Sábado, 10 de Junho de 2006
O CRIME DOS DESIGNERS NA IDADE DO MEDO
engelbart.jpg

Com o contributo do blogger barbara says decidi escrever umas notas sobre esta hora e quarenta de conversa gravada em Lisboa em Setembro de 2005 durante a Experimenta design. Subordinada ao tema designers in the age of fear esta discussão foi mediada por John Thackara (uk) e tinha como participantes Ayssar Arida (uk), Pedro Gadanho (pt) Stefano Casciani da Domus (it), Kieran Long (uk) e ainda uns agentes provocadores representados por Lucy Bullivant (uk), Ricardo Carvalho (pt), Jacopo Crivelli Visconti (it), Helena Roseta (pt) e Colin Davies (uk). A conversa está disponível on-line para os interessados em: http://www.livelanguage.org (EXP05).

O que achei bastante estranho neste debate e ao mesmo tempo típico de uma forma de discutir assuntos relacionados com o design, arquitectura, artes tradicionais e digitais foi uma certa fuga à contextualização dos conceitos e tendência às generalizações. Em dado momento um dos intervenientes refere-se a este fenómeno dizendo que está farto da banalização da expressão cultura/idade do medo mas também que o discurso se baseia essencialmente numa tendência ocidental e muito restrita aos países “ricos”. O mediador tenta inúmeras vezes sem grande êxito chamar a atenção para a necessidade de explicitar de forma clara as definições utilizadas mas o momento mais surpreendente acontece quando Colin Davies intervém. Para o autor, como para alguém formado em media studies é óbvio o equívoco na apropriação da expressão arquitectura para explicitar aquilo que considera como interfaces ou design de interfaces. Esta questão ainda se torna mais evidente quando se fala da natureza processual ou relacional da experiência estética propiciada pelas “novas interfaces”.

Embora naquele debate ninguém diga o que entende por experiência todos se declaram produtores de experiências (um dos intervenientes aborda a questão da estética relacional, felizmente!). É cómico o momento em que alguém diz que no dia anterior na conversa com designers todos eles pretendiam mudar o mundo através dos seus cartazes sendo que o mundo a ser mudado é inteiramente parte dominante da percepção do arquitecto ou do designer, subentende-se. O que nos leva novamente ao problema das generalizações e das suposições. Subentende-se que as pessoas têm medo mas não se contextualiza o que se entende por medo, chega-se ao caricato de discutir o hábito do medo sem qualquer tipo de dados ou intervenção das ciências sociais. As abstracções surgem em várias direcções: novas tecnologias, centros comerciais, movida espanhola, receio em Beirute… O momento lúdico surge com a responsabilização dos consumidores de arquitectura pelo estado de ignorância em relação aos projectos. Segundo esta corrente do debate, o arquitecto, o designer, ao contrário dos consumidores, pelo contrário têm um conhecimento pleno (estou a ironizar) e não genérico e turvo da realidade. Usa-se e abusa-se das palavras para justificar uma certa turbulência e fluidez. Palavras suficientemente genéricas e descomprometidas para encherem um programa de trabalho e possibilitarem apropriações ligeiras e senso comum das diferentes comunidades. A inclusão dos skaters (alguém refere esta tendência) e do open source como figuras de estilo resultam enigmáticas. Vale a pena ouvir estas conversas quase dois anos depois porque de facto há aqui a denúncia evidente de um problema. Os discursos sobre o design e as interfaces contemporâneas estão a milhas das práticas! E depois o Hal Foster é que é moralista...


4 comentários:
De rafgouv a 15 de Junho de 2006 às 14:30
Excelente título mas acho que deveria figurar aqui no plural : "Os crimes dos designers na idade do medo" (mas estaremos mesmo na idade do medo??? não será pelo contrário a falta de medo - e, se calhar, de vergonha - que melhor caracteriza a nossa época??).

Seguem algumas palavras de Maurice G. Dantec numa recente conferência em Dublin (Ich Bin Ein Dubliner), dada em inglês e francês, e que também podem ser aproximadas dos posts a propósito de Olu Oguibe:

"The last utopias of the cyber-conviviality, this horrendous pseudo concept typically made-in-France, shows us something like the Everest of the grotesque, as the great Phillippe Muray, who recently disappeared, demonstrates the thing with the lethal humour it deserves.

"I am questioning myself : do I really have to LIVE with those who organize genocides, or kill teen-agers in Jewish discotheques ? What have I in common with families who put belts of C-4 explosives around the bellies of young babies to prepare them for "martyrdom" ?
(...)
"Les grandes innovations techno-scientifiques sont toujours des machines de guerre. Le feu lui-même peut-être envisagé aisément comme la première d'entre-elle. Dans l'Anti-¼dipe, Gilles Deleuze rappelle à bon escient que la Machine d'État, homologue politique de la Machine de guerre, ne fut pas inventée par les peuples sédentaires des Cités antiques, mais par les nomades eux-mêmes, surtout grâce à la domestication du cheval, qui élaborèrent les premières vastes organisations technico-politico-militaires capables - non de « contrôler » ‑ mais de naviguer à travers les steppes.

"Navigation, c'est étrange, le mot grec Kubernaton, donna cybernétique au XXe siècle, alors même que l'ordinateur était inventé pour fournir les calculs nécessaires à l'élaboration des premières bombes atomiques.

"Le « réseau » lui même, le « Web », est la conséquence du programme américain ARPANET des années soixante, puis d'un protocole d'échange de données inventé au CERN, ce grand accélérateur de particules situé à la frontière franco-suisse.

"Je défie quiconque de me trouver une invention technique d'importance qui n'ait pas été peu ou prou originellement mise au point dans une perspective de machine de guerre, des fusées interplanétaires au LSD.

"C'est la raison pour laquelle je sais que les utopies pacifistes mentent, elles mentaient en 1938, elles mentent en 2006, elles mentiront en 2084.
(...)
"Toute technologie est une arme, toute technologie est porteuse de destruction, n'oubliez jamais que l'on tue avec du simple courant alternatif.

"Un ordinateur est aujourd'hui une arme de destruction massive. Il reste beaucoup de travail aux cerveaux humains pour se placer au niveau de leurs productions techniques. Günther Anders le savait il y a cinquante ans : devenu plus petit que ses créatures, le dernier homme magnifie le nihilisme en l'inversant, devenu Dieu du monde sans Dieu, l'homo sapiens unifié en un organisme biopolitique indifférencié est rejeté dans le rôle de syndic de propriété, tandis que la Technique-Monde est devenue la seule écologie pensable et pensée et a été consacrée, elle, l'authentique entité démiurgique et souveraine.

"C'est pour cette raison que je ne peux m'affirmer « citoyen du Camp-Monde ». Il n'y a plus de citoyens quand il n'y a plus de cités. Il n'y a plus de cités lorsque la politique - politika ‑ a disparu, remplacée par les poses culturelles. Et aucune culture n'est possible dès lors que la science est mise au service du confort et de la survie pacifiée. C'est la raison pour laquelle j'affirme à la fois une identité une et multiple car élaborée sur une impitoyable sélection. C'est la raison pour laquelle je peux appartenir à plusieurs Mondes, Amérique du Nord, Europe Occidentale, France, Britannia, culture romano-hellénistique, langue franco-germanique, haute antiquité celtique, futur russo-américain. Voilà pourquoi cette identité interfère avec la Technique-Monde, c'est-à-dire avec le nouveau modèle d'humanité, cette identité en processus est une machine de guerre, comme disait Kafka : dans la guerre entre toi et le monde, seconde le monde. Cette identité en devenir constamment renouvelé est un instrument de navigation transatlantique, This identity is a tension constantly renewed between densities and intensities, a composition of differences and repetitions, a kind of multiplex which actualises the real infinity in ourselves, the infinity of the individuation, ontologically opposed to the Ge-Stell, its biocontrol of the bodies and spirits, this "pseudo-life", encoded in the memory-cards of a universal culture that is not a product, but the process of production itself. This is the reason why everywhere I go I am an alien, this is the reason why everywhere I go Ich Bin Ein Dubliner."


De mouse a 15 de Junho de 2006 às 21:55
Rafu, estou de acordo contigo. O problema da desresponsabilização e do design sem agenda é um problema de vergonha. A construção do titanic implica a conceptualização da catástrofe, do acidente que é o naufrágio, como diz Virilio, e os designers e os arquitectos são responsáveis por estas metrópoles irrespiráveis e poluídas em que temos que vestir um fato de mergulho para visitarmos o mundo real, disse Flusser.

Concordo com a crítica de Vantec às "utopias of the cyber-conviviality, this horrendous pseudo concept typically made-in-France" mas acho que também é preciso inquirir as suas convicções catastrofistas: "Les grandes innovations techno-scientifiques sont toujours des machines de guerre". Sim, a cibernética, como ciência do controlo construiu sistemas periciais de guerra. Sim, a internet e o primeiro jogo de computador foram criados em contextos militares. Mas a pergunta é: que fazer então se em toda a nova invenção existe uma plasticidade que é simultaneamente novo design e novo explosivo?

thanks XXX mouse


De rafgouv a 16 de Junho de 2006 às 11:28
Hello,
Acho que o que Dantec põe em evidencia e critica não são as invenções e a sua origem militar mas a tendência tão contemporânea do homem alienado para negar ou ignorar o perigo que elas representam e que é travestido em "conforto", "progresso" e euforia. O que ele critica não são as invenções mas a idolatria criminosa e a alienação que suscitam (impedindo-nos por exemplo de ver que são também - e principalmente? - instrumentos de morte). Mas isto dá pano para mangas...


De mouse a 17 de Junho de 2006 às 16:49
Os discursos sobre a "novas" tecnologias sempre foram inflamados e pouco coerentes porque também existem inúmeros velhos do Restelo em relação a qualquer nova invenção. A imprensa, a rádio, a televisão, o cinema e o filme, o computador e os videojogos... os media sempre suscitaram esta suspeição e por mera necessidade de legitimação sempre necessitaram dos seus papas episcopais. Às vezes acho que nesses discursos reside o que de mais inovador há sobre o medium em questão.. mesmo que muito para lá da realidade e que estejamos no domínio da ficção. Já Frankenstein de Mary Shelley vai atrás do seu criador para o destruir... a história é velha e retorna sempre!


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