Domingo, 6 de Julho de 2008
“O SEGREDO DE UM CUSCUZ”, DEMASIADO REALISMO PARA UMA SEXTA-FEIRA

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O segredo de um Cuscuz ou La Graine et le Mulet (Abdellatif Kechiche, 2007) é o terceiro filme do cineasta, actor e escritor Abdellatif Kechiche que nasceu na Tunísia em 1960. Devo admitir que, depois de ler algumas criticas muito favoráveis a este documento e de ter sido coagida a ver o mesmo por ouvir opiniões muito positivas de pessoas que considero, achei o filme deprimente, com falta de ritmo e demasiado “realista para uma noite de sexta-feira”. Passo a explicar o conjunto de ocorrências que me levam a suspeitar das óptimas intenções de O segredo de um Cuscuz. Estava exausta quando fui, sexta-feira dia 27 de Junho, ao cinema Monumental ver o filme. Depois de uma semana, muitas semanas, meses de muito cansaço acumulado ir ao cinema era o melhor que podia fazer para esquecer por duas, três horas, o volume de trabalho dos últimos meses. Neste contexto, criei a ficção que ia ver um filme sobre um homem de sessenta anos que, confrontado com uma situação de desemprego, decide criar um restaurante de cuscuz. Satisfeita pela perspectiva de ver um bom filme francês, amplamente aconselhado, criei expectativas em relação a esta obra cinematográfica sobre a vida do senhor Beiji.

Ora, qual não foi o meu espanto quando ao fim de uns quarenta minutos me comecei a sentir cansada de ouvir tanta berraria e histeria, o meu parceiro, ao meu lado, mexia-se e contorcia-se na cadeira (que é longe de ser confortável) e os grandes planos de comida entre os dentes e a novela da vida real em Sète sucediam-se sem que as imagens e as personagens me conseguissem envolver totalmente. Comecei a sentir que tinha escolhido mal o filme e que me apetecia estar numa comédia. Comecei a sentir que naquele dia uma obra de ficção teria sido mais apropriada e não foi sem constrangimento que deparei que me sentia incapacitada para tanto realismo. Só me vinha à cabeça a frase de Carol Connelly (Helen Hunt) em Melhor é Impossível (As Good as it Gets, James L. Brooks, 1997): “é demasiado realismo para uma sexta-feira à noite”. Ou aquele miúdo que chega ao pé da professora de português com um livro de Alves Redol e lhe pede para ler outro livro porque misérias daquelas vive ele o tempo todo. No caminho, a pé para o cinema Monumental, as ruas estavam sujas de caca de cão, pessoas sem abrigo por todo o lado no centro de Lisboa. Os edifícios entre a Alameda e o Saldanha estão a escamar tanto como as janelas do hotel decadente onde Slimane vive. A crise nacional e as mesquinhas relações humanas em Portugal entre a burguesia acomodada, a juventude precária e os imigrantes explorados, pareceram-me um espelho daquelas relações complexas entre a comunidade imigrante árabe e a elite francesa. Demasiado próximo, demasiado real, principalmente para uma sexta-feira à noite.

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Uma situação destas acontece raramente mas em 1999 aconteceu-me o mesmo com Happiness de Todd Solondz (1998). Nunca mais me esqueci mas os acontecimentos da vida real na altura, mais complexos do que o mero cansaço de dia 27, tornaram o filme de tal forma intolerável que não consegui apreciar a obra. Desta vez tentei. Tentei e comecei a sentir uma certa afeição pela indiferença de Slimane e pela sua filha adoptiva (uma excelente actriz!) mas conforme a narrativa progredia a sensação de enfado era recorrente. Tentei, sem dúvida para não ter que mais tarde confessar que não tinha apreciado O segredo de um Cuscuz. Queria à força encontrar alguma coisa que me fizesse acreditar que estava perante um filme especial. Encontrei a conversa dos homens no café sobre o romance de Slimane. Encontrei o diálogo entre mãe e filha quando os argumentos da filha convencem a mãe a ir à festa. De resto, demasiado deprimente. A perseguição infindável de Slimane para tentar recuperar a sua moto e a dança do ventre aumentaram ainda mais os meus nervos
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18 comentários:
De rafgouv a 6 de Julho de 2008 às 21:33
:mrgreen: Depois deste testemunho deliciosamente dondoca (sim, com tanto cansaço mais valia ver a novela das 8 ou o Iron Man mas para quê fatigar-se a escrever este texto???), não resisto a deixar o meu:

Há filmes assim, filmes que partem de coisas aparentemente pequenas, sem importância, que falam de gente banal, de pecadilhos e acções singelas... Filmes desses há milhares e muitas vezes são franceses ou italianos ou influenciados por franceses ou italianos... Normalmente torço o nariz. Mas felizmente há tipos como o tal Abdellatif Khechiche que sabem meter o mundo num caldeirão, que sabem transformar uma refeição modesta numa odisseia, transformar um filme "realista" num espectáculo de comédia, drama e suspense e os nosso vizinhos em heróis trágicos. Neste cuscuz está tudo menos a "indiferença de Slimane": está o orgulho, a honra, a modéstia, a traição e o abandono, o comércio e a política, a fidelidade e o marketing, o riso e as lágrimas...
O filme termina-se com uma ENORME cena de suspense - uma das mais impressionantes dos últimos anos -, a tal cena da moto e da dança do ventre. Esse "morceau de bravoure" chega para desmentir o realismo deste filme suculento... Mas aposto que a nossa comentadora achou o filme "demasiado realista" e a tal cena monumental demasiado irrealista.
:grin:


De liandra meireles a 6 de Julho de 2008 às 22:17
Caro Rafgouv,

Penso que o seu comentário é no minimo de um conservadorismo moral, aquele que julga os sentimentos dos outros... Aqui ficam as sábias palavras de uma amiga espiritual: "“(...) a maioria da população sabe instintivamente que existem tantas realidades quanto o poder de quem fala sobre elas. Sabe também que o real, do jeito que está, é insuportável, donde quanto mais ficção, mais leve o fardo. Talvez a vida seja pior para quem não aprecia a ficção das velhas histórias. Talvez o ópio real seja mais danoso do que a ficção” (Rodrigues; 2004: 47). Também é coisa de dondoca? Assinado, Liandra Meireles, SP.


De mouseland a 6 de Julho de 2008 às 23:03
Hello Rafgouv,
Essa tentativa de minimizar a opinião dos "outros", neste caso da "outra", com a ideia do “testemunho deliciosamente dondoca” é realmente, no mínimo, digna de um macho-varão-masculino, hahahahaha. Nada a acrescentar. O problema está mesmo na banalidade.

Cara Liandra,
Bem-vinda à mouselândia e gostei muito de reler as palavras da Sónia Rodrigues, tão inovadoras, originais e femininas. Muito adequadas à polémica em cima, hihihihi. Obrigado, xxx mouse


De rafgouv a 7 de Julho de 2008 às 09:58
:mrgreen::mrgreen::mrgreen:
OK aceito e assumo o "conservadorismo moral" - dizer só moralismo não será equivalente?
É também por moralismo que acho totalmente ridículos os dondocas e as dondocas que desligam a TV no momento do telejornal porque "só dá más notícias"... confesso que a argumentação da fadiga e do excesso de real (para uma sexta-feira, atenção, dia de futebol, disco ou petiscada, ou seja, dia de entretenimento sagrado) nisso me fez pensar.

Ora essa apreciação parece-me tão mais injusta quanto este filme é um puro filme popular cujos parentes mais próximos são a telenovela (o lado coral, as intrigas familiares e de vizinhança) e o filme de assalto ou de evasão (o suspense consiste em saber se os elementos do dispositivo colectivo estarão a tempo e horas nos seus postos para cumprirem a sua parte da missão). Uma coisa é não gostarmos, outra coisa é deixar pensar que é cansativo ou enfadonho... epítetos que este filme modesto (e quanto a mim bem mais excitante e empolgante do que os Ocean 10, 11, 12 e 13 reunidos) não merece.

Quanto ao tal macho-varão-masculino, penso que foi o que aplaudiu a Tropa de Élite (comparar essa e esta apreciação causa-me forte crise de catarro). Eu, não!!!


De mouseland a 7 de Julho de 2008 às 12:25
:mrgreen::mrgreen::mrgreen:
Hello, Penso que acabaste por cair precisamente na ratoeira da fadiga aliás era talvez isso que eu queria, hehehe, e não estás a perceber que o problema não está no telejornal mas na novela. Achei o filme banal não por ser duro de roer mas pelo tédio. Não sou definitivamente fã daqueles movimentos de câmara e suspeito bastante do "teatro da vida real". Até fiquei em stress com a cena do panelão de cuscuz mas no geral senti-me frustrada por escolher aquele filme. Ora, é precisamente o que não aconteceu recentemente no maravilhoso “The Happening” ou no “O Escafandro e a Borboleta” que tive oportunidade de ver este fim-de-semana na televisão. Não um filme realista mas antes real talvez. A seu tempo sobre ele falarei. Acho que o que incomodou neste filme é essa intenção telenovelesca de passar um certo efeito de real. Mas são acima de tudo gostos. xxx mouse


De rafgouv a 7 de Julho de 2008 às 13:47
Numa época em que se comunica por tudo e por nada, não será "ecológico" poupar discursos sobre coisas que não nos tocam, que nos indiferem e que por isso não sabemos/ podemos apreciar?

O pior é quando essa indiferença aparece coberta de álibis no mínimo duvidosos no máximo altamente hipócritas: é certo que um filme de ficção científica (The Happening) ou um caleidoscópio de gimmicks visuais (O Escafandro) são sempre muito mais atractivos do que um filme com gente remediada e "com comida entre os dentes"... só falta vires dizer que é pouco intuitivo porque as crianças de 8 anos não curtem tanto como curtiram o Ratatouille (já que falas em ratoeiras).


De cris a 7 de Julho de 2008 às 17:31
:shock:mouse és uma "resistente", ou melhor; uma RESILIENTE!
saltinhos para Ti,,,até já... he!he!he! :grin::razz::lol::oops:


De liandra meireles a 8 de Julho de 2008 às 01:12
Caro Raf,

Realmente penso que conservadorismo se relaciona com uma posição política e filosófica que considera o "outro" sempre como algo temível enquanto que a moral está associada aos costumes, ao carácter e aos sentimentos. Basta você dar uma olhada na wikipédia para entender bem essa distinção. Agora você como atacante força em todos os sentidos, vem bolar de ingénuo com essa de hipocrisia e ratos misturados. Que coisa tão sem jeito.

Mouse, o moço é pilantra :twisted: :evil::???: mesmo. Cris, porque é que os sujeitos do sexo oposto estão sempre minimizando a movida feminina. Esse cara no minimo não sabe o que é dondoca, não? Liandra


De mouseland a 8 de Julho de 2008 às 13:28
:mrgreen::mrgreen::mrgreen: Rafgouv,
Falar sobre coisas que não nos tocam pode servir para falar de coisas que nos tocam. Ver a Avenida da Liberdade a arder na televisão é mais uma coisa que me toca ainda mais depois de ter referido a degradação evidente do centro da cidade... momentos como os do filme estão em todas as esquinas e tocam-nos ao ponto da imunidade. Mas eu sou, como diz a Cris, RESILIENTE e não me conformo com a decadência. Nunca disse que o filme não me tinha tocado mas antes que me tinha cansado, coisas diferentes, sejamos rigorosos.

:mrgreen::mrgreen::mrgreen::mrgreen: Liandra, o Rafgouv gosta de provocar um debate de ideias e, por vezes, é mais papista que o papa mas pilantra não me parece. É mais presunção de macho-latino mesmo, hihihihi, moralista de certa forma, mas nada de grave. Doença mais comum entre os homens, ao que me vou apercebendo, mas nem todos, felizmente! xxx mouse


De rafgouv a 8 de Julho de 2008 às 15:04
:mrgreen:
mouse, a forma como me defendeste face à Liandra tocou-me.

Quanto ao filme, não haverá um enorme malentendido? Não me parece que seja um filme sobre a decadência, sobre a pobreza ou sobre a imigração. Para uma visão bem mais naturalista (e miserabilista) de tais assuntos, terás As Promessas do Cronenberg...

O Segredo de um Cuscuz distingue-se quanto a mim pela forma descomplexada (ou integrada, se preferires) com que põe em cena uma família originária da imigração. Não vi no filme hoteis sórdidos ou ruas repletas de sujidade como pareces sugerir. Vi apenas gente modesta mas honrada, todos franceses, bem inseridos na sociedade, capazes até de se transformar em empresários de forma sem dúvida mais fácil do que na tal realidade... De uma certa forma, e apesar da incertidão final, o filme é uma success story à franco/ magrebina... A descrição que fizeste de um filme "sobre um homem de sessenta anos que, confrontado com uma situação de desemprego, decide criar um restaurante de cuscuz" parece-me muito mais fiel do que tudo o que dizes depois.

Mais alguém viu este filme? :mrgreen:


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