Domingo, 9 de Setembro de 2007
BEIJING (PEQUIM)_AGOSTO 07_DIM SUM!
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Beijing é surpreendente, com uma escala monumental, o plano urbanístico da cidade em forma de “T” invertido denuncia uma capacidade de planeamento assinalável tendo em conta os vários milhões de habitantes (mais ou menos 18 milhões mais um número largo de população volante). A cidade sofre uma transformação acelerada para os Jogos Olímpicos de 2008. Além das obras relativas ao evento a metrópole está em ebulição arquitectónica, edifícios fabulosos crescem a uma velocidade estonteante. Uma visita ao distrito de Chaoyang é suficiente para nos apercebermos das potencialidades dos projectos em curso. É difícil andar a pé menos do que alguns quilómetros pois as distâncias são imensas e quando pensamos que é um instante podemos ser surpreendidos. Nas ruas as bicicletas são progressivamente substituídas por carros e os chineses orgulhosos adaptam-se ao ritmo ocidental numa escalada em direcção à economia de mercado plena. Iniciada na década de noventa, com Deng Xiaoping, a reforma da economia chinesa apresenta inúmeros contrastes entre a riqueza dos núcleos urbanos e a pobreza do campo. Nas cidades, o crescimento dos espaços de consumo e os centros comerciais para massas coabitam com a consciência da persistente exploração nas fábricas e nas zonas industriais de trabalhadores que, segundo algumas testemunhas (Caeiro, 2004, Rampini, 2007), vivem ao nível da escravatura.

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Uma visita à cidade proibida é obrigatória mesmo que essa visita implique mergulhar entre milhares de turistas de máquina fotográfica na mão. Inúmeros estudantes (se é que são estudantes..?) se oferecem para visitar a cidade proibida em companhia dos estrangeiros. A forma de abordagem é igual para todos, do tipo cassete: “Hello, I’m a student from Beijing University and I want to practice my english…” Depois de algum tempo o discurso de propaganda começa e os vários privilégios que o governo da China oferece a estes estudantes são enunciados: viagens, intercâmbios, educação especializada. Fica-se na dúvida se estes jovens querem vender qualquer coisa pois mais à frente convidam o turista a ir espreitar uma exposição de arte. Podem apresentar-se como estudantes de história de arte e é possível ouvi-los em estéreo se os turistas visados forem, por exemplo, um casal. Neste caso, dois estudantes ao lado de cada elemento do casal vendem esta estratégia cómica e afável. Fica-se sem perceber a intenção mas o discurso é sui generis.

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No mesmo registo turístico uma ida ao templo do céu é fundamental. Os chineses escolhem o parque do templo para praticarem canções, jogos variados e danças. A animação é constante e mesmo debaixo de trinta graus e um calor abrasivo as suas práticas de lazer não abrandam.

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Depois, há a Commune by the great wall, uma experiência imprescindível para visualizar a muralha da China de forma privada e mais pacata. Para quem aprecia arquitectura e deseja conhecer o que se faz pela Ásia nesta matéria a Commune by the great wall é um lugar mágico. O empreendimento conta com um conjunto de casas concebidas por diversos arquitectos de Taiwan (Chien Hsueh-Yi), Hong Kong (Gary Chang e Rocco Yim), Mainland China (Cui Kai e Yung Ho Chang), Japão (Shigeru Ban, Kengo Kuma e Nobuaki Furuya), Singapura (Kai Ngee Tan), Tailândia (Kanika R’kul), Coreia do Sul (Seung H-Sang) e Antonio Ochoa (nascido na Venezuela). As casas são mobiladas por diversos designers de equipamento como Jonas Damon, Kaname Okajima, Alex Strub, Von Robinson, Cladio Colucci, entre outros. Uma montanha mágica que afecta o corpo e o espírito e que me fez sentir como o Hans Castorp no sanatório do livro de Thomas Man. Uma casa na floresta para matar o cansaço e chamar o tédio, longe do smog das cidades, com um vislumbre sobre a vista de Badaling.

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A poluição de Pequim é o único sinal menos positivo sobre a cidade e certamente que se Mao Zedong pudesse hoje ver as transformações na China ficava inquieto e surpreendido. Os chineses cospem menos e até já começaram a encomendar chuva para não ficarem dependentes das condições meteorológicas e para tentarem combater a poluição, fruto de uma indústria que assenta à base do carvão. A liberdade de expressão ainda é uma miragem mas a pouco e pouco as notícias chegam a Hong Kong e daí seguem para o resto do mundo. Beijing é um lugar para se viver bem e os milionários da "aldeia global" já começaram a comprar casa a partir dos projectos para as recentes transformações na área dos hutongs (bairros populares). Isto, claro, enquanto a população destes continua a ser empurrada para a periferia da cidade por módicas quantias de pouco mais de duzentos euros. Enquanto uns são despejados os colossos da construção ganham fortunas a vender lotes a milionários. As contradições são imensas e algures há sempre alguém que é escravizado.

