Terça-feira, 18 de Março de 2008
SIEGFRIED ZIELINSKI_”A ARTE ANTES E DEPOIS DOS MEIOS”
siegfried_zielinski.jpg

Fui no dia 14 de Março ao Centro Cultural de Belém ver e ouvir Siegfried Zielinski, professor e investigador alemão bastante conhecido pelo seu trabalho como arqueólogo dos media. A conferência recebeu o título “A arte antes e depois dos meios” e o autor foi apresentado por Manuel Gomes Pinto.

Embora tenha gostado de ir ver Siegfried Zielinski pois tinha alguma curiosidade em ouvir uma lecture do mestre fiquei algo desiludida. Zielinski apresentou uma classificação em três momentos, algo generalista, sobre a “física da arte”. Esta classificação resume-se a três instâncias, mundo real (4D), arquitectura e escultura (3D), pintura e imagem (2D), e baseia-se no projecto de Johann Wilhelm Ritter. Assim, o autor desenvolveu algumas relações entre a arte da memória (sempre uma imagem pois tudo o que está em imagem é memória) com a ciência e a tecnologia. As diferentes frequências (para Ritter era tudo uma questão de frequência) e a electricidade permitem, afirmou Zielinski, a experiência do tempo. Com a experiência do tempo apareceram formas de arte baseadas no tempo, o cinema e a fotografia. Até aqui tudo evidências.

Seguiu-se a definição de Media Art através de um quadro em acetato (art before media, art with media, art througt media e art after media). Este quadro serviu para argumentar que os media são uma invenção do século XX criada por Marshall McLuhan através da máxima “every medium is the massage”. A partir daqui comecei a achar o discurso mais estranho pois embora a ideia até seja interessante esperar-se-ia que algum conceito viesse substituir aquilo que McLuhan classificou para compreender. A adopção do termo medium que Marshall McLuhan propôs para explicar as diferentes tecnologias (da roda ao livro e por aí em diante) é, como qualquer classificação, simplista pois, como me parece evidente, temos tendência para classificar para assim conhecer as coisas mas ao classificar fazemos reduções. Mas não é igualmente simplista a proposta das três instâncias de Siegfried Zielinski? Não são hoje as práticas criativas muito mais complexas do que o quadro apresentado faz supor?

painstation1.jpg

painstation.jpg

A partir destas premissas o autor sugeriu um momento futuro em que uma suposta art after media prescinde da tecnologia como discurso e adopta mecanismos de crítica e reflexão em relação à sociedade contemporânea. Wow! Foi dado o exemplo já aqui discutido da PainStation e outros mas penso que o problema reside precisamente em procurar o Wally no sítio errado, ou seja, nos exemplos que partem precisamente da continuação de um discurso reificador que impõe às artes tecnológicas os mecanismos e práticas das artes tradicionais. O autor alemão reflecte somente a partir de obras que desmontam outras obras (performances que desmontam jogos e personagens mainstream) e nunca se lança na identificação do que é realmente diferente nos media digitais. Nem percebo como, mesmo contrariando o pensamento de McLuhan, se pode considerar que existe uma arte antes dos meios.


No final da primeira década do século XXI não posso deixar de considerar surpreendente este movimento crítico de Siegfried Zielinski mas não me convenceu de todo. Depois afirmações como: “a invenção da internet foi um playground ao pé de Hiroshima e Nagasaki” são para mim incompreensíveis. Só um alemão para afirmar uma coisa destas pois sinceramente não entendi o contexto para além da referência histórica. Achei o senhor muito formatado por um discurso europeu que em nada tem contribuído para refrescar o estado das coisas em matéria artística mas essa é a minha opinião.


9 comentários:
De rafgouv a 19 de Março de 2008 às 09:22
:mrgreen::mrgreen:

Mouse,
Achei bastante delicioso este texto, cheio de má fé como às vezes convém. Denota uma opinião pessoal, sentido crítico, o que é sempre preferível ao debitar de chavões pescados sabe-se lá onde, lol.
Só um reparo revelador dessa má fé:

Zielinsky não fala de "arte antes dos meios" mas de "arte antes dos media"... A má fé da tua tradução chega de facto para tornar totalmente absurdo o discurso de Zielinski.
Acho um pouco anacrónicas também essas referências a um pensamento "europeu" que não existe pura e simplesmente no mundo da Universidade Global: Zielinski é sem dúvida mais venerado nos USA do que na Europa...


De mouseland a 19 de Março de 2008 às 13:40
:???: Ai é? Então fala depois de investigares como se chamava a conferência porque a tradução não é minha e lá tradutor és tu: http://artestecnologicas.ulusofona.pt/. Entretanto podes deixar de me chatear com preciosismos destes pois estás sempre a distorcer o que vem nos textos. Essa da Universidade Global acho hilariante ou pensas que com a idade dele a globalização foi estruturante? Quanto ao facto de ser mais venerado aqui ou ali opá sinceramente a partir de agora nem respondo a este tipo de provocações. xxx mouse


De rafgouv a 19 de Março de 2008 às 13:52
:mrgreen::mrgreen:
Despertar difícil?
Eu tinha percebido que a "tradução" era o titulo da conferência... mas é essa tradução que torna totalmente absurdo o pensamento do homem e não exactamente o que ele diz... e que tu tb percebes (se é que ele falou em inglês e não em alemão).

Quanto a essa história da globalização: claro que a Universidade, como aliás a "cultura", se globalizou há já algumas décadas, muito antes da economia...
Se eu disser que o que escreves ou o que pensas é típico de um pensamento luso ou de uma vivência alfacinha imagino que tb não te agradasse... mas além de te desagradar, será que tinha algum sentido palpável, definível?

Quanto aos preciosismos: é verdade, sou um preciosista em tudo o que toca à expressão escrita, ou um picuinhas se preferires. Desde que não me chames "precioso ridículo"...
:oops:


De sampas a 19 de Março de 2008 às 14:10
:twisted: Esse discurso dos efeitos da globalização como generalização faz-me lembrar alguns tiques do multiculturalismo ou minimizações do feminismo. Que o local continua a influenciar totalmente o indivíduo, que o racismo existe e é evidente no discurso do multiculturalismo apenas porque minimiza a capacidade discursiva ou que as mulheres continuam hoje a ser exploradas são evidências que muitos preferem não ver para continuar debaixo de cinturões conceptuais. Essa da universidade globalizada há já décadas é outra generalização que serve a quem assim o deseja. Saudações, Sampas


De rafgouv a 19 de Março de 2008 às 14:38
:mrgreen::mrgreen:
Viva Sampas,
Depreendo que estás no Chiapas pois a comunicação está cheia de ruído. Não percebo nada do que dizes mas não é grave porque tb não percebes nada do que eu digo.
Sabes, não tenho a pretensão de inventar a pólvora por isso limito-me muitas vezes a dizer coisas evidentes mas que pelos vistos escapam totalmente à mente conceptual da nossa alberguista.
Assim, aquilo a que chamo Universidade Global existe desde que os meios de transporte o permitiram, desde que os catedráticos e outros especialistas começaram a frequentar congressos e simpósios mundiais e desde que começaram também com muito mais frequência a fazer parte dos corpos docentes de universidades que não são as dos seus países natais.
A generalização desse fenómeno ocorreu pouco antes da 2a Guerra Mundial por razões tristes mas óbvias.
Hoje em dia, por triste que pareça, o reconhecimento de qualquer investigador que almeje a um reconhecimento mundial passa pelos Estados Unidos e há fortes chances, por mais injusto que isto possa ser, que sem esse reconhecimento nunca será realmente valorizado na Europa.
O fenómeno oposto (reconhecimento europeu prévio para cabeças americanas) também sucedia com bastante frequência até aos anos 60-70 mas sobretudo para artistas pop (literatura, cinema, música...) agora parece-me que cada vez menos (se tens exemplos, não hesites, Sampas).
Agora as generalizações abusivas, o sexismo e o racismo em tudo isto???? Se continuo a coçar a cabeça arrisco-me a ficar lesionado por isso acho que vou parar.


De sampas a 19 de Março de 2008 às 16:55
:shock: Exemplos não faltam: investiga a repercussão que um Lev Manovich teve na Europa e compara com o número de confs. e publicações nos EUA. Se calhar é porque é russo, não? Escusas de imprimir tanta emotividade ao debate e poupa a cabeça que a realidade não é assim tão singela. Saudações, sampas


De mouseland a 19 de Março de 2008 às 17:48
:mrgreen::twisted::cool: Que conversa de pé de orelha. Apenas quero salientar que não me parece que seja esta a matéria do post e entretanto aproveitar para clarificar que não me parece falta de rigor dizer que uma pessoa tem um discurso formatado pelo sitio onde nasceu, nem falta de rigor nem de realismo. Também quero deixar claro que não tenho nada contra formulações com as quais não concordo, aliás este blog é disso um bom exemplo apenas exprimo opiniões pessoais, à laia de diário, para as ir processando. xxx mouse


De Mestre Cuco a 19 de Março de 2008 às 20:59
:razz:
Filha,
Tem toda a razão. Somos formatados por muitas coisas, entre as quais o bairro, a cidade ou o país em que vivemos. Também não duvido que a cultura europeia seja em muitos aspectos diferente da americana, mas um "pensamento europeu"?Acha que também existe um pensamento da Mouraria? De Chelas? Da Escola n°127? Da Faculdade de Coimbra? Do Ohio? Da Catalunha? Ou apenas das grandes entidades entidades territoriais como os continentes?


De mouseland a 19 de Março de 2008 às 21:44
:sad: :neutral::cool: lamento filho, mas acho que se poderá dedicar a responder a essa questão, que tão bem sabe formular, numas 400 páginas para a editora local do bairro onde vive. Eu, filho, não vou responder a questões tão mal formuladas ou traiçoeiras. Ok? xxx mouse


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