Quarta-feira, 25 de Julho de 2007
CROMOSSOMA XX
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Dois livros interessantes que tive oportunidade de ler recentemente. Um deles acabou de sair em França em Junho, de nome No Kids, Quarante raisons de ne pas avoir d’enfant (2006) e é da autora suiça Corinne Maier. O outro é mais antigo, já está traduzido em Portugal, chama-se Mulher, uma geografia íntima (2001) e é da americana Natalie Angier

Em No Kids… Corinne Maier levanta inúmeras questões sobre a pressão social imposta às mulheres em relação à maternidade e a autora mostra-se bastante “irritada” com o surto de nascimentos que têm lugar actualmente em França. Mãe de dois filhos, Corinne Maier, psicanalista e economista de 43 anos, considera, em entrevista ao jornal timeonline, que: “Em França as pessoas glorificam a maternidade e não têm abertura para um diálogo que questione a dificuldade de educar crianças. Pensei que seria divertido reflectir sobre o mito que procriar é maravilhoso”. A sociedade francesa, segundo Maier, exerce uma coação evidente sobre as mulheres para que estas sejam mães e acaba por promover a ideia de que qualquer mulher que não se rege pelos paradigmas comuns é uma dissidente, egoísta, neurótica, obcecada pela carreira ou uma lésbica… o maravilhoso mundo da maternidade é questionado em todas as suas facetas através de quarenta razões que podem levar a mulher a questionar a sua vontade de contribuir para a alienação vigente. Poucas mulheres na história ocidental são aquelas que não sucumbiram às agruras da biologia determinista e que contrariaram a vontade pela procriação imposta pela sociedade. Poucas (mesmo que cada vez sejam mais) são também as mulheres que deixam rasto na história das letras e da cultura ocidental e muitas destas tiveram que prescindir do elixir mágico da biologia: Hannah Arendt, Simone de Beauvoir são alguns exemplos dados pela autora. Não perder as considerações de Corinne Maier sobre a actual sobrevalorização da criança e menosprezo dos jovens aqui!

hannah_arendt.jpg

woman.jpg

O livro Mulher, uma geografia íntima de Natalie Angier é uma viagem pelo corpo humano no feminino que questiona e desmistifica muitas concepções que ignoram a natureza íntima e biológica imposta pelo sexo como natureza e pelo género como produto da cultura. Uma reflexão pelos discursos masculinos sobre a mulher e a forma desta pensar e agir que nos transporta para dentro do corpo biológico gerado pelo cromossoma X. Genes, hormonas, órgãos e muitas comparações com o corpo animal tornam esta uma leitura aliciante, por vezes, angustiante... quando a autora descreve operações e pormenores cirúrgicos detalhados como, por exemplo, a intervenção médica numa dadora de óvulos ou a histerectomia fiquei quase com vontade de vomitar. Um livro imprescindível para quem gosta de conhecer as entranhas do corpo biológico e contestar muitas construções sociais impostas a partir deste. Natalie Angier remete-nos para um conjunto de textos e investigações sobre a geografia feminina, critica alguns autores (Desmond Morris é uma das vítimas) que proferem enormidades sobre a vontade e o desejo das mulheres e desmonta até discursos de feministas (Camille Paglia é uma delas) e afirmações de cantoras como Björk que denotam uma cegueira evidente em relação às conquistas e ao lugar das mulheres na sociedade actual. O livro alerta para o perigo de considerarmos que a mulher é hoje em dia equiparada ao homem quando todas as estatísticas afirmam  o contrário: salários muito menores, regalias e postos de trabalho muito inferiores, etc. etc...


Duas leituras fascinantes que vêm dar voz à causa da mulher no século XXI!


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