Quarta-feira, 18 de Outubro de 2006
“COMO VIVER JUNTO”_27ª BIENAL DE SÃO PAULO_PARQUE DO IBIRAPUERA
bienalsaopaulo2.jpg

A 27ª Bienal de São Paulo é subordinada ao tema “Como Viver Junto” e o conceito foi inspirado nos seminários que Roland Barthes deu no Collège de France em 1976 e 1977. O tema “propõe uma reflexão sobre a vida colectiva em espaços partilhados, sobre a justaposição de ritmos diferentes no mesmo espaço físico” e, nesta bienal de 2006, foram eliminadas “as representações nacionais e uma equipe internacional de curadores viajou pelo mundo em busca dos artistas que melhor representam os ideais e conflitos da vida contemporânea em espaços partilhados”. A curadoria geral da bienal ficou a cargo de Lisette Lagnado, com assessoria de Adriano Pedrosa, Cristina Freire, José Roca e Rosa Martínez e do convidado Jochen Volz.

“Para mim arte é media. “Quando, o que, quem, onde porquê, registro, edição, manufactura, gastos, feedback.” São essas palavra-chave que constituem a media, e elas constituem os factores essenciais para que o trabalho possa fluir. Hoje a media já nos modificou, no que diz respeito à compreensão do mundo real e visível.” Wang Youshen (Beijing, 1964) entrevistado no guia da Bienal e autor de Washing.

Devo confessar que tenho sempre alguma dificuldade em visualizar tanta coisa misturada e como em qualquer evento desta natureza encontra-se de tudo. Obras interessantes misturadas com obras muito pouco interessantes. Vou tentar salientar algumas coisas que me chamaram à atenção mas em termos gerais visitei a bienal com a crítica de Paul Virilio em La Procédure Silence na cabeça. Para Virilio, a representação cede terreno à estupefacção de uma presença, de um tempo real, em que a imagem é suficiente para dar à arte a sua significação, o seu sentido. O silêncio terminal dos espaços e mundos artísticos que já não precisam do cara-a-cara do corpo torturado mas apenas do aparelho de gravação automático. O “directo” funciona, neste contexto, como a “suspensão da dor de viver” (Virilio; 2000: 27). O academismo do horror e do silêncio fica explícito através de uma arte sacra do conformismo que deu lugar à arte profana da modernidade. Uma vez mais pressente-se que a realidade é demasiado atroz para dela se fazerem comentários. A identidade fotográfica do detido é arquivada, no Cambodja, antes deste partir para a execução. Os corpos do holocausto não têm rosto mas estão documentados.

“[Jens Hoffmann] O que você faria caso não fosse artista? Provavelmente escreveria poesia ou seria comediante.” Simon Evans (Londres, 1972) entrevistado no guia da Bienal e autor de Local Gestures, mapas e diagramas inventados.

A apropriação que a arte contemporânea faz da realidade em inúmeras exposições, Snuff movies, Snuff Litterature e afins é apenas um aspecto da sua produção mas é curiosamente este aspecto tão associado à arte elitista que menos se debate com as capacidades ilusórias dos meios de comunicação para a produção de efeitos e para jogar com a percepção humana. É a arte elitista que, a nosso entender, mais reproduz e repete standards de opinião num academismo incompreensível. Poderemos dizer que o lado documental ou cartográfico da arte contemporânea denota um fascínio desta pelas imagens gravadas em directo, um Novo Realismo Neurótico, definição cunhada por Virilio, que não fica resolvido apenas em termos “dos directos”, da presença do evento. O Novo Realismo Neurótico ou a Arte Terminal de Virilio é a “percepção do sangue frio” e baseia-se em instantâneos, excertos fotográficos e frames cinematográficos. Deparamos com o Retorno ao Real de Hal Foster onde: “quanto mais a nossa vida se torna standardizada, estereotipada e sujeita a um processo de aceleração na reprodução dos objectos de consumo, tanto mais a arte deverá ser injectada de forma a extrair aquela pequena diferença que joga simultaneamente entre outros níveis de repetição, de forma a fazer ressoar os dois extremos, a saber, as habituais séries de consumo e as séries instintivas de destruição e morte. A arte assim conecta o quadro da crueldade com o quadro da estupidez e descobre no meio o consumo (...)” (Foster; 1996: 68). Os discursos sobre questões multiculturais já foram aqui questionados a partir do livro The Culture Game de Olu Oguibe e não voltarei a eles. Apenas coloco a seguinte questão: num ano em que a bienal se quer aberta à participação e contesta o elitismo de bienais anteriores a representação de tanto Novo Realismo Neurótico não é um contra senso?

