Quarta-feira, 7 de Março de 2007
“MIÚDOS DO CAOS”_CONTROLO DE AUDIÊNCIAS
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O blog obvious levou-me a reflectir sobre um artigo curioso que saiu no New York Magazine sobre crianças, a internet e o fim da privacidade: “Kids, the Internet, and the End of Privacy: the Greatest Generation Gap since the Rock and Roll”. O artigo aponta algumas mudanças estruturais na forma de lidar com a vigilância. Os “miúdos do caos”, expressão cunhada por Douglas Rushkoff em Screenagers: What We Can Learn from Digital Kids, exploram e aceitam o controlo imposto pela monitorização e imobilização das redes de câmaras digitais adoptando audiências e mecanismos de adaptação a estes dispositivos. Como afirmou Steven Jonshon: “As ferramentas como o Google realizaram o sonho original das máquinas digitais se tornarem extensões da nossa memória, mas os novos aplicativos de rede social fizeram algo que os visionários jamais imaginaram: ampliaram as habilidades do nosso povo, expandindo as nossas redes sociais e criando novas possibilidades para estranhos compartilharem ideias e experiências” (Johnson; 2005: 99).

Os blogs ou “diários íntimos públicos” funcionam como depósitos de memórias vivas de uma juventude que cresceu habituada à exposição dos seus desejos. As câmaras fotográficas e a manipulação configurativa dos espaços na rede permitem ao adolescente depositar as suas experiências sem qualquer mediação e assim “adquirir uma voz” pública, uma audiência específica dos seus feitos. As mudanças apontadas no artigo do New York Magazine são evidentes e incompreensíveis para uma geração que não cresceu com as mesmas capacidades configurativas. Assim, os “miúdos do caos” pensam em si como escritores com audiência, arquivaram a sua adolescência em bases de dados intermináveis e sempre disponíveis, a sua pele é mais fina do que a nossa e resiste às amarguras da exposição mesmo quando esta implica pornografia.

Os “miúdos do caos” transformam-se a si próprios em imagens (data-image) pixelizadas numa narrativa imediata e documental sem precedentes. A base de dados, questiona Sean Cubitt, transforma a pessoa numa data-image, numa versão estatística coerente do Eu humano confuso. Isto é uma forma de aumentar o poder, na versão da vigilância policial das minorias étnicas, pois este procedimento inscreve a identidade. Ao mesmo tempo, se esta tendência não é responsável pela amputação da totalidade do indivíduo, pela sua repressão, ou alteração através de uma ordem social específica, é uma fabricação do indivíduo de acordo com um conjunto de técnicas, forças e corpos. Assim, teremos que nos questionar se não é a data-image responsável por uma redução do Eu real à mera escrita, não será, no entanto, a constituição de um novo Eu estatístico e distribuído? Um Eu desconstruído, totalmente textual e possível de reescrita num novo ficheiro? É esta mercadoria de reescrita uma janela para a liberdade ou antes uma forma de manipulação que nos torna mais previsíveis (Cubitt, 1998; 20)?

Eu não quero de todo prescrever estados determinísticos em relação ao futuro da geração blogger mas antes identificar topografias e lugares de actuação, alinhando com Derrick de Kerckhove quando este diz: “mas a sugestão de Stockhausen não é que fiquemos satisfeitos por a televisão levar os nossos olhos ao fim do Planeta, ou que nos maravilhemos com a forma como o telefone nos traz vozes de longe, ou que aprendamos a tocar nos ecrãs e em texturas virtuais. O que ele recomenda é que deixemos os nossos sentidos ensinar--nos a ser novas pessoas, mais bem ajustadas às dimensões reais de uma humanidade que se prolonga para além do alcance dos nossos sentidos naturais. A tarefa do artista que aborda os novos meios e novas máquinas não é louvar ou condenar a tecnologia, mas fazer a ponte entre a tecnologia e a psicologia. (...) Sentir mais é o mais importante. (...) A pele como dispositivo de comunicação e não de protecção faz todo o sentido. (...) As artes interactivas e a proliferação de interfaces sensoriais podem fazer-nos perceber que usamos as nossas mentes e corpos prolongados como mecanismos de afinação para ir verificando o estado de saúde da Terra” (Kerckhove; 1997: 126-29). E a verdade é que estes miúdos há muito tempo perceberam que as narrativas que advogam retornos à privacidade e ao segredo mais não fazem do que poupar os indivíduos de forma paternalista das sinuosidades do terreno em que estes se movem. Como snowboarders, numa negociação com o terreno sulcado e a pique, os “miúdos do caos” testam o mosaico das suas identidades em versões melhoradas através do software de manipulação digital. Antes de julgar devemos talvez tentar perceber o mundo em que vivemos.


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