Para o visitante Pequim é Dim Sum (especialidade culinária), ou seja, comida para a alma, um "toque de coração" ou "pequeno coração" no meio da China.


13 comentários:
De rafgouv a 10 de Setembro de 2007 às 09:14
:mrgreen::mrgreen: Olá! Estou satisfeitissimo por poder de novo dar asas às minhas "diatribes"!!

:shock: Então a "poluição", "único sinal menos positivo", é mais grave do que a expropriação e escravatura de milhares (milhões???) de trabalhadores, e isto num país dito "comunista"????

:lol: Quanto às cuspidelas, parece que de facto os chineses cospem menos mas a má notícia é que os ocidentais, e os europeus em particular, cospem cada vez mais!!! Segundo recentes boletins de saúde, a juventude europeia não foi educada para saber que cuspir a torto e a direito não é uma simples regra de etiqueta mas uma elementar regra de higiene graças à qual muitas doenças foram juguladas...

BOM REGRESSO!! xxx


De mouseland a 10 de Setembro de 2007 às 11:10
:mrgreen: hey hello,

A nota mesmo positiva refere-se à vivência em Pequim a partir do olhar do turista ou do viajante temporário e a escravatura refere-se essencialmente à exploração nos campos. Acho que está claro. Não existe qualquer tentativa de comparação entre poluição em Pequim e escravatura na China. O que está assinalado em Pequim é a forma desumana como as pessoas são desalojadas das suas casas por poucos tostões para outros ganharem dinheiro com esse facto mas esse aspecto não é evidente para o turista. Apenas depois de alguma investigação mais detalhada se torna claro que isto acontece, nomeadamente depois de se ver a exposição do "City Planning" da cidade a qual falarei mais à frente.

Quanto às cuspidelas basta ver um jogo de futebol na televisão para saber que voltam em força no Ocidente. Eu por mim multava os jogadores que o fizessem em público, para as câmaras.

xxx mouse


De rafgouv a 10 de Setembro de 2007 às 11:59
:mrgreen:
:shock:
:lol: MDR!
Digamos que a retórica diplomática do "menos positivo" é por si só sintomática da atitude tolerante que tanta gente adopta face às manifestas desumanidades do regime de Pequim (que moda é essa do Beijing???).
Ninguém hesitaria em qualificar de "negativo", "extremamente negativo" ou mesmo de "praticamente demoníaco" o desprezo dos industriais americanos (ou de qualquer outro país ocidental) em relação a qualquer destes temas (exploração, expropriação, poluição, etc., etc.).
Penso que de facto um turista não é obrigado a ter tais assuntos em consideração mas se os quer ver e tratar, então que o faça de olhos abertos e com toda a impiedade.


De laca a 10 de Setembro de 2007 às 19:38
BOA! ...de volta ao trabalho:mrgreen:


De mouseland a 10 de Setembro de 2007 às 20:03
wow..... rafgouv voltas em grande!:cool::mrgreen::wink:

Olha que eu depois do que andei a ler teria algum cuidado em colar essas situações à conivência ocidental e teria mais cuidado em analisar a implicação dos chineses nessas histórias... hum... um amigo meu advogado, que trabalha há catorze anos para o governo chinês, acha mesmo que as multinacionais não têm qualquer responsabilidade legal pelo que os chineses fazem uns aos outros nas fábricas.

Esse olhar que pedes ao turista/viajante é demasiado ingénuo uma vez que sabemos que os viajantes vêem o que os deixam ver. E neste caso o que o PCC quer que eles vejam. Eu há muitos anos que me interesso pela história chinesa (e.g. soong sisters) pelo que sei muito bem do que eles são capazes. Mas a questão que me surpreendeu depois do que li desta vez é que são mesmo impiedosos e maus uns com os outros. Uma coisa que não dá para nós ocidentais compreendermos, parece-me. Claro que há excepções mas por todo o país há expatriados por "tuta e meia".

hello Laca,
Tinha que voltar ao activo.

xxx mouse


De mouseland a 10 de Setembro de 2007 às 20:40
:mrgreen::mrgreen::mrgreen: A história de Beijing também me enerva um bocado mas repara no logótipo dos jogos olímpicos, hehehe. Toda a gente se refere a Pequim assim agora!!! Temos que acompanhar os tempos mesmo que se trate de moda, hehehe, todos os jornais e revistas falavam de Beijing em Agosto passado.

