhythm, Music and the Body na Science Gallery aqui referida e na National Gallery of Ireland apreciámos uma colecção bastante digna de arte irlandesa e europeia. Com obras de Fra Angelico, Caravaggio, Vermeer, Pousin, Goya, Picasso e muitos outros. Em Dublin lembrei-me de imensos lugares, da América ao Canadá, passando pela Turquia, senti um impulso nostálgico, uma poesia mística despoletada pela oscilação das nuvens, pela chuva e pelo sol, pela Guinness e pelos guisados de cordeiro.

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