Depois da apresentação do meu cepticismo em relação a bienais de arte contemporânea bem acentuado pela incompreensível não incursão dos aspectos tecnológicos da sociedade em temáticas sobre “Como Viver Junto” gostava de salientar alguns trabalhos que me pareceram excelentes. A obra vídeo/instalação Fata Morgana de Cláudia Cristóvão (Luanda, 1973) sobre a dimensão ficcional da realidade através da (re)construção de biografias fora das ex-colónias. O projecto é, segundo a artista entrevistada no guia da bienal, uma tentativa de mostrar a “tensão entre a memória e a realidade” e desvendar “a criação de países semificcionais”. A Sala de Gravidade de Jaroslaw Kozlowski (Polónia, 1945) que questiona os sistemas da percepção espacial ao inverter a disposição dos móveis numa sala. A enigmática sala das “narrativas verídicas” de João Maria Gusmão e Pedro Paiva (Lisboa, 79, 77), uma ficção existencial com um caçador de enguias, uma coluna de colombo, um hipnotizador de troncos e muitos pêndulos. O Libro Ponti, livro sobre a casa de vidro de Lina Bo Bardi em São Paulo de Juan Araújo (Caracas, 71). Entre Nós de Marilá Dardot (Belo Horizonte, 1973), uma instalação de 13 vídeos que propõe um jogo lúdico relacional onde se “investiga o processo de construção de um diálogo”. Um jogo de dados que não pretende ser competitivo mas antes uma composição possível. Doçura de Meschac Gaba (Benin, 1961), uma cidade imaginária de açúcar. O CODE.RED de Tajed Pogacar (Ljubljana, 1960) com a organização do Rio de Janeiro Davida que promove a cidadania das prostitutas. Para este projecto foi criada a marca Daspu, ironia em relação à marca chique brasileira Daslu. A Daspu, criada em 2005 concebe roupas para fortalecer a batalha das prostitutas contra o estigma. Os Local Gestures de Simon Evans (Londres, 1972), mapas e colagens compostos pelo artista.

Finalmente achei bastante interessantes os projectos de Antal Lakner (Budapeste, 1966), Iners, máquinas que transformam a relação do corpo com os espaços públicos (metro, elevadores) e a instalação de Sanghee Song (Seul, 1970), Machines. Sobre o projecto a artista refere no guia: “com a invenção destas Machines quero falar de um mecanismo destinado à auto tortura / auto reconforto que deveria levar-me a atingir a fantasia de ser uma “boa filha”. Esta é uma obsessão colectiva e uma fantasia colectiva comum que as mulheres de classe média têm, nascidas da ideologia da “boa filha” e da “mãe sábia e boa esposa”, que a sociedade patriarcal da Coreia impingiu nelas.” Vale também a pena divagar demoradamente pela obra de Ana Mendieta (México, 1945-1985) pois os outros clássicos são mais conhecidos.


6 comentários:
De migalha a 18 de Outubro de 2006 às 16:51
Mais uma coincidência inimaginável. Também já fui a esta Bienal e não te vi lá, ó mouse! Como em todas as outras que visitei ao longo do tempo, quatro ou cinco, a montagem da exposição não prima pela qualidade arquitectónica da instalação. O que é um contra senso para um evento desta natureza. Para além disso a identificação das obras, principalmente no piso inferior, ou é omissa ou está mal cuidada, o que torna a exposição um pouco confusa. Em relação à qualidade individual das peças estas, eufemismos à parte, são, no geral, muito fracas. Assim, todo o conjunto se torna fastidioso e cansativo. Dá vontade de desistir e ir antes passear no belo parque do Burle Marx / Nyemeier. O que a salva do fracasso total são algumas, muito poucas, obras interessantes. Das quais também realço a Fata Morgana de Cláudia Cristovão, as Narrativas de João Gusmão e Pedro Paiva e a desconcertante Sala de Gravidade de Kozlowski. Se, tal como o título da exposição indica, a ideia desta Bienal propõe a tal reflexão sobre a “vida colectiva em espaços partilhados” então prefiro mesmo tornar-me um ermitão... :mrgreen:


De mouseland a 18 de Outubro de 2006 às 18:43
Olá Migalha :grin::lol::grin::smile::mrgreen:

Estou de acordo contigo mas penso que o pior é mesmo o piso inferior com algumas obras infantilóides e pseudo artísticas desmotivantes... conforme se vai subindo a rampa a "coisa" vai melhorando, hehehe. E no final gostei da experiência de constatação... sempre positiva, de que "arte" a metro é um problema.

Possivelmente devem existir mais peças interessantes mas o guia nem sempre mostra as obras expostas o que torna ainda mais confuso interiorizar os trabalhos. De qualquer maneira achei também curioso um trabalho israelita que mostra umas quatro projecções vídeo em quatro televisões distintas, numa técnica "emboss" tudo cinzento ao estilo comic book, de imagens do exército... Então andei a pesquisar na net qual da(o)s israelitas seleccionados seria pois existem três na mostra: Yael Bartana, Miki Kratsman e Aya Ben Ron: http://www.agenciajudaica.com.br/noticias.asp?nwsid=153

Depreendi que me refiro à artista multimédia Yael Bartana mas não estou totalmente certa... http://www.my-i.com/

xxx mouse


De Carecone a 19 de Outubro de 2006 às 21:51
Nunca fui a uma Bienal! Pena, pena, pena! QUem manda eu morar em Balneário!


De mouseland a 19 de Outubro de 2006 às 22:18
Carecone,

Salvador da Bahia não é um balneário! É dos meus sítios favoritos no Brasil:roll::shock::wink: mesmo sem bienais!! A bienal de São Paulo dava para fazer duas, uma aqui e outra aí :wink:

xxx mouse


De Paulo Sempre a 19 de Outubro de 2006 às 23:25
:roll:hello. Pena estar tão longe, neste lado do Mundo - Portugal, Lisboa - se assim não fosse muito gostaria de estar ai.
Paulo

Portugal


De mouseland a 20 de Outubro de 2006 às 16:04
Olá Paulo,
Bem-vindo à mouselândia! Não consegui aceder ao teu blog "filhos de um deus menor"... quanto a Lisboa não há nada como a cidade das luzes, a cidade branca... se soubesses as saudades que eu tenho dessa luz única. Em São Paulo está sempre enevoado...:???:

xxx mouse


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