Terça-feira, 27 de Fevereiro de 2007
INLAND EMPIRE DE DAVID LYNCH - ILHA DE GRAÇA_por Rafgouv
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Para mim, David Lynch é o paradigma da generosidade cinematográfica. Os filmes de David Lynch não são só dele, são meus, teus, nossos. Não serve de nada por isso tentar explicá-los ou compreendê-los, devemos sobretudo estar prontos para co-realizarmos, com o que isso implica de disponibilidade, dedicação e coragem. Quem não está pronto para aceitar o convite, fica à porta do labirinto. Quem entra sabendo onde põe os pés, sabe que se vai perder mas sabe acima de tudo que nada se ganha sem perdição, sem divagação, sem incerteza. Mais do que um filme, INLAND EMPIRE é uma sessão de meditação transcendental. Como afirmava, numa entrevista recente, o escritor católico Maurice G. Dantec a propósito da literatura, “um livro que não é serenamente encarado pelo seu autor como um sacrifício, é uma anedota, uma baboseira.

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TERRITÓRIO INEXPLORADO: “Strange, what love does”

INLAND EMPIRE foi integralmente rodado em DV, em Hollywood e na Polónia. Segundo, Lynch trata-se de uma escolha definitiva na medida em que não conta voltar a rodar em suporte fílmico. A textura da imagem digital, o grão, lembra curiosamente o 35mm dos primórdios, antes que as sucessivas melhorias técnicas tenham dado à esmagadora maioria das produções cinematográficas o brilho liso das páginas de revista em “papier glacé” que, paradoxalmente, é também a nitidez do “pixel” (as grandes produções digitais tendem quase sempre – pensemos em Star Wars ou Lord of the Rings – a renegar o grão da imagem cinematográfica). Neste sentido, e apesar do trabalho sobre a textura, fílmica ou sonora, ser uma constante na obra de Lynch, INLAND EMPIRE é também um regresso às origens, à sujidade de Eraserhead e Elephant Man.

Quem aprecia sobretudo o virtuosismo arty do Lynch de Twin Peaks – Fire Walks With Me ou Lost Highway não deixará de ficar extremamente desapontado com INLAND EMPIRE. Neste novo Império [1], Lynch não abdica de forma alguma da pluridisciplinaridade que caracteriza a sua obra. INLAND EMPIRE é um filme mas também de algum modo uma instalação, um território arquitectónico labiríntico feito de circunvalações, corredores, subterrâneos. No entanto, em INLAND EMPIRE não há lugar para o glamour que de alguma maneira caracterizou também a sua obra de Wild at Heart a Mulholland Drive (expresso nomeadamente por referências constantes e emblemáticas ao cinema clássico de Hollywood, de The Wizard of Oz a Sunset Boulevard). Se bem que estes filmes (como de resto os seus referentes) fossem também desmistificações, podemos dizer que reafirmavam com pungência o poder mitológico da fábrica dos sonhos (os casais formados por Laura Dern e Nicolas Cage em Wild, por Patrícia Arquette e Bill Pullman em Lost ou por Rebecca Romijn-Stamos e Naomi Watts em Mulholland são reencarnações não estilizadas das estrelas do cinema clássico). Ora, se o cinema continua a ser um dos temas principais de INLAND EMPIRE (que aliás pode também ser visto como uma actualização ou um remake de Mulholland, nomeadamente pela reedição de um paradigmático beijo sáfico [2]), ao rodar uma boa parte do filme na Polónia (e em polaco), Lynch transfigura-se. Nalguns momentos, tive a nítida sensação de que o realizador de Dune se deixou possuir pelo Tarkovsky de Stalker. Ao investir, através de um túnel secreto, os antípodas do cinema de Hollywood, uma vez mais simbolizados [3] pela Europa de leste, o realizador desterra um terreno claro obscuro, feito de ruínas, feridas e humidade que não é menos um terreno de sonho. Diz Lynch a propósito da rodagem em DV: “É diferente. Alguns dirão que é feio. (...) Com uma imagem pobre [4] há muito mais espaço para sonharmos.


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LAURA/ NIKKI/ SUSAN…

Há algumas semanas, David Lynch, em mais um exemplo da sua extrema generosidade e do seu enorme sentido de humor, entrou em campanha. Com um amigo, uma vaca (“Sem queijo não haveria um INLAND EMPIRE...”) e um cartaz do filme foi para Hollywood Boulevard tentar convencer os membros da Academia de Artes e Ciências de Hollywood a nomearem Laura Dern para os Óscares. Sem resultado.

Confesso que não tenho palavras para escrever sobre Laura Dern. INLAND EMPIRE pertence-lhe tanto quanto a Lynch. Graças a ela, INLAND EMPIRE é um milagre, uma obra transcendente, um filme tão carnal quanto cerebral.

