Sexta-feira, 25 de Agosto de 2006
“INTERLUDE” OU A MATÉRIA DOS SONHOS
tabaco1.jpg

Porque se tem por aqui falado muito sobre cinema, sobre intersecções entre cinema e outros media como os jogos electrónicos e as artes contemporâneas, decidi hoje publicar este post (bastante polémico ou politicamente incorrecto, parece-me) sobre o filme Obrigado Por Fumar que acabou de estrear em São Paulo. A forma como actualmente se pretendem criar antros específicos para fumadores, lugares de quarentena típicos de doentes em fase de contágio, parece-me no mínimo de uma hipocrisia assustadora. O filme de Jason Reitman é baseado no romance de 1994 de Christopher Buckley e conta a história de um porta-voz das tabaqueiras, Nick Naylor (Aaron Eckhart), que ganha a vida a defender os fumadores. A perseguição ao consumo de tabaco é encabeçada por um senador oportunista, senador Ortolan K. Finistirre (William H. Macy), que pretende colocar insígnias mortíferas nos maços de tabaco mas que, por outro lado, nada tem a dizer sobre os elevados índices de mortes devido ao colesterol alto pois é senador numa das áreas mais proeminentes de produção de queijo. O filme não toma partidos mas desmonta o discurso e ridiculariza todas as partes numa tentativa de acabar com algumas opiniões puritanas e moralistas em relação ao assunto do consumo de tabaco. Uma das poucas curiosidades que avanço sobre a história é que envolve o Marlboro Man que está enfermo com cancro e que portanto é necessário subornar para ficar de boca calada. Ficamos a saber que ele nem sequer fumava Marlboro. A história desenrola-se de forma cómica mas o assunto levanta questões complicadas de engolir na sociedade actual.


"Mas o livro não faz a apologia do fumo, não defende direitos humanos, não é panfletário. Coloca-se antes num outro plano bastante mais radical e subversivo. O da vida e dos prazeres experimentados. O das cumplicidades, em particular com essa vastíssima multidão de fumadores célebres que, de forma tão marcante e estética, contribuíram para criar a própria imagem da cultura urbana ocidental." Leonel Moura sobre A Matéria de que São Feitos os Sonhos.

Henrique Garcia Pereira escreveu uma obra emblemática sobre a perseguição aos fumadores na sociedade actual. O livro, A Matéria de que São Feitos os Sonhos, bem mostra a atitude hipócrita dos responsáveis pela imposição de leis caricatas que pretendem ampliar a questão do tabaco da mesma forma que pela calada ignoram outros problemas (a obesidade, por exemplo). As tentativas de purificação do cinema de Hollywood, por movimentos e associações de protectores dos direitos dos não fumadores, que pretendem eliminar os cigarros de estrelas emblemáticas como Humphrey Bogart ou Lauren Bacall são no mínimo idiotas. Mas esta perseguição não se fica só por este tipo de medidas show off consegue fazer passar leis na comunidade europeia que permitem que as empresas se recusem a contratar fumadores numa descriminação sem precedentes. Consegue transformar países como Espanha, Irlanda, etc., em países de não fumadores, remetendo os fumadores a lugares e casulos imundos (até há bem pouco tempo no aeroporto Charles de Gaule em Paris, antes de se acabar definitivamente com a possibilidade de fumar neste aeroporto, existia uma sala nojenta de dois metros quadrados para fumadores empestada de fumo…).

Sou uma fumadora que em média fuma dois, três cigarros por dia, adora andar a pé e é constantemente obrigada a respirar o tubo de escape dos inúmeros veículos que todos os dias assolam os centros das grandes cidades (Lisboa, Paris ou São Paulo). Porque serei eu obrigada a respirar os gases do ar condicionado ou dos tubos de escape dos carros dos outros? Em São Paulo as pessoas parecem ter uma fobia dos fumadores mas não se mostram muito incomodadas com a nuvem de poluição que todos os dias observo da minha janela… Porque não manter a separação dos restaurantes entre áreas para fumadores e não fumadores e se acaba de vez com a possibilidade de fumar em espaços públicos? Porque tenho eu que conviver com as fabulosas montras de queijos nos supermercados quando o queijo me aumenta o colesterol já elevado? Porque não fazem campanhas sobre os malefícios do chocolate e colocam caveiras nos gelados?

