Terça-feira, 23 de Maio de 2006
O PROBLEMA DA ARTE DOS “OUTROS”
olu_culturegame1.jpg


dr Bakali: "Cara Mouse penso que deverias ter escrito "arte africana e afro-americana" e "artistas africanos e afro-americanos". O Olu Oguibe, por exemplo, é um artista "africano", não "afro-americano". Somos todos nigerianos!"

Caro dr Bakali, Pensei inúmeras vezes que essa opção poderia ser entendida de forma problemática mas uma das questões do livro é precisamente que grande parte dos artistas africanos contemporâneos estão formatados pelas suas estadas no Ocidente. Falar deles como dos "outros" é uma forma de exclusão típica do colonizador que os remete para uma margem. Assim, o próprio Olu Oguibe está sempre a falar dessa diáspora afro-americana e do jogo a que os artistas têm que se submeter para reforçar esse estado de coisas. Olu Oguibe viveu seis anos em Inglaterra e agora vive nos Estados Unidos. As suas raízes podem estar na Nigéria mas a sua formatação (o seu texto, hehehe, é ocidental!). Hoje em dia até a arte americana atravessa um período de incerteza em relação à sua especificidade. O problema da existência de uma arte especificamente americana foi recentemente enunciado pelo actual responsável pela expansão do Whitney Museum (museu de arte americana!), Adam Weinberg, que se viu forçado a convidar dois comissários europeus para a sua bienal de 2006. A bienal do Whitney supostamente montra da arte contemporânea americana tem vindo a ser contaminada por artistas estrangeiros residentes nos EUA e agora por comissários europeus. Por ainda ser um museu e uma bienal que insiste na sigla da arte americana (artistas maioritariamente nascidos ou naturalizados nos EUA) é que possivelmente a montra de 2006 é tão fraca (quanto a mim que tive oportunidade de a visitar em Março). Com algumas excepções, claro! Se ser nigeriano implica a liberdade a que se referia Kennedy no seu discurso de 1963 ("Ich bin ein Berliner"!) então também sou. http://www.whitney.org/
"While the wall is the most obvious and vivid demonstration of the failures of the Communist system, for all the world to see, we take no satisfaction in it, for it is, as your mayor has said, an offence not only against history but an offense against humanity, separating families, dividing husbands and wives and brothers and sisters, and dividing a people who wish to be joined together" (Kennedy, 1963).  



2 comentários:
De rafgouv a 29 de Maio de 2006 às 14:29
Querido(a) Rato(a) (ou seremos também todos luso-disneyanos, hein??), penso que a consideração do Dr. Bakali não foi bem interpretada.
No entanto são as suas considerações sobre a presença de comissários europeus numa colecção norte-americana que me deixam bastante surpreso... Não vejo o que isso pode ter de problemático em relação à origem e/ou à nacionalidade das obras e das colecções.
Aliás a maior colecção europeia de arte contemporânea inaugurada recentemente no Palazzo Grazzi de Veneza apesar de pertencer a F. Pinaud (o Sr. FNAC) tem também uma comissária norte-americana. É óbvio que neste caso as obras expostas são tanto europeias (a maior colecção existente de arte contemporânea italiana, por exemplo) como americanas. Penso que um comissário europeu num museu norte-americano ou nigeriano é tão problemático quanto um comissário sueco de 30 anos num museu etíope de arte hitita...
A nacionalidade de uma obra depende exclusivamente de 2 coisas: a reivindicação do artista e a realidade económica que determina a criação da obra (e que é diferente da realidade económica que determina a exposição da mesma). Nesse sentido, a tal "contaminação" de que fala deve-se apenas ao facto desses artistas "residentes" nos USA serem de algum modo patrocinados por essa grande nação.
Ou seja, penso que convém fazer uma clara distinção entre a nacionalidade reivindicada por um artista (por mais influências exteriores - que você assimila a "formatações" - que a sua obra reflita) e a nacionalidade (pouco relevante) dos especialistas que sobre ele se debruçam.
Por fim, a questão da especificidade "nacional" de uma obra coloca-se obviamente para alguns artistas (Jeff Koons ou de Andy Warhol reivindicam uma especificidade americana) e bem menos para outros (a obra de Fontana não se limita a descolar o salto da bota italiana mas envia-a para o fundo de um abismo).


De dr Bakali a 30 de Maio de 2006 às 18:52
Ora bem, essa do "comissário sueco de 30 anos num museu etíope de arte hitita" é que coloca a questão em verdadeira perspectiva, eheh. Por um lado, temos o discurso sobre a arte (dos curadores, críticos) e este pode ser elaborado a partir de uma perspectiva "interior" ou "exterior" (como o nigeriano Okwui Enwezor na Documenta de Kassel) sem que grande mal venha ao mundo -- porque promove a multitude de olhares -- a não ser, como nos diz Olu Oguibe, quando promove ancestrais visões e procedimentos coloniais.
De outro lado está a criação artística que, num mundo globalizado e ao afirmar-se "contemporânea" subverte a localização mas... apenas no "discurso" e não como "sistema de produção". Digo eu, claro está. É certo que "The Culture Game" podia ter sido escrito por um sueco mas não foi, foi escrito por um nigeriano que, apesar de escrever inglês (para citar a mais óbvia das formatações) não deixou de estabelecer um prémio para a produção literária na sua língua materna, o Igbo. Aliás, aproveito para citar de uma recente entrevista de Olu Oguibe: "language is the destiny of a people. People may lose land, or even their liberty, and still come back and reclaim it. But a people that has lost its language has lost everything. The postcolonial mind is saddled with a colonial malaise: we are not only inept in our own tongues, we are embarrassed to acknowledge what we have lost."
Digamos que é por este tipo de declarações e acções que eu afirmo que, antes de ser um artista do mundo, Olu Oguibe é "um artista africano".


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