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INLAND EMPIRE é um filme interminável [5] sobre um mundo crepuscular mas não desprovido de Graça. Não é uma obra-prima, é uma Obra Essencial como a canção de Nina Simone que o fecha – “Sinnerman”. Para todos nós!



[1] Ao mesmo tempo território cinematográfico e místico como a velha sala lisboeta do mesmo nome.[2] Não pretendo aqui desvendar os recantos deste filme-mundo.
[2] Não pretendo aqui desvendar os recantos deste filme-mundo
[3] Pode parecer paradoxal mas na verdade existem inúmeros pontos comuns entre INLAND EMPIRE e o interessantíssimo Borat que aqui tentei analisar há algumas semanas.
[4] E neste filme não é só a imagem mas também muitas vezes o que nela vemos que é pobre.
[5] Dura 3 horas mas durará toda a minha vida, ou seja, se tudo correr bem, eternamente.



4 comentários:
De mouseland a 27 de Fevereiro de 2007 às 01:42
Hello Raf,

Gostei bastante das considerações que fazes sobre o grão na textura do filme que ainda não vi mas que de facto me recordou o "Borat". A colonização do pixel luminoso é material que me interessa explorar, hihihihi. Também as fotos da instalação/campanha de Lynch me recordam o "Borat". Humor e sentido crítico.

Eu gosto bastante do filme "The Straight story", acho-o celestial e não costumo usar estes adjectivos místicos e transcendentais, hehehe. Mas posso afirmar que é dos filmes da minha vida. Agora é a minha vez: porque não o referes?

Nos anos oitenta a série "Twin Peaks" fez as minhas delicias mas "Eraserhead" e "Elephant Man" são dos meus filmes favoritos de David Lynch e "Lost Highway" é maravilhoso para mim. A banda sonora é dos discos que mais terei ouvido e ainda sinto arrepios quando recordo aquela câmara indiscreta do início do filme... nunca fui fã do "Wild at Heart", se calhar tenho que rever... e o "Mulholland Drive" mais ou menos.

Fizeste uma selecção de imagens misty e arty, :wink:

xxx mouse


De rafgouv a 27 de Fevereiro de 2007 às 09:41
:lol: Oi Mouse,
O texto que escrevi não pretendia ser um top dos melhores filmes do Lynch nem sequer dos meus preferidos mas já que encorajas...

Confesso que também não aprecio muito Wild at Heart... É o único filme do Lynch que me passa quase totalmente ao lado... Talvez por ser a sua única "comédia integral" (os seus outros filmes contêm todos elementos cómicos ou burlescos mas em doses mais comedidas...). É estranho pois sou um grande apreciador de comédias.
A razão porque referi Wild e não The Straight Story - que também prefiro - é simplesmente porque me parece que tem mais ligações com este INLAND EMPIRE (a actriz e o universo cinematográfico por exemplo). Aliás The Straight Story é de alguma forma uma obra à parte na filmografia do Lynch - o seu único filme straight (no sentido de linear - como o percurso do velhote) como o nome indica.

Se devesse ser imparcial diria que considero o belissimo Mulholland Drive o melhor filme de Lynch, o mais bem construído (genial, a ideia da inversão final dos papeis), o mais bem filmado, o mais "aperfeiçoado"... no entanto no que toca às minhas obsessões privadas a minha preferência vai para Blue Velvet - que também não mencionei - e para INLAND EMPIRE.

Mas também adoro um filme mal-amado como Dune... Já o filme Twin Peaks (a série é dos nineties, hein) e Lost Highway me deixam ligeiramente mais céptico. Quanto a mim são mais obras de arte contemporânea do que "filmes"... e por isso tenho mais dificuldade para os avaliar.

Mas é certo que na obra pluridisciplinar de Lynch - realizador mas também músico, fotógrafo, pintor, escultor... - a fronteira que separa o cinema do museu é por vezes subtil.

A propósito, atordoado com INLAND EMPIRE, esqueci-me completamente de mencionar uma das razões que me levaram a escrever este texto: vou a Paris no dia 3 de Março para a grande exposição LYNCH - THE AIR IS ON FIRE que começa na Fundação Cartier e que decorrerá até 27 de Maio (http://www.fondation.cartier.fr/). Talvez tenha aqui oportunidade (se me pedirem, não é? :razz:) de fazer um relato da mesma para os fãs que lá não poderem ir.


De mouseland a 27 de Fevereiro de 2007 às 13:58
Hello Raf,

Um comment rápido só para dizer que está já feito o pedido para escreveres no dia 4 um texto sobre a exposição. Estou roída de inveja! Ai que nervos... na fundação cartier... ai... deve ser boa de certeza. Olha é daqui a uns dias, rápido começa a investigar!

xxx mouse


De Woomer a 7 de Fevereiro de 2010 às 16:46
great post! thanks...


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