Domingo, 11 de Junho de 2006
INTERFACES MULTIMODAIS - ACOPLAMENTO ESTRUTURAL ENTRE O CORPO E O MEIO
agoraXchange

“(…) então o corpo é rei e senhor de “cum saber de experiência feito”. Todo o ser vivo é pois um ser cognitivo, construindo nas interacções que estabelece com o meio, a sua própria história, coadjuvada pela noção de “groundlessness” trazida da tradição meditativa budista. Noção associada a conceitos tão actuais quanto o de desprendimento, mobilidade, fluidez e caos. Uma co-evolução humano/meio, em circularidade incessante, tal como a “roda da vida” de inspiração budista. O novo conceito de Enaction apela à evidência da diversidade humana e à própria individuação, enquanto o corpo humano passa a ser em simultâneo sujeito e objecto de interacções que o constituem num corpo mais livre, autónomo e actuante, mas também mais responsável pelo seu próprio processo cognitivo. Todavia ADN, diversidade de ambientes, constituem, pensamos, condicionantes às experiências levadas a cabo por esse mesmo corpo” (Cris, comentário ao texto Acção e Incorporação).


O conhecimento cognitivo e a evolução criadora (diria Bergson) voltados para a percepção e para a acção são hoje matéria de grande investimento nas interfaces dirigidas aos cinco sentidos. As acções virtuais do avatar no espaço digital reflectem as acções físicas performativas do sujeito que com elas se depara. Longe estão os tempos da consciência (do cogito de Descarte) com base numa representação pré definida à priori. A Inteligência Artificial (IA) simbólica ao tentar reproduzir a memória em ambiente artificial é acompanhada pela Vida Artificial (VA) que pretende antes de mais simular as interacções no ambiente dos seres naturais e/ou artificiais. Maturama e Varela são referências incontornáveis na relação de “incorporação” do ser com o meio. Eu penso que a tradução para português mais correcta desta relação é de facto incorporação. Assim o entendo a partir da leitura do livro A Árvore do Conhecimento em que os autores falam dessa relação de acoplamento do ser com o meio ambiente. Esta mesma relação está bem presente nas teorias clássicas da fenomenologia da percepção (Bergson e Ponty, são alguns exemplos) e remete-nos para um conhecimento por via de acções concertadas dos cinco sentidos que não é nem simbólico nem icónico mas antes uma consequência perceptiva de acções motoras. O sistema nervoso é estimulado pelos dados provenientes do meio e, como sistema cibernético, funciona como um termóstato, mediador de feedbacks positivos e negativos. Quando entramos neste estado avançado de manipulação da percepção, através de sistemas que simulam por via de sínteses operativas em ambiente digital o sistema nervoso central, só nos podemos interrogar se o corpo com que nos deparamos hoje em dia, tentáculo do nosso sistema nervoso central, extensão (diria McLhuan) e interface entre o meio e a nossa consciência interpretativa ainda tem alguma coisa de natural?

A conferência ENACTIVE / 06 que se vai realizar em França em Novembro de 2006 tem como objectivo chamar a atenção para a convergência das diferentes áreas disciplinares das ciências da complexidade e o conceito de ENACTION. Biologia, ciências cognitivas, sistemas tecnológicos que estudam a percepção humana, são algumas das áreas de convergência que, como sistemas complexos dinâmicos que exibem propriedades de instabilidade e que têm consequências nas interacções com o meio, são sistemas emergentes, isto é, apresentam propriedades que não estão escritas no seu livro de regras mas que emergem a partir de interacções de proximidade entre regras simples definidas na matriz inicial. Estas propriedades, que emergem a partir de regras simples, ultrapassam as expectativas definidas à priori pois não foram concebidas pelos designers do sistema. É da autonomia da máquina, ou dos sistemas artificiais, e da sua capacidade para simular e evoluir, à maneira dos sistemas naturais, que se trata, é com simulações e não com representações que nos debatemos. Obrigado Cris!