Os nórdicos investem nos transportes públicos nos centros urbanos e na utilização de bicicletas e penso que ainda não segregaram tão acentuadamente os fumadores a não ser na subida do preço do tabaco. Não me importo e acho justo que o tabaco seja caro, um bem de luxo. Não me passa pela cabeça fumar em casa de não fumadores, a não ser talvez na varanda se a tiverem… ou fumar em hospitais ou aviões… agora uma coisa gostava de ver respeitada: o direito de fumar um cigarrinho sem me sentir uma leprosa. Qualquer dia quando de facto se descobrir, à maneira de Woody Allen no O herói do ano 2000, que um ou dois cigarros por dia nos protegem contra as alergias geradas pela poluição vou gostar de ver prescrito, da mesma forma que hoje se aconselha uma barra de chocolate preto ou um café, uma dieta de dois cigarros diários. Entretanto já se considera que o cigarro retarda os efeitos do Parkinson… Aqui na mouselândia todos fumam uma média de dois exemplares diários numa experiência recreativa. Cada qual deve poder fazer o que quiser com os seus sonhos.
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6 comentários:
De rafgouv a 28 de Agosto de 2006 às 10:47
Bastante má fé neste 'post'...
Penso que ninguém deve ser obrigado a abarcar TODAS as grandes causas sanitárias para poder ser credível... Não é por sermos alérgicos ao fumo que devemos obrigatoriamente combater a obesidade ou a poluição...
Tanto mais quanto me parece que os anti-fumadores partilham com os anti-obesos exactamente o mesmo tipo de raciocínio asseptizante... O repugnante filme "Super Size Me" é o exemplo perfeito da aplicação do mesmo moralismo disfarçado de boas intenções "anti-establishment" para estigmatizar os obesos...
xxx rafael


De mouseland a 28 de Agosto de 2006 às 16:49
Ah agora entendi! Mas eu acho que não estou a inspirar campanhas apenas acho todo este movimento asséptico, como lhe chamas, moralista e hipócrita. Que tédio seria vivermos em "Gataca"! Não pretendo fazer juízos de valor sobre o que é melhor ou pior apenas falar sobre o assunto e ver que outras ideias surgem sobre a temática. Por exemplo, não seria interessante criar um videojogo sobre a matéria?

O rato é um bocado ecléctico. Tudo serve como reflexão e motivo de estimulo criativo. :cool: Queria ouvir-vos debitar sobre esta matéria, apenas. Nada de "má fé"??? Má fé?? Até me podes provar que estou inteiramente errada na equivalência entre gases de tubo de escape e de ar condicionado, que podem destruir a camada do ozono e tornar-se maléficos, mas não provocam cancro do pulmão... tenho poucas certezas sobre a matéria... apenas me pareceu interessante pensar sobre estas questões sem moralizações.

XX rato


De mouseland a 28 de Agosto de 2006 às 16:21
:shock::roll: Eu não percebo o que queres dizer...? Mas nadinha mesmo! Além de que achei o filme "Super Size Me" interessante... sem ser nada do outro mundo... acredito em "regimes" equilibrados (tabaco, comida, bebidas, exercício...). Não tenho nada contra obesos, fumadores, comedores de dietas McDonald ou desportistas fanáticos...

Não bebo coca-cola nem como McDonalds mas isso é uma coisa que só a mim me diz respeito... mas quem fala "em todas as causas sanitárias"? Não entendo mesmo o teu ponto de vista...:sad:


De rafgouv a 28 de Agosto de 2006 às 16:28
O que está subjacente em filmes como "Super Size Me" em relação aos obesos é o que tu criticas em relação aos anti-fumadores...
As campanhas anti-obesidade não me parecem actualmente menos agressivas do que as anti-tabaco... e mesmo que o fossem não devias inspirar ideias de campanhas anti-queijos ou anti-chocolate... És capaz de ter seguidores... :grin:


De Anónimo a 31 de Janeiro de 2010 às 23:20


De Robin a 10 de Março de 2010 às 16:28
mouseland.blogs.ca.ua.pt, how do you do it?


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