A desumanidade do governo de Pequim arrasta-se desde que Sun Yat-sen morreu em 1925... a quem ache que terá que ser qualquer coisa do tipo de Singapura mas, segundo dizem, a democracia ali nunca funcionará, ao contrário, por exemplo, da Índia… eu não sei o que pensar.

xxx mouse


De rafgouv a 11 de Setembro de 2007 às 08:36
:shock:
Mousinha,
O que escrevi é incompreensível?
É precisamente porque "as multinacionais não têm qualquer responsabilidade legal pelo que os chineses fazem uns aos outros nas fábricas" (embora não seja em termos legais - é sabido que a lei chinesa não exclui o trabalho infantil, por exemplo - mas sobretudo em termos morais que a questão se me coloca) que noto a desproporção das criticazinhas feitas aos chineses (a tal retórica do "menos positivo") comparadas com os furiosos ataques desprovidos de nuance feitos aos estados e empresas ocidentais... Capice??

:lol:
Fico contente por saber que te cruzaste com alguns chinocas mais maldosos e impiedosos. Que alívio! Depois de ler o texto tinha a impressão de que se tratava de um país que caminhava em uníssono na direcção de amanhãs radiosos de progresso e fraternidade. Afinal não há só coisas "menos positivas" mas até viste mesmo algumas negativas... Ufa!

:smile:
Beijing é a transcrição inglesa de Pequim... Daí o aparecer nos logotipos... Em português é que me parece ligeiramente parolo... Viva Nova Iorque, abaixo New York!!!


De mouseland a 11 de Setembro de 2007 às 09:41
:mrgreen::mrgreen::mrgreen:

Mas repara que eu não "meto" o Ocidente ao barulho. Aliás acho que como fábrica e patrocinador monetário dos luxos dos americanos, os chineses, há quase um século que controlam, na sombra, é certo, os americanos. Quanto à Europa a negociata da Boeing é bem sintomática da vontade que têm em superar a nossa tecnologia. Pela primeira vez os aviões são elaborados fora do território europeu. São os chineses, com uma economia florescente, que controlam neste momento o rumo ocidental e muito possivelmente serão a grande potência do século XXI...

Os chineses têm uma história complicada (parece que finalmente a tentam exorcizar) e até começo a achar natural que sejam tão obedientes e cumpridores da lei. Sucessivas guerras do ópio com os ingleses, massacre de Naking (Nanjing) que os japoneses tentam persistentemente ignorar nos seus manuais de história... isto acrescido dos piores horrores da Revolução Cultural Chinesa de 1949... a regra é fazer o mesmo sem qualquer criatividade pois o gesto maquínico implica um esvaziamento total do "eu". Uma coisa me pareceu, são de uma tolerância inacreditável, o que só se explica pela necessidade que têm de viver “uns em cima dos outros”.

Claro que Beijing é a tradução inglesa de Pequim mas porque é que as revistas e os jornais portugueses e franceses optam pela versão em inglês? Será que é por uma vontade de alinhamento com o espírito dos jogos?

xxx mouse


De rafgouv a 11 de Setembro de 2007 às 10:31
:neutral:
Bom mouse, não vou entrar nos detalhes (revolução CULTURAL em 1949??? aviões construídos pela 1a vez fora do território "europeu" pela Boeing???) mas queria apenas precisar que a referência à desproporção entre o tom adoptado para criticar os ocidentais e os chineses não te era dirigida.
Apenas referi tal porque achei demasiado branda a forma como abordaste as inúmeras e graves questões suscitadas pela China e pelo seu desenvolvimento exponencial.

:mrgreen: Porque é que os jornais portugueses preferem Beijing a Pequim? Por purissimo parolismo! Se for caso disso, qualquer dia também hão-de escrever Macow em vez de Macau.


De mouseland a 11 de Setembro de 2007 às 11:52
:mrgreen::mrgreen::mrgreen:

Vejo que estás atento aos meus lapsos matinais. Quando disse Boeing queria, claro, dizer Airbus com sede em França (consórcio Franco-Alemão) e que perdeu para a Boeing a negociata com os chineses. Em relação à Revolução Cultural de Mao é claro que foi em 1966 e nem sei porque coloquei esta data mas acho que sou obcecada pelo líder nacionalista Chiang Kai-shek... daí que tenha trocado as datas da Revolução Nacionalista pela Revolução Cultural. Não devia escrever nada antes do meio-dia, hehehe. De qualquer forma é essa a data em que Máo Zédōng salta para o poder.

xxx mouse


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