4 comentários:
De cris a 19 de Junho de 2006 às 02:06
:mrgreen:

1. D´acordo! não é possível não ter em presença o ambiente tecnológico envolvente do corpo humano. Este corpo é um corpo inexoravelmente a revelar-se Outro, tão só pelas interacções estabelecidas com o meio específico em que se move; um corpo de igual modo revelado na sua complexidade, pelos ´apports`das ciências da complexidade: neurobiologia, biologia molecular, ciência cognitiva... e claro o desenvolvimento exponencial de sistemas tecnológicos periciais...
Um corpo ainda e sempre em movimento e acção/percepção. Um corpo a ´transbordar`...
quiçá um corpo´desesperado`,enquanto "organismo complexo" (Damásio,1995)

2. Ainda a ´complexidade` da palavra "embodiment".
Tive a curiosidade de ver como era a tradução em "O erro de Descartes..." e de facto a tradução é justamente:
".... incorporação(embodiment)... " ambas as palavras surgem em itálico (que do ponto de vista técnico não consigo introduzir aqui).

Assim argumenta Damásio,1995:"É muito provável que a mente não seja concebível sem incorporação (embodiment), uma noção que tem lugar de destaque nas propostas teóricas de G. Lakoff; M. Johnson; E. Rosch; F. Varela e G. Edelman; e, evidentemente, as nossas próprias."

O uso de itálico sugere a dúvida sobre a tradução da palavra. Eu preferiria usar o anglicismo, como se usam tantos outros. Um bem frequente: feedback, e até mesmo blog; se bem que para este já tenha sido, apressadamente, introduzida no vocabulário de língua portuguesa,a palavra blogue. Sou pela convivência/partilha entre línguas, e contra "as dores de cabeça" em encontrar desesperadamente uma palavra portuguesa (concerteza), para certas palavras de outras línguas, por vezes intraduzíveis... ...:roll:


De mouse a 19 de Junho de 2006 às 07:49
Cris, curiosamente este fim-de-semana estive de volta destes assuntos, nomeadamente a questão da emoção na mediação entre a percepção e o movimento no "Princípio Vida, fundamentos para uma biologia filosófica" do Han Jonas e também voltei às "mentes artificiais" e o Edelman é por lá mencionado. Claro que lá terei que acabar no Damásio! Ufa... esta total imersão pela biologia e pelos sistemas complexos foi uma surpresa para mim.:shock::mrgreen:


De cris a 25 de Junho de 2006 às 00:45
1.Pois é mouse, curiosamente também trouxera instintivamente os livros de Damásio para a minha mesa de trabalho, e logo "O Erro..." foi reactivado; motivado por estes ´posts`(?)... de seguida foi feita uma releitura, sempre re-construída, face aos textos que entretanto passaram pelo nosso corpo...
as emoções são algo de fantástico que acontece no organismo humano. tentar entender os fenómenos biológicos e neurobiológicos que estão na sua base e origem é excelente. tanto mais quando a elas se alia a pujança do pensamento. de tal modo melhor poderemos percepcionar e interrogar as nossas complexidades orgânicas...
penso que a complexificação de sistemas, sociedades, organismos é inerente aos processos evolutivos em expansão...
li o Damásio logo que foi publicado. na altura, via a TV5 Europe, e era um fenómeno por toda a Europa ... mas não me interessa o fenómeno, o que me interessa foi aquilo que esta leitura me trouxe de novo; aquela sensação de ´decalque`... penso que a leitura na língua original, será mais plena.:cool::cool:

2. ontem escrevi aqui um texto mais completo e abrangente, mas já no final, perdi-o... este está a substituí-lo, com estas´dicas` particularmente para o organismo complexo (elevado ao cubo) que é a MOUSE... entretanto ausento-me do mundo virtual, e vou dar de caras com a costa alentejana/vicentina... :cool::cool:

3. lá na velha casa,também aparecem de tempos a outros, e de súbito, ´mouses`(?) ao vivo. pode ser que passes por lá virtualmente...

4. li o teu post sobre Design/Arte Digital e claro dá para entender que tens mesmo razão ... por hora não me atrevo a´comment`, entenda-se......:cool::cool:


De mouse a 25 de Junho de 2006 às 14:00
Boa viagem Cris! Tenho andado a planear ir à praia mas há sempre alguma coisa para fazer que não me permite ir apanhar uns raios de sol e a pele vai ficando leitosa, hehehehehe. Em Julho desforro-me!

xxx mouse


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