Sábado, 19 de Agosto de 2006
EMOÇÃO ART.FICIAL 3.0 NO ITAÚ CULTURAL
emocaoartificial3.jpg

Está neste momento no Instituto Itaú cultural em São Paulo patente ao público uma exposição de “interfaces cibernéticas” chamada “emoção art.ficial 3.0”. A exposição faz parte da bienal internacional de arte e tecnologia do Instituto e associa as palavras “interface” e “cibernética” de forma a sintetizar um conceito mais vasto de interactividade. Segundo a brochura de divulgação estão em exposição “obras clássicas e contemporâneas representativas da arte tecnológica [que] compõem um bloco consistente, didáctico e repleto de territórios a serem explorados pelo público. Todos os trabalhos encarnam conceitos caros à cibernética, como realimentação, comunicação, causalidade, informação, observação, previsibilidade e equilíbrio.” 

Já em 2004 tive oportunidade de apreciar a segunda edição da bienal, “emoção art.ficial 2.0” comissariada por Arlindo Machado e Gilbertto Prado e fiquei bastante bem impressionada. Nesse ano a exposição apresentava 30 obras, sobre o tema Divergências Tecnológicas, “que questionam o uso político da tecnologia, sua crescente presença na vida quotidiana e impacto na sociedade, principalmente em países marcados por diferenças sociais”. De acordo com o site do instituto o tema da bienal de 2004 foi “sugerido pelo consultor do evento, o crítico e artista australiano Jeffrey Shaw”, e pretendia ir contra o discurso artístico hegemónico. A exposição tinha um número assinalável de obras brasileiras (Diana Domingues, Giselle Beiguelman, Eduardo Kac, entre outros) mas também apresentava instalações vídeo de Antonio Muntadas, Coco Fusco, Christa Sommerer e Laurent Mignonneau, etc. Esta exposição teve sobre mim um efeito bastante evidente da capacidade deste país construir discursos e críticas bastante inovadoras no âmbito das artes tecnologias. À semelhança do festival FILE, que pude apreciar no ano seguinte, as obras de “emoção art.ficial 2.0” mostravam, pela sua multiplicidade de formas e suportes, a evidência das artes digitais, tecnológicas, o que preferirem, como um dos territórios mais interessantes de produção no âmbito das artes contemporâneas. 

Este ano a “emoção art.ficial 3.0” encantou-me. Não que as obras sejam todas surpreendentes, mas há dois exemplares absolutamente mágicos: Les Plissenlits (2006) de Edmond Couchot e Michel Bret e Life Writer (2005) de Christa Sommerer e Laurent Mignonneau. Na primeira obra, através de um simples sopro produzimos, nas três projecções digitais imersivas da instalação, movimentos e conjunturas díspares: “a força e a duração do sopro do espectador determinam os movimentos das sementes de dentes-de-leão virtuais, que realizam trajectórias complexas e diferentes.” Na segunda obra, uma instalação com dois candeeiros retro, uma mesa com um máquina de escrever antiga e uma cadeia, a nossa escrita, dactilografada na máquina antiga, forma inúmeras criaturas que surgem na folha de papel. Estas criaturas são baseadas num algoritmo genético que determina o comportamento e o movimento na folha de papel à nossa frente. Conforme manipulamos a máquina de escrever surgem mais ou menos animaizinhos. Ambas as peças são absolutamente mágicas pela sua simplicidade e engenho. 

Depois há outras instalações interessantes: Text Rain (1999), de Camille Utterback e Romy Achituv, que apenas não teve tão grande impacto sobre mim porque já conhecia a obra que é imensamente documentada em livros; Messa di Voce (2003), de Golden Levin e Zachary Lieberman, um dispositivo visual em que os dois sujeitos da interacção são confrontados com dois microfones e através da voz despoletam combinações visuais várias no ecrã tendo a possibilidade de escolher o padrão a usar na sua performance; o Dog[LAB]01 (2004), de France Cadet, onde seis cães-robots autónomos, híbridos de diferentes espécies alteradas no comportamento e na forma, estão expostos em vitrinas e formam um universo próprio de manipulação genética assistida. Nas paredes do espaço da instalação surgem os códigos genéticos (ADN) dos robots e a explicitação da sua linhagem ajuda a contextualizar o ambiente concebido ao estilo design/cartoon. Só lamento que o Itaú não tenha convidado os robots pintores para estarem presentes, hehehehe (se calhar convidou e eu não